Verstappen e Hamilton percorreram 6420, 304 km, em 21 corridas espalhadas por 19 países e três continentes, para chegarem ao derradeiro Grande Prémio empatados

formula1.com / Twitter

Quando a história final da temporada de 2021 de Fórmula 1 for escrita, dificilmente se conseguirá fazer jus à emoção que Max Verstappen e Lewis Hamilton proporcionaram aos adeptos da categoria ao longo de 22 fins de semana. Entre vitórias, derrotas, desistências, voltas mais rápidas, acidentes e qualificações sprint, os dois chegam à derradeira corrida empatados.

Desde o início da era híbrida da Fórmula 1, os fãs da modalidade viram, a cada campeonato que se realizou desde então, a Mercedes superiorizar-se à concorrência, quer no que respeita ao mundial de pilotos quer no mundial de construtores. Após — os agora longínquos — testes de pré-temporada realizados no Bahrain, ficou no ar a ideia que esta hegemonia podia ser finalmente ameaçada pela Red Bull, com um monolugar cujo elevado rake se tornou uma imagem de marca e que se adaptava — não por acaso — ao estilo de condução de Max Verstappen, principal piloto da equipa. No fim de semana do primeiro Grande Prémio da temporada, essa superioridade parecia confirmar-se, com o piloto holandês a conquistar a pole position e Lewis Hamilton.

Na corrida, assistiu-se a um verdadeiro embate de titãs, não só entre pilotos, mas entre estrategas das duas principais equipas, com a liderança da prova a ser decidida nas boxes, mas sobretudo no momento em que Max Verstappen, após ultrapassar Lewis Hamilton, recebeu ordens de direção de corrida para que devolvesse a posição, já que a manobra foi consumada fora de pista. A polémica instalou-se de imediato nas redes sociais, depois de os internautas e fãs do automobilismo perceberem que, ao longo da prova, o piloto britânico saiu sucessivamente de pista para abrir a trajetória da curva onde a ultrapassagem de Verstappen também havia sido feita, desrespeitando, assim, os limites. À saída da ronda inaugural, Hamilton voltava a liderar a tabela do mundial de pilotos e a Mercedes, a de construtores.

 

Grande Prémio da Emília Romagna: aquela primeira chicana que se tornou um símbolo do que estaria para vir

Três semanas depois, a pista italiana que no passado foi o palco de uma das maiores tragédias da história da Fórmula 1, assistiu a mais um duelo dos dois candidatos ao título. Desta feita, foi Hamilton que levou a melhor na qualificação, com Max Verstappen a qualificar-se apenas em terceiro (atrás de Sérgio Pérez, o seu colega de equipa novato na Red Bull). No entanto, a vantagem do sete vezes campeão do mundo foi sol de pouca dura na corrida, já que o piloto holandês rapidamente se colocou lado a lado de Hamilton e, à chegada da primeira chicana, forçou o britânico para cima dos corretores, o que acabaria por o relegar para segundo lugar.

O que se seguiu foi um passeio para Verstappen, com Lewis Hamilton, numa pista em evolução face a um aguaceiro na fase inicial da corrida, a sentir dificuldades em aproximar o seu W12 do RB16B. O dia de Hamilton teve tudo para piorar quando, após uma ida às boxes para substituir os pneus de chuva pelos duros secos, perdeu o controlo do seu monolugar, saiu de pista e após percorrer alguns metros de gravilha, embateu com pouca intensidade no muro – suficiente para danificar a asa frontal.

A corrida do britânico acabaria por ser salva por um acidente entre o seu atual (Valtteri Bottas) o seu próximo colega de equipa (George Russel), o que motivou uma situação de bandeira vermelha, o regresso dos monolugares ao pitlane e a possibilidade de trocas de pneus e recuperações rápidas carros – ou seja, a substituição da componente partida do carro do britânico. Paralelamente, Hamilton também viu o tempo que perdera com o incidente recuperado, já que foi colocado na mesma volta do líder, Max Verstappen, quando a diferença, anteriormente, era maior. Após o recomeço, o britânico conseguiu galgar lugares, chegando mesmo ao segundo lugar do pódio e somando o ponto extra da volta mais rápida. Este ponto foi determinando para Hamilton se manter na liderança do campeonato, precisamente por um ponto.

 

Grande Prémio de Portugal: nova vinda a Portimão, nova vitória da Mercedes

Pela segunda vez no espaço de meio ano, a montanha russa de Portimão recebeu uma corrida do campeonato do mundo de Fórmula 1. Depois de em 2020 a prova ter sido marcada pelo domínio da Mercedes, a dúvida da verdadeira e efetiva superioridade da Red Bull seria novamente colocada à prova num circuito que, à partida deveria favorecer o seu monolugar. No entanto, tal não se veio a confirmar, com Valtteri Bottas a assegurar a pole position no sábado e Lewis Hamilton a garantir um arranque também da primeira linha da grelha. No Grande Prémio propriamente dito, a luta fez-se novamente entre o britânico e o holandês, já que Bottas, apesar de ao volante de um W12, se mostrou incapaz de os acompanhar.

Em pista, os dois adversários pelo título tiveram algumas batalhas, mas a superioridade do monolugar da Mercedes imperou e Hamilton acabaria por vencer com mais de 29 segundos de avanço.

 

Grande Prémio da Catalunha: a vitória dos estrategas da Mercedes

Considerada uma das corridas mais aborrecidas da temporada, o Grande Prémio de Barcelona contou este ano com nova vitória da Mercedes – e de Lewis Hamilton –, como já se tem tornado tradição. Apesar de Max Verstappen ter comandado a prova por diversas voltas, um segundo pitstop tardio da Mercedes acabaria por surpreender a equipa austríaca, já que Hamilton, com pneus em melhor estado, conseguiu chegar à traseira do Red Bull, a perder ritmo na fase final da corrida, e chegar à liderança da prova – que acabaria por vencer. A jogada valeu elogios aos estrategas da Mercedes, que , desta forma, conseguiram que o seu piloto alargasse a vantagem no mundial de pilotos.

 

Grande Prémio do Mónaco: o choque com a realidade dos homens de Brackley

Após uma fase inicial de campeonato marcada pelas vitórias e pela soma de pontos, no Mónaco, a Mercedes teve um embate com a realidade. Desde a as primeiras sessões no principado que a construtora germânica percebeu que os seus monolugares estavam longo de conseguir alcançar o topo da tabela de tempos. Na qualificação de sábado, enquanto Verstappen assegurou o segundo lugar – que poderia facilmente se poderia ter transformado em pole position não fosse o acidente de Leclerc interromper de forma antecipada e abrupta a sessão –, Hamilton não foi além de um surpreendente sétimo posto.

Este resultado poderia não ser dramático, não estivesse em causa uma das pistas mais limitadoras do campeonato de Fórmula 1 no que toca a ultrapassagens. Na realidade, o fim de semana negro da Mercedes estava a apenas a começar. No domingo, dia da corrida, Charles Leclerc não chegou a arrancar para o Grande Prémio, o que ditou a subida – virtual – de Verstappen para o primeiro lugar da grelha de partida, seguido de Valtteri Bottas.

Como seria de esperar, perante a inexistência de incidentes nas boxes, o neerlandês manteve o primeiro lugar da corrida. O mesmo não pôde dizer a Mercedes. Se com Valterri Bottas, a incapacidade de retirar a porca que prendia o pneu frente direito do W12 ditou o abandono do finlandês, com Lewis Hamilton, alguns erros no tempo de entrada nas boxes e de posicionamento em pista após a troca de pneus, ditaram a perda de posições e, mesmo com o abandono de dois carros face à grelha de partida inicial, o término da prova no sétimo lugar – o mesmo em que se tinha qualificado. Pela primeira vez na sua carreira, Max Verstappen liderava o mundial de pilotos do campeonato de Fórmula 1.

