Especial ZAP | Maria Cidália Guerreiro: Milagre económico do Governo não passa de “forrobodó de mentiras”

(fc) André Kosters / Lusa

A cabeça de lista do PCTP/MRPP por Lisboa faz uma avaliação negativa destes quatro anos, a mando do Governo PS com a ajuda das “suas muletas”, e diz que os portugueses continuam a pagar uma dívida que não contraíram.

2019 não está a ser um ano fácil para o Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP). Em fevereiro deste ano, o partido perdeu o seu fundador Arnaldo Matos, em quem via “um incansável combatente marxista que dedicou toda a sua vida ao serviço da classe operária e à luta pela revolução comunista e por uma sociedade sem classes”.

Para além da perda deste “querido camarada”, o PCTP/MRPP vê-se a braços com três eleições num só ano — Europeias, Regionais da Madeira e Legislativas —, não tendo alcançado bons resultados nos dois primeiros testes.



Nas Europeias, que decorreram em maio, o partido obteve apenas 27.222 votos (0,82%) e, por sua vez, nas Regionais da Madeira, que aconteceram no passado dia 22 de setembro, angariou apenas 601 votos (0,42%).

Numa entrevista concedida ao ZAP, Maria Cidália Guerreiro, cabeça de lista do PCTP/MRPP por Lisboa, considera que ser um partido pequeno em Portugal não é fácil e nunca foi, sobretudo porque têm de “remar contra o monopólio da comunicação social nas mãos da burguesia e dos seus partidos”.

“A nossa mensagem não só é mais difícil de ser acolhida de imediato pelas massas, como mais limitadamente chega a elas devido à ‘barragem informativa’ a que o PCTP/MRPP está sujeito há mais de 40 anos”, critica.

E, por isso, não a surpreende o facto de o PS aparecer quase sempre por cima nas sondagens, já que “toda a máquina de propaganda está apostada em alimentar este forrobodó de mentiras quanto ao ‘milagre económico'”.

Governo PS e as suas muletas

Questionada sobre os últimos quatro anos, a cabeça de lista por Lisboa fez uma avaliação negativa desta geringonça, afirmando que só veio confirmar aquilo que já estava à espera.

“Este Governo — agora com as muletas do PCP, BE e Verdes, e agora até do PAN — não só prosseguiu como agravou as consequências gravosas para o povo que o anterior Governo de coligação entre a direita e a extrema-direita, a mando da troika, tinha imposto”.

Maria Cidália Guerreiro considera que “o povo português continua a pagar uma dívida que não contraiu e da qual não retirou qualquer benefício” e está a braços com “a maior carga fiscal de sempre”.

A também companheira de Arnaldo Matos recorda que a “política Salazarista do ‘défice zero’ e as cativações não constituíram mais do que uma fraude para iludir o que o Governo já sabia de antemão — bem como as suas muletas —, isto é, que os orçamentos que apresentavam e faziam aprovar não eram para ser cumpridos”.

Além disso, Maria Cidália Guerreiro não esquece que António Costa e o seu Governo atuaram como “autênticos fura-greves” nas lutas como as dos professores, dos enfermeiros, dos estivadores e dos motoristas de matérias perigosas.

Olhando para o atual Código do Trabalho, a cabeça de lista do PCTP/MRPP não tem dúvidas: é “fascista” e há muito que já devia ter sido revogado. Assim como já deveria ter sido revogada a Lei das Rendas (ironicamente batizada de “Lei dos Despejos”), uma medida da também “fascista” Assunção Cristas, e cuja nova Lei de Bases da Habitação não é mais do que “uma panaceia” que não contraria as suas consequências.

Para a candidata, outro dos erros do Governo socialista, que apelida de “crimes contra os interesses de quem trabalha”, foi o acolher de um projeto como o Aeroporto do Montijo, “que faz abortar a necessidade de se construir um novo aeroporto de raiz“, dando como alternativa Alcochete.

Nas questões europeias, a cabeça de lista do PCTP/MRPP lembra ainda que o Governo se prepara para “aceitar a integração do mar português no chamado ‘Mar Azul’, um conceito imperialista, ditado por Bruxelas e por Berlim para roubar a nossa Zona Económica e Exclusiva (ZEE), que possui uma área superior à do continente europeu”.

Sair da UE é sair do “imperialismo europeu”

É precisamente a saída da União Europeia que se destaca como uma das 27 propostas do Manifesto Eleitoral do PCTP/MRPP. Questionada sobre se essa situação não ia deixar Portugal numa situação ainda mais difícil, Maria Cidália Guerreiro responde com outra pergunta.

Mais difícil do que o quê? A atual situação é a de um país que tem de importar mais de 80% daquilo que necessita para alimentar-se e para gerar economia. A nossa balança de bens transacionáveis — que está em permanente défice — é bem o espelho do que sucessivos Governos do PS e do PSD fizeram ao país, ao seu povo. Liquidação do seu tecido produtivo e total submissão a interesses imperialistas externos“, acusa.

“O PCTP/MRPP tem plena consciência de que a vida seria difícil nos primeiros três a quatro anos, após a saída da União Europeia e do euro. Mas, finalmente, haveria uma luz ao fundo do túnel, ao contrário da situação atual que se traduz no velho princípio de ‘vitória’ em ‘vitória’ até ao descalabro total”.

“Teríamos, com a retoma do novo escudo e, sobretudo com a recuperação da nossa soberania monetária, bancária, fiscal, aduaneira, entre outras, a possibilidade de colocar em marcha um plano de recuperação de um vasto tecido produtivo que fomos obrigados a destruir como contrapartida à entrada de Portugal nesse fórum do imperialismo europeu que foi a Comunidade Económica Europeia (CEE) e é agora a União Europeia (UE)”.

“Lembramos a nossa indústria de ponta siderúrgica, metalúrgica e metalomecânica, a nossa indústria de construção e reparação naval, a nossa indústria mineira, o sector agrícola e agro-industrial que foi completamente arrasado, a nossa frota pesqueira que foi totalmente desmantelada, entre outros, e que é nosso propósito restaurar, enquanto ainda podemos beneficiar do know how de excelência com que ainda podemos contar”.

Para além desta proposta, o partido defende, entre outras, o alargamento das 35 horas semanais ao setor privado, a implementação de um Serviço Nacional de Saúde (SNS) geral, universal e gratuito para todos e escola pública gratuita em todos os graus de Ensino.

Em 2015, o PCTP/MRPP foi o segundo partido mais votado entre os que não conseguiram eleger deputados, atrás do PDR, com 59,9 mil votos (1,11%). Em 40 anos, e em todas as eleições que disputou, o partido nunca conseguiu eleger qualquer deputado.

Nota: No âmbito das Eleições Legislativas 2019, o ZAP contactou os partidos que, em 2015, reuniram mais de 0,50% dos votos.

FM, ZAP //

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