Coronavírus: um dia faz toda a diferença

A epidemia de Covid-19, detetada em dezembro, na China, já causou mais de 4600 mortos e cerca de 120 mil pessoas infetadas em acima de 100 países. Em Portugal, o primeiro caso foi confirmado a 02 de março. Desde então, o número já subiu para 112. Governos e entidades civis tomam medidas, mas a propagação do vírus tem aumentado no ocidente.

Embora mais de 68 mil pessoas infetadas já tenham recuperado, muitos países ainda não atingiram o pico da transmissão. Um desses casos é Portugal. As medidas para contenção e mitigação da doença, defende o economista Tomas Pueyo num artigo publicado no Medium, devem ser tomadas já hoje.

O coronavírus tem chegado aos diferentes países de forma gradual, levando a que os sistemas de saúde e os profissionais que neles operam fiquem sobrecarregados. A situação pode agravar ao ponto de faltar equipamento médico e zonas de isolamento e, até mesmo, à ocorrência de mortes. Até ao momento, já foram quase cinco mil.

Na China, o número de casos cresceu exponencialmente até que se começasse a conter o vírus. Na quinta-feira, a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou que mais de 70% das pessoas infetadas no país estavam curadas. Já a nível mundial, aquela que era considerada uma epidemia – e, para alguns especialistas, a doença X – evoluiu para uma pandemia, declarada pela mesma organização a 11 de março.

De longe o país mais afetado pelo vírus – com 80 mil infetados e acima de três mil mortos -, à China seguem-se a Itália – com mais de mil mortos e 15 mil infetados -, o Irão e a Coreia do Sul. Países como a França, a Alemanha, a Espanha, o Japão, os Estados Unidos (EUA), a Suíça e o Reino Unido apresentam números elevados.

Embora a OMS aponte para uma taxa de mortalidade de 3,4%, esta varia consoante o país. Segundo Tomas Pueyo, na Coreia do Sul, por exemplo, a taxa é de apenas 0,6%, enquanto no Irão é de 4,4%. Na China varia agora entre 3,6% e 6,1%. No Irão e em Itália, está entre os 3% e os 4%.

Estes números permitem concluir que os países preparados terão uma taxa de mortalidade entre 0,5% e 0,9%. No outro extremo, países menos preparados, ou sobrecarregados, terão uma taxa de mortalidade entre 3% a 5%. Ou seja, os países que agem rapidamente podem reduzir dez vezes o número de mortes e diminuir drasticamente os casos.

Em Portugal ainda não houve mortos devido ao Covid-19. Dos 1.308 casos supeitos, há 112 confirmados, mais 34 do que quinta-feira. Entretanto, nesse mesmo dia, um dos infetados – dos primeiros casos positivos – recuperou e acabou por ter alta.

Manuel de Almeida / Lusa

Na quarta-feira, a ministra da Saúde, Marta Temido, reconheceu que não será possível conter o contágio de infeções por Covid-19 por muito mais tempo. “É inevitável que entremos na fase de mitigação dentro de horas ou dias” porque “a evolução da situação está a ser muito rápida”.

De acordo com a Direção-Geral de Saúde (DGS), há esta sexta-feira 5.674 contactos em vigilância pelas autoridades de saúde e 100 médicos em quarentena.

Pouca preparação para combater o vírus

De acordo com os dados avançados por Tomas Pueyo, cerca de 20% dos casos de coronavírus requerem hospitalização, 5% nas unidades de cuidados intensivos e cerca de 1% tratamento muito intensivo, com recurso a respiração assistida. Traduzindo para números, se houver 100 mil infetados, cerca de 20 mil precisarão de hospitalização, cinco mil de cuidados intensivos e mil de máquinas para assistência respiratória – ECMO.

Países como Japão, Coreia do Sul, Hong Kong e Singapura, bem como regiões chinesas fora de Hubei, estavam preparados e forneceram aos pacientes os cuidