2 de março de 2020. Confinamentos, recordes, três vagas e um “milagre” depois

José Sena Goulão / Lusa

O primeiro caso de covid-19 em Portugal foi registado há precisamente um ano. 365 dias depois, o medo esfumou-se, mas a incerteza permanece.

A 2 de março de 2020 foram confirmados em Portugal os primeiros casos de infeção de covid-19. Esta terça-feira, um ano depois do início de uma pandemia que continua a devastar o mundo, Portugal regista, no total, 804.956 casos confirmados, 16.351 óbitos, mais de 720 mil recuperados e 68.370 casos ativos.

Não são os únicos, mas são os principais números que marcam o último ano dos portugueses, que se viram mergulhados numa crise sanitária que não avisou, antecipadamente, que ia chegar. Colocou a nossa vida em suspenso, impediu-nos de abraçar família e amigos, mudou a forma como trabalhamos e deu-nos a conhecer o mundo por trás de um ecrã.

Os alarmes soaram numa segunda-feira, mas o tsunami depressa abalou todo o território nacional. Aquele que era, no início, apelidado de “vírus chinês” foi confirmado em Portugal no dia 2 de março: tratava-se de um médico que esteve de férias no norte de Itália (uma região muito penalizada pela pandemia) e de um homem que esteve em Espanha.

Os dois pacientes infetados foram internados em hospitais do Porto – um no Hospital de Santo António e outro no Hospital de São João, com o norte a dar o tiro de partida naquela que seria uma das maratonas mais difíceis de completar.

Quinze dias depois, a 16 de março de 2020, as autoridades de saúde confirmaram a primeira vítima mortal. Marta Temido anunciou, numa conferência de imprensa, a morte de um homem de 80 anos, com vários problemas de saúde associados, que estava internado no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Foi a primeira de milhares de vidas perdidas para um vírus inimigo.

“Esta é uma verdadeira guerra”

No dia 18 de março do ano passado, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, anunciou ao país “uma decisão excecional num tempo excecional” – aquele que seria o primeiro estado de emergência para fazer face ao que considerou ser “uma verdadeira guerra” que iria demorar a atingir o pico.

A pandemia de covid-19 “vai ser mais intensa, vai durar mais tempo” do que as que “já conhecemos na nossa democracia”, disse, na altura, o chefe de Estado.

“Está a ser, e vai ser, um teste nunca vivido ao nosso Serviço Nacional de Saúde e sociedade portuguesa, chamada a uma contenção e tratamento em família sem precedentes. Um desafio enorme para a nossa maneira de viver e economia”, acrescentou.

Desde então, Portugal soma já 12 estados de emergência (o último dos quais a iniciar esta terça-feira).

Em meados de março, o país fechou-se em casa, as escolas encerraram, os estabelecimentos de serviços não-essenciais fecharam portas e os voos para Espanha e Itália foram suspensos. A pandemia continuou a ganhar terreno e, em abril, Portugal atingiu o pico da primeira vaga.

Depois de um período tumultuoso e de uma semana crítica (entre 30 de março e 5 de abril), os números começaram a desacelerar. No final de abril, o Governo apresentou o plano do desconfinamento, dividido em três fases.

Nessa altura, a atuação de Portugal foi elogiada lá fora e Marcelo Rebelo de Sousa chegou a falar num “milagre português“.

No dia 30 de abril, o Governo aprovou um plano de transição da emergência para uma situação de calamidade: os serviços culturais começaram a abrir, os transportes públicos começaram a circular com menos pessoas, as máscaras passaram a ser obrigatórias, os ajuntamentos de mais de 10 pessoas foram proibidos e o teletrabalho continuou (com muitos a defenderem, ainda hoje, que é nele que reside o futuro das empresas).

O suspiro de alívio no verão e a segunda vaga

No verão, o alívio e a estabilização dos números. Com a diminuição do número de casos diários e de óbitos, houve também uma redução progressiva das restrições no país em junho, julho e agosto. Em setembro, o arranque do ano letivo levou o Governo de António Costa a mudar de ideias.