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O fim-de-semana no Mónaco seria um ponto de viragem no campeonato de Fórmula 1, com a Red Bull a dar início a um período de domínio, ao mesmo tempo que a Mercedes lutava para recuperar a velocidade de ponta em reta que sempre caracterizou os seus monolugares.

 

Grande Prémio do Azerbaijão: os azares tocam a todos — até aos campeões

Depois de um dos fins de semana mais terríveis da sua história recente, a Mercedes chegou a Baku determinada em deixar os maus resultados para trás. Numa pista onde se atingem as velocidades mais elevadas do campeonato, o W12 seria teoricamente favorito, mas na qualificação o que se assistiu foi a uma fotocópia quase a papel químico do que acontecera no Mónaco, com Charles Leclerc a estabelecer a volta mais rápida e logo de seguida a sofrer um acidente que ditou a interrupção da sessão. Desta forma, Lewis Hamilton garantiu, com as tentativas feitas anteriormente, o segundo lugar na grelha de partida, seguido de Max Verstappen, na terceira posição.

Apesar das duas poles positions em dois Grandes Prémios consecutivos, o piloto monegasco da Ferrari sabia que a liderança da corrida seria um objetivo difícil de conseguir. Tal veio a provar-se logo nas primeiras voltas da corrida, quando foi ultrapassado por Hamilton e Verstappen que, desde aí, passaram a lutar entre si pela liderança da prova. Ainda assim, foi a paragem nas boxes para a mudança obrigatória de pneus que quase ia decidindo o vencedor.

Com uma paragem mais lenta do que o habitual, Hamilton viu-se ultrapassado em pista por Verstappen — que, por sua vez, teve uma paragem de 1.9 segundos. À volta 46 de 51, quando tudo parecia decidido e a Red Bull se encaminhava para o 1-2 (Sérgio Pérez também tirou partido do erro dos mecânicos da Mercedes), eis que o pneu traseiro direito de Max Verstappen rebenta — de forma semelhante à que já acontecera com Lance Stroll — e o carro do neerlandês é projetado contra o muro, levando à interrupção da corrida para que os comissários de pista conseguissem retirar o monolugar da reta da meta.

Sem o principal adversário em pista, Lewis Hamilton parecia lançado para uma nova vitória, não fossem os seus travões, a fumegar no recomeço, falharem e o britânico seguir em frente, rumo à escapatória, na primeira curva. Após o fim da corrida, a Mercedes viria a descobrir que Hamilton ativou, de forma não premeditada, o botão do “brake magic”, o qual faz com que todo o sistema de travagem do carro seja transferido para as rodas da frente.

Sérgio Pérez acabaria por vencer a corrida — a segunda vitória da sua carreira — e Hamilton foi apenas 17.º, atrás dos dois Haas. Já Valtteri Bottas, foi 12.º, o que resultou num fim de semana sem pontos — e para esquecer — para a marca de Estugarda.

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Grande Prémio de França: a vingança servida fria pelos estrategas da Red Bull

No regresso às pistas tradicionais, desta feita em França, a Mercedes sentiu novamente dificuldades em manter o seu nível e fazer jogo igual com a Red Bull, que continuava a impor o seu ritmo. Max Verstappen conquistou uma nova pole position, mas logo na primeira curva, devido a uma má abordagem e incapacidade em controlar o RB16, perdeu a liderança da prova. Acabaria por a reconquistar face a um undercut bem-sucedido e, na fase final, com uma réplica da estratégia que a Mercedes lhe aplicara em Barcelona.

Enquanto a construtora alemã optou por fazer a corrida apenas com uma paragem, a Red Bull arriscou uma segunda e com pneus novos, Max Verstappen alcançou Hamilton nas últimas voltas da corrida. A Mercedes dava assim continuidade à onda de maus resultados, com Hamilton a somar apenas 25 pontos em três corridas.

