Especial ZAP | André Ventura: Chega é a “voz do descontentamento com o sistema”

Em entrevista ao ZAP, André Ventura garante que o Chega vai chegar à Assembleia da República para “criar uma nova direita” e para ser a voz da oposição que não tem medo e “que não se calará”.

Não há como esconder. André Ventura e o Chega são, desde sempre, controversos. Tudo começou, em 2017, durante as eleições Autárquicas, quando o então candidato pelo PSD à Câmara Municipal de Loures dirigiu um forte ataque à comunidade cigana em Portugal.

Na altura, o candidato social-democrata acusou os ciganos de terem um “sentimento de enorme impunidade” e de viverem num Estado de “auto-poder”. A atitude valeu-lhe palmadinhas nas costas de muitos portugueses, mas também levou a que o CDS-PP retirasse o apoio à sua candidatura.

Já em 2018, Ventura, entretanto vereador da Câmara de Loures, renunciou ao seu mandato por se sentir “deslegitimado” pela concelhia. Aquilo que inicialmente era um movimento para destituir Rui Rio da liderança do PSD transformou-se no 24.º partido político do país, o Chega.

Nas eleições Europeias do passado mês de maio, Ventura liderou a coligação Basta!, que juntou o Chega ao Partido Popular Monárquico (PPM) e ao Partido Cidadania e Democracia Cristã (PPV/CDC), tendo alcançado cerca de 45 mil votos (1,49%).

Estamos em outubro, mês em que chega o segundo e, talvez, o mais importante teste deste recém-partido: as Legislativas. Mas André Ventura não tem dúvidas de que vai conseguir um bom resultado.

“Não só na sondagem da Pitagórica para o JN e para a TVI, o Chega é o partido mais votado dos novos partidos (1,3%), como também temos em nossa posse uma sondagem da Eurosondagem que nos assegura a eleição em Lisboa. Isso deixa-nos felizes, não extraordinariamente eufóricos porque nunca valorizámos muito sondagens, mas é um sinal positivo”, afirma o cabeça de lista por Lisboa ao ZAP.

Programa do Chega é um “programa de rutura”

O Chega aposta essencialmente em três áreas: justiça, sistema político e sistema fiscal. Ventura considera que o programa eleitoral é “um programa de rutura e isso é que leva as pessoas a sentir, num contexto de forte bipolarização, que o Chega é o único que resiste a este efeito”.

Na área da justiça, as grandes bandeiras são a introdução da pena perpétua e a castração química dos pedófilos. “Queremos que pessoas como o senhor Pedro Dias ou como a mãe da Joana, ou como muitos outros criminosos, possam cumprir pena de prisão perpétua“.

“Temos penas absurdas para crimes hediondos e horríveis. Ainda na semana passada, tivemos mais um caso de uma freira assassinada por um homem que já tinha violado duas ou três mulheres e estava sempre em liberdade condicional ou em saídas precárias. A prisão perpétua é fundamental para acabar com este tipo de criminosos e para colocar esses predadores fora do olhar do público e fora da liberdade para o resto da vida”.

Relativamente à castração química dos pedófilos, Ventura sabe que é uma medida controversa, mas que o Chega é o único partido com coragem para a impor. “Nenhum partido tem coragem de o dizer, nós temos. Não temos receio de o dizer e as pessoas reconhecem esse valor”, atira.

E não podíamos falar de justiça, sem falar do funcionamento das prisões. “Queremos que o sistema prisional seja eficaz e que os presos também o sejam para que, no fundo, sustentem o sistema prisional. Somos nós, que trabalhamos, que andamos a pagar o sistema prisional que, muitas vezes, mais parece ser uma residencial do que uma prisão. Estas propostas são duras de ouvir, mas as pessoas percebem isto”.

“Queremos moralizar o sistema”

Relativamente à reforma do sistema fiscal, uma das principais propostas do Chega é a abolição do IMI, um imposto que Ventura considera ser “completamente estúpido”.

“Pagamos para comprar casa, pagamos para vender a casa e ainda temos de pagar pelo simples facto de ter uma casa. É fácil ir buscar as receitas que o IMI gera, mas queremos abolir completamente este imposto”, diz o candidato ao ZAP.

Outra das propostas é o fim da taxa progressiva do IRS, uma vez que o ex-PSD considera ser um imposto “que penaliza quem trabalha mais e quem produz mais riqueza”.

“É um imposto que, à medida que vamos trabalhando e produzindo mais, também nos penaliza mais. Devia ser ao contrário. O IRS devia premiar todos aqueles que trabalham e se esforçam mais”, explica.