Tal como se previa, os números voltaram a aumentar, na sequência do aumento de deslocações e, em meados de outubro, foi declarado estado de calamidade com medidas mais restritivas. Dia 23 de outubro, o Parlamento aprovou o uso obrigatório de máscara em espaços públicos, com coimas entre 100 e 500 euros para os incumpridores.

Em novembro, o Presidente da república viu-se obrigado a decretar um novo estado de emergência, para fazer frente a uma segunda vaga que se veio a revelar mais mortífera do que a primeira. Apesar de a taxa de mortalidade ter sido elevada em novembro, foi o mês de dezembro o mais mortal.

O pico da mortalidade da segunda onda foi registado no mês em que se comemora o Natal e no mês em que Portugal dava os primeiros passos do plano de vacinação. Mesmo assim, a pandemia insistiu em não dar tréguas.

Do milagre ao pesadelo: o pós-Natal

Em janeiro de 2021, os casos de infeção, os óbitos e os internamentos dispararam na sequência do alívio das medidas restritivas no Natal.

A 15 de janeiro, o Governo avançou com um novo confinamento geral, que não foi suficiente para travar a escalada de casos. A partir de 22 de janeiro, as escolas foram encerradas e as atividades letivas suspensas durante 15 dias.

O pior dia da pandemia foi registado a 28 de janeiro: Portugal registou 303 óbitos num só dia e 16.432 novas infeções.

O crescimento da pandemia nesta terceira vaga pode ser explicado pelo alívio das medidas no Natal e pela variante britânica, mais contagiosa do que a estirpe “original” do vírus Sars-Cov-2. Os números refletiram-se em consequências reais para o Serviço Nacional de Saúde (SNS), que atingiu o pico de internamentos a 1 de fevereiro: 6.869 pessoas internadas, 865 das quais nos cuidados intensivos.

A gravidade da situação pandémica levou o Ministério da Saúde português a aceitar ajuda estrangeira e, a 3 de fevereiro, uma equipa médica militar alemã pisou o território nacional disposta a ajudar Portugal. Mais tarde, chegaram mais duas equipas – uma do Luxemburgo e outra de França – que estão atualmente a operar em Évora e em Almada.

E se, meses antes, Portugal foi elogiado pelo combate à pandemia, em fevereiro o país continuava a fazer correr muita tinta pela imprensa estrangeira, mas não pelos melhores motivos.

Os efeitos devastadores da covid-19 foram destacados em várias publicações, desde a CNN ao The New York Times, e um especialista britânico até pintou um retrato da situação portuguesa, explicando por que estávamos a ser atingidos tão brutalmente por este inimigo invisível.

O espanhol El País também destacou os efeitos da pandemia, num artigo intitulado “Portugal, pesadelo depois do Natal”.

A esperança que traz a vacinação

Os números estão agora a descer, mas o regresso à normalidade ainda é uma incógnita. Ao que tudo indica, o confinamento vai manter-se, pelo menos, durante o mês de março.

A esperança reside no plano de vacinação. O Almirante Gouveia e Melo, responsável pela task force, já antecipou que a imunidade de grupo (70% da população adulta vacinada) pode chegar em agosto, apesar dos atrasos.

Desde o início da vacinação em Portugal, já foram administradas 868.951 vacinas. Ao todo, 603.588 pessoas receberam a primeira dose e 265.366 pessoas já têm a vacinação completa.

Até ao final de março, o objetivo é vacinar 80% dos idosos com mais de 80 anos. Uma das metas a ser alcançada – a vacinação dos grupos de risco entre os 65 e os 79 anos com patologias associadas – está a ser ameaçada pelo facto de a vacina da AstraZeneca não ser recomendada para pessoas a partir dos 65 anos.

Portugal estima receber, até ao final do primeiro semestre, 2,5 milhões de vacinas, cerca de metade dos 4,4 milhões previstos inicialmente. Espera-se que o processo seja acelerado a partir do segundo trimestre, quer pela entrega de mais vacinas, quer pela aprovação da vacina da Janssen, produzida pelo grupo Johnson & Johnson.

Um ano depois do início da maior tempestade, tudo parece demasiado nublado. A incerteza é, 365 dias depois, o único dado adquirido.

Liliana Malainho Liliana Malainho, ZAP //

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