 

Grande Prémio da Estíria: o domínio da Red Bull estende-se e a Mercedes incapaz de retaliar

Na primeira de duas corridas na casa da Red Bull, Max Verstappen voltou a impor a sua superioridade face aos Mercedes de Lewis Hamilton e de Valtteri Bottas tanto na qualificação como na corrida. De facto, toda a prova foi um passeio no parque para o holandês, que só não dividiu o pódio com o colega de equipa devido a uma má paragem nas boxes que entregou de mão beijada o terceiro lugar a Bottas. Nesta altura, Verstappen tinha ganho três das últimas quatro corridas do campeonato, aumentando, assim, a margem da sua liderança.

 

Grande Prémio da Áustria: o passeio de Max no quintal da Red Bull

Na semana seguinte, a senda de vitórias da Red Bull continuou e a margem para a Mercedes aumentou novamente. Para além de ser vencida pela principal rival, a Mercedes foi até ultrapassada, em qualificação e em corrida, pela Mclaren. Lando Norris ficou a apenas 49 centésimas de segundo da pole de Verstappen e no Grande Prémio soube aproveitar os danos do monolugar de Lewis Hamilton – provocados pelas sucessivas passagens pelos corretores e que volta atrás de volta lhe custavam segundos na luta pelo segundo lugar – para conquistar o terceiro pódio da temporada. Valtteri Bottas acabou por salvar o dia para a Mercedes, com um terceiro lugar. Hamilton fecharia em quarto.

 

Grande Prémio da Grã Bretanha: o ressurgir de Hamilton (e do campeonato)

Sem a presença de um Grande Prémio em solo germânico no calendário de 2021, o fim de semana em Silverstone era o que a Mercedes tinha este ano como mais próximo de uma “corrida em casa”. Na cabeça de Lewis Hamilton e companhia, começava a ficar claro que ou recuperavam rapidamente a margem perdida para a Red Bull ou as contas do título poderiam ficar decididas mais cedo do que todos esperavam à entrada da competição. A ocasião marcava também a estreia de um novo formato de qualificação — que a organização do campeonato do mundo de Fórmula 1 acredita ser capaz de atrair mais adeptos e sobretudo os que chegaram fruto do fenómeno Drive to Survive.

Depois de conseguir o tempo mais rápido na qualificação de sexta — que decorreu segundo os moldes tradicionais e estabeleceu a grelha de partida para o dia seguinte —, Hamilton viu-se ultrapassado por Verstappen logo no arranque da qualificação sprint, no sábado, o que o atirou para a segunda posição da tabela e, assim, definiu o seu lugar para o início do Grande Prémio.

A corrida de domingo ficou marcada por uma disputa de posição que acabaria por se tornar, novamente, elucidativa da época que os fãs de Fórmula 1 estavam a presenciar. Os dois candidatos ao título acabaram por colidir à saída da curva Copse, com o holandês a ser projetado com grande violência contra as barreiras, ficando arredado da corrida — ao passo que Hamilton conseguiu continuar e até vencer a prova. A interrupção da corrida, por situação de bandeira vermelha, foi determinante para que a Mercedes conseguisse reparar os pequenos estragos no monolugar do britânico. À saída de Silverstone, Hamilton estava mais perto de Verstappen: apenas três pontos os separavam depois de semanas sucessivas em que o holandês somou e somou.

 

 

Grande Prémio da Hungria: e tudo Bottas levou

Depois de uma primeira metade de campeonato exigente, pilotos e equipas estavam ansiosos por alguns dias de descanso que permitissem acalmar os ânimos que saíram de Silverstone muito exaltados face às trocas de acusações relacionadas com o acidente entre Hamilton e Verstappen e sobre o hipotético culpado.

Mas antes havia o Grande Prémio da Hungria para disputar, uma corrida que poderia fazer com que o holandês regressasse à liderança do campeonato ou com que Hamilton reforçasse a liderança que finalmente recuperara em casa e não foi preciso esperar muito para perceber que o campeonato de 2022 seria distinto de tudo o que os fãs da modalidade assistiram antes. Logo no arranque, um mau início e uma travagem tardia de Valtteri Bottas levou o finlandês a embater em Lando Norris, que o ultrapassara, e a motivar um acidente em cadeia que acabou por afetar quase todos os monolugares em pista.