Sobre o atual sistema político, André Ventura não tem dúvidas de que este precisa de ser moralizado, defendendo para isso a redução do número de deputados no Parlamento.

“Somos os únicos com coragem para defender uma redução a sério de deputados, queremos reduzir o número para 100, mesmo que isso nos prejudique a nós, ou seja, prejudique os novos e pequenos partidos como o Chega”.

Outro caso prende-se com as polémicas subvenções. “Queremos moralizar o sistema, como fizemos com o caso das subvenções vitalícias. Fomos o único partido a ir aos sítios onde estão estes dirigentes políticos que recebem subvenções. Estive na prisão de Évora a pedir ao dr. Armando Vara que renunciasse. Estive no PSD Madeira, a pedir a várias pessoas que renunciassem. As pessoas reconhecem estes atos de frontalidade e de transparência”.

Partido que gera amor e ódio

É por estas e por outras que o candidato por Lisboa considera que o Chega se “diferencia muito dos outros partidos” e por isso é que “as pessoas lhe dão mais relevo do que aos outros pequenos partidos”.

No entanto, questionado sobre a sondagem de setembro que mostra que 65% dos inquiridos nunca votariam em André Ventura, o próprio diz que há duas opções para explicar esta situação.

“É estranho as sondagens apontarem-nos um aumento e continuar a haver dados de que uma esmagadora maioria nunca votaria em mim. Das duas uma, ou isto é um partido que gera amor e ódio e, portanto, gera muito entusiasmo mas também muita hostilidade, ou então uma das sondagens está errada. No domingo teremos a certeza do que é que aconteceu”.

E quais são as expectativas para o dia 6? Ventura não esconde o otimismo, não só pelas sondagens, mas também pelo apoio que tem sentido nas ruas.

“O melhor resultado nestas eleições era conseguir formar um grupo parlamentar sólido, mas temos de ter os pés bem assentes na terra. Apesar das boas sondagens, somos muito cuidadosos, pragmáticos e respeitadores do voto dos portugueses. Por isso, o nosso grande objetivo é chegar à Assembleia para fazer as mudanças que temos de fazer e ser a voz do descontentamento com o sistema”.

Chega “vai criar uma nova direita”

Questionado sobre os últimos quatro anos e sobre a atuação da chamada geringonça, Ventura não se inibe de fazer algumas críticas, não só ao PS e aos partidos de esquerda que apoiaram este Governo, como também à falta de oposição por parte da direita.

“O percurso deste Governo é curioso porque nasce de uma coligação contra natura, uma vez que o PS se formou ideologicamente contra o PCP e agora formou uma coligação com uma base de apoio parlamentar assente precisamente no PCP”.

“Mas, na verdade, o que aconteceu foi uma verdadeira ilusão e provavelmente a maior ilusão da democracia portuguesa. Deu-se a ideia às pessoas de que se estava a devolver rendimentos, através nomeadamente dos impostos diretos, mas com a subida extraordinária dos impostos indiretos. Portanto, estou convencido de que os portugueses têm hoje menos no bolso ao fim do mês do que tinham”, critica.

“Transmitiu-se a ilusão de que esta manobra de ilusionismo contabilística e política rendeu ao Governo contas certas, devolução de rendimentos, melhor qualidade de vida. Acho que, muito em breve, os portugueses sentirão penosamente a política económica e fiscal desta geringonça. Para já ainda não é possível avaliá-lo, mas há vários sinais e indicadores de natureza económica que nos mostram que, alterando-se o contexto europeu e internacional, Portugal não criou estruturas suficientes nem desenvolveu ferramentas suficientes para ter uma economia competitiva”.

Sobre o PSD, a sua antiga casa, Ventura diz que o partido “perdeu a oportunidade de fazer uma oposição a sério” e afirma mesmo que a direita está “completamente desgovernada”.

“O dr. Rui Rio só acordou para a questão eleitoral há cerca de 15 dias. A dra. Assunção Cristas está mais preocupada em dizer que nunca se coligará com o Chega, e a atacar-me a mim, em vez de atacar o primeiro-ministro e a geringonça”.

“Até diria que a direita está completamente desgovernada mas, valha-nos Deus, o Chega vai entrar na Assembleia da República e vai criar uma nova direita, que essa sim vai ser de oposição firme ao Governo socialista, e ser uma oposição que não se calará”.

“Vamos denunciar todos os problemas que tivermos de denunciar, sem ter medo, sem ter receio de qualquer retaliação, casos como o de Tancos, o da freira assassinada, o do perigoso endividamento público que Portugal está a atravessar. Vamos ser essa voz, portanto, a direita está completamente desfragmentada e desorientada, mas o Chega vem aí para corrigir esta situação“.

FM, ZAP //

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