Lewis Hamilton foi dos poucos que conseguir escapar, sobretudo por ter partido da pole position, o que lhe permitir imediatamente fugir da confusão. Face à quantidade de carros danificados e parados em pista, a corrida foi suspensa para que os comissários conseguissem terminar o seu trabalho de remoção de detritos e dos próprios monolugares.

Durante a paragem nas boxes, motivada pela interrupção da prova, o pisco molhado pela chuva que caiu antes do início da corrida secou, mas pilotos e equipas não arriscaram, com os carros a saírem para a volta de formação de grelha de partida de pneus intermédios de chuva. Ao contactarem com as condições da pista, quase todos optaram por regressar às boxes para calçar pneus médios, à exceção de Lewis Hamilton, que prosseguiu sozinho para a grelha e protagonizando um dos momentos mais caricatos da história da modalidade.

Depois do arranque, o britânico teve mesmo de parar e caiu para último, sendo obrigado a fazer uma corrida da frente para trás que teve como principal adversário Fernando Alonso. Caso o espanhol não detesse o sete vezes campeão do mundo durante tantas voltas, este poderia muito facilmente ameaçar a liderança de Esteban Ocon, a correr pela primeira vitória da carreira na Fórmula 1. Hamilton acabaria a corrida no terceiro lugar, que se transformou em segundo face à desqualificação de Sebastian Vettel. Já Max Verstappen, apanhado na molhada inicial e com graves danos no seu monolugar, conseguiu apenas somar dois pontos, resultantes do nono lugar.

 

Grande Prémio da Bélgica: o Grande Prémio que realmente não o foi

Mais do que relevante para as contas do título, o Grande Prémio da Bélgica ficará na história do desporto motorizado como um dos episódios mais tristes. Devido às graves e adversas condições meteorológicas em Spa Francorchamps, as várias sessões de Fórmula 1 do fim de semana acabaram comprometidos. Depois de, no sábado, a qualificação ter sido interrompida face a um grave acidente de Lando Norris, no domingo, o arranque oficial da corrida sofreu diversos atrasos, com a direção de corrida a tentar encontrar uma janela temporal em que a chuva e o nevoeiro dessem tréguas e permitissem a realização de parte da corrida — de forma a que pudessem ser atribuídos pontos.

Tal acabou por não acontecer e o que veio a acontecer foi um autêntico passeio de carros de Fórmula 1 atrás de safety car sem que qualquer ultrapassagem fosse permitida — tal como ordenam as regras. Desta forma, todos os pilotos terminaram a corrida nas mesmas posições em que se qualificaram — e com os devidos ajustes na qualificação face ao acidente de Sérgio Pérez nas voltas da instalação. Cumprindo o mínimo de voltas exigidas, foram atribuídos metade dos pontos aos dez primeiros e Max Verstappen, que assegurou a pole position no sábado, venceu a prova, ao passo que Lewis Hamilton foi terceiro, sem que nenhum dos dois pudesse disputar posições.

 

Grande Prémio dos Países Baixos: consagração de Verstappen perante a onda laranja que nunca o abandona

Uma semana após a desilusão da Bélgica — no que se poderia considerar o primeiro de dois Grande Prémios em casa para Max Verstappen, nascido precisamente neste país — os olhos dos amantes de Fórmula 1 viravam-se agora para Zandvoort, onde a categoria já não corria há 25 anos. Perante um mar laranja, que marcou presença em quase todas as corridas europeias, o holandês dominou qualificação e corrida, numa pista, que devido às suas curvas banking, favorecia muito o RB16B. Os homens da Mercedes conseguiram, ainda assim, o segundo e terceiro lugares, havendo, à saída do fim de semana, uma diferença de três pontos entre os dois pilotos candidatos ao título.

 

Grande Prémio de Itália: o templo da velocidade pintou-se de papaia e os candidatos ao título acabaram na gravilha

Se Zandvoort era um circuito que favorecia essencialmente o RB16B, pelo seu rake elevado, Monza, com as suas largas retas, deveria ser um terreno favorável aos W12. As previsões confirmaram-se logo na sexta, na qualificação, com os dois Mercedes a estabelecerem os tempos mais rápidos da qualificação — novamente em fim de semana com qualificação sprint a estabelecer a grelha de partida para a corrida de domingo —, uma vantagem que se viria a esfumar ao longo do fim de semana.

No sábado, no arranque da qualificação sprint, Lewis Hamilton perdeu imediatamente quatro lugares (acabaria quinto) e Valtteri Bottas, apesar de conquistar o primeiro lugar, teria que cumprir uma penalização por troca da unidade motriz e seria atirado para o fim da grelha. Max Verstappen foi, assim, o grande vencedor, conquistando uma pole position virtual.

Na corrida propriamente dita, o holandês foi ultrapassado logo no arranque pelo antigo colega de equipa Daniel Ricciardo, de quem não se conseguiu aproximar em toda a corrida. Já Lewis Hamilton, após algum tempo a perseguir Lando Norris, chegou ao terceiro lugar. No entanto, o destino — ou o azar — tinham outros planos para os dois candidatos pelo título. Depois de uma paragem anormalmente lenta nas boxes para Verstappen, este viu-se lado a lado com o sete vezes campeão do mundo e, numa disputa por posição na primeira chicana do circuito, os dois viram-se envolvidos num acidente em que o holandês foi projetado para cima do monolugar de Hamilton — face ao efeito de um corretor. Os dois acabaram na gravilha, arredados da luta pela liderança da prova, e sem a possibilidade de pontuar.

 

 

Grande Prémio da Rússia: a chuva veio para salvar Hamilton

Após uma jornada tripla intensa, que terminou novamente com um acidente entre os, nesta fase, únicos candidatos ao título, a Fórmula 1 parou uma semana, seguindo posteriormente viagem para Sóchi, na Rússia, pista dominada pela Mercedes desde que ali se começou a competir. Desde o início do fim de semana que no paddock corria o rumor de que Max Verstappen poderia ser penalizado caso a Red Bull optasse por mudar a sua unidade motriz — a quarta da época e mais uma do que é permitido pelos regulamentos.

Tal veio efetivamente a concretizar-se, com a equipa a decidir aproveitar uma penalização de três lugares herdada de Monza e sofrer os males todos de uma vez. Numa qualificação francamente má, Lewis Hamilton, por sua vez, foi apenas quarto, atrás do seu próximo colega de equipa, George Russel, de Carlos Sainz e de Lando Norris — o seu compatriota que conquistou a primeira pole position da carreira.

Na corrida, Hamilton perseguiu, numa primeira fase, Sainz pela liderança da prova e, posteriormente, Norris, mas, com a chegada da chuva e perante as constantes recusas do piloto da Mclaren em seguir os conselhos da equipa para ir às boxes trocar para pneus intermédios, o sete vezes campeão do mundo — que não podia arriscar um comportamento semelhante sob pena de perder as hipóteses de lutar pelo título — cumpriu com as ordens da equipa e acabou por ganhar um Grande Prémio em que a estrela de campeão voltou a estar do seu lado. A instabilidade trazida pela chuva ajudou também Max Verstappen, que conseguiu, de forma quase impercetível, chegar ao segundo lutar e limitar os danos da troca de motor.

 

 

 

Grande Prémio da Turquia: novo meio motor onde Hamilton já foi feliz

Depois de Verstappen, foi a vez de Hamilton ser penalizado por uma troca de unidade motriz há muito anunciada. A Mercedes escolheu não o fazer de uma vez, optando por trocar apenas parte dos componentes, o que resultou numa penalização mais pequena. O britânico, que conseguira o tempo mais rápido da qualificação, foi relegado para o 11.º, ao passo que o seu colega de equipa, com a segunda volta mais rápida de sábado, ficou encarregue de segurar Verstappen no arranque e, na melhor das hipóteses, ir embora.

A parte de Bottas foi cumprida tal como planeado pelos estrategas da Mercedes, mas Hamilton ficou aquém, sobretudo se se comparar a sua recuperação com a de Verstappen em Sochi. O britânico acabou em quinto lugar, ainda atrás dos dois Red Bulls e até de Charles Leclerc, o que levou muitos a especular se não teria sido uma melhor decisão, por parte da sua equipa, trocar toda a sua unidade motriz em vez de o fazer aos poucos e colecionar penalizações. Por esta altura, Verstappen (que terminava em segundo, confirmando a superioridade da Mercdes naquela pista) recuperava a liderança do mundial de pilotos, que perdera para Hamilton em Sochi.

 

Grande Prémio dos Estados Unidos: a conquista do Texas pelos Bulls

Finda a temporada europeia, a Fórmula 1 rumou aos Estados Unidos, com o clima de decisão do título a adensar-se. Mais uma vez, a Mercedes chegou COTA (Circuit of the Americas) como favorita, mas a impresibilidade da temporada de 2021 ensinou os fãs da modalidade a não entrarem num fim de semana de competição com certezas sobre que equipa — ou que piloto — se poderia superiorizar. De facto, Max Verstappen mostrou logo na qualificação que dificilmente o W12 poderia fazer jogo igual com o seu RB16B e na corrida, apesar de esta ter ficado, numa fase inicial, nas mãos de Hamilton. As paragens nas boxes foram determinantes para colocar o neerlandês no primeiro lugar, de onde não saiu mais até ao final da corrida.

À entrada para duas corridas em pistas que lhe seriam favoráveis — e com a Mercedes a não conseguir superiorizar-se até nas pistas em que seria teoricamente favorita — , a Red Bull tinha razões para acreditar que estava em boas condições para entregar ao seu leão neerlandês o primeiro título mundial da sua carreira.

 

Grande Prémio da Cidade do México: a surpresa da Mercedes que não o chegou a ser

A derrota no Texas feriu profundamente a Mercedes, que na chegada ao México, onde a Red Bull se sagrou vencedora nas últimas duas das três últimas edições, não tinha atirado a toalha ao chão, mas perto disso. Ainda assim, o esforço dos seus engenheiros, em Brackley, valeu a Valtteri Bottas e a Lewis Hamilton os tempos mais rápidos da qualificação, com marcas que causaram surpresa aos amantes da categoria. Essa superioridadenão se confirmou na corrida, com Max Verstappen, terceiro na grelha de partida, a conseguir, fruto de um excelente arranque, chegar à primeira curva na liderança.

Lewis Hamilton rapidamente passou de presa a caçador, tendo ainda que, nas últimas voltas, defender a sua posição dos ataques de Sérgio Pérez, mexicano que a correr em casa contou com o apoio do seu público para alcançar o terceiro lugar. Verstappen saía do México com uma vantagem de 19 pontos para Hamilton, com apenas quatro corridas para disputar.

 

Grande Prémio de São Paulo: Hamilton “reencarnou” Senna e cunhou um dos melhores fins de semana da sua carreira

Para enfrentar o que restava da temporada, Hamilton teve, finalmente, no Brasil um motor novo. No entanto, com a prenda veio uma penalização de cinco lugares que deveria cumprir na corrida de domingo. Aquilo com o que a Mercedes não estava a contar era — em mais um fim de semana com a grelha de partida definida por uma qualificação sprint no sábado — uma desqualificação na qualificação de sexta-feira, derivada do incumprimento das medidas legais estabelecidas para as asas posteriores dos monolugares, a qual foi detetada numa inspeção feita pelos comissários.

Isto obrigou Hamilton a dizer adeus à pole conquistada e a partir do 20.º lugar da grelha de partida para a mini corrida de sábado. O castigo foi inesperado e, na opinião dos homens da Mercedes, injusto. O inquestionável é que o sete vezes campeão do mundo transformou toda a sua frustração em mortivação para ultrapassar 15 monolugares numa corrida de apenas 24 voltas — o que pressagiava o que poderia fazer, com o motor novo e fresco, no domingo, ao arrancar de 10.º.

Os piores pesadelos da Red Bull confirmaram-se mesmo e depois de nas primeiras voltas “despachar” com relativa facilidade os monolugares inferiores ao seu, Hamilton chegou-se mesmo à traseira do RB16B de Max Verstappen, consumando a ultrapassagem a 11 voltas do fim. A partir daí, o britânico construiu uma vantagem de mais de dez segundos para o holandês.

 

 

Grande Prémio do Catar: a vez de Hamilton passear em terreno desconhecido

Não se sabe se a vitória contundente de Hamilton no Brasil poderá ter abalado animicamente as hostes da Red Bull, mas o que se assitiu no fim de semana seguinte, no Catar, foi um passio no parque para o britânico, que nem teve de recorrer ao motor novo estreado no Brasil. A superioridade começou a ser visível logo na qualificação para o Grande Prémio, quando Verstappen ficou a mais de meio segundo de Hamilton, e prolongou-se para a corrida.

O fim de semana do holandês teve ainda outro percalço: uma penalização de cinco lugares na grelha de partida por desrespeitar duplas bandeiras amarelas na qualificação, que o relegou para sétimo lugar. Mesmo assim, Max Verstappen conseguiu facilmente (e rapidamente) chegar ao segundo lugar do pelotão e perseguir Lewis Hamilton, mas daí não passou, face à superioridade clara do W12. Assim que se tornou claro que o primeiro lugar não era alcançável, o holandês baixou o ritmo, mantendo sem sobressaltos o segundo lugar.

 

Grande Prémio da Arábia Saudita: nas margens do Mar Vermelho, os deuses do automobilismo alinharam-se para uma das corridas mais apoteóticas da história

À chega do penúltimo fim de semana de competição, as cartas estavam todas em cima. A recuperação de última hora da Mercedes relançou a luta pelo título, apesar de, numa combinação de resultados improváveis, Max Verstappen se poder sagrar campeão já na Arábia Saudita. Na teoria, tratava-se de mais um circuito — novo, é certo — favorável à Mercedes, mas na qualificação de sábado assistiu-se a uma volta rápida do neerlandês da Red Bull que quase entrou na história e quase lhe garantiu a pole posistion. Quase porque à saída da última curva, entrada da reta da meta, e com o monolugar no limite, acabou no muro, entregando a Hamilton o primeiro lugar da grelha de partida e a Bottas o segundo.

A corrida contou com três começos, dois dos quais motivados por acidentes que ditaram a sua interrupção. Cada arranque teve a sua história, mas na memória de todos os que assistiram à prova ficará a manobra de Hamilton sobre Verstappen para recuperar uma posição que a direção da corrida determinou que lhe deveria ser devolvida — apesar de o britânico não ter sido informado atempadamente pelo seu engenheiro. A disputa acabou com o choque entre os dois e perante a insistência de Max Verstappen em não ceder o lugar, foi lhe atribuída uma penalização de cinco segundos, a aplicar ao tempo final.

https://twitter.com/F1/status/1467597429491044361?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1467597429491044361%7Ctwgr%5E%7Ctwcon%5Es1_c10&ref_url=https%3A%2F%2Fzap.aeiou.pt%2Fhamilton-vence-arabia-saudita-decisao-titulo-ultima-corrida-448674

Após receber esta informação, Verstappen acabou por deixar passar Hamilton (os seus pneus médios desgastados já não lhe permitiram dar luta), que, novamente, construiu uma margem significativa e acabou por vencer a corrida com volta mais rápida — atirando, assim, a decisão do título para o Abu Dhabi após estabelecer um empate pontual digno de um guião de Hollywood.

Independentemente de quem cruze a meta primeiro amanhã, história será feita. Caso Lewis Hamilton vença, alcançará um recorde de oito títulos mundiais. Caso a vitória seja de Max Verstappen, este será o primeiro neerlandês a conseguir um título na categoria rainha do automobilismo.

 

 

  Rita Moutinho, ZAP //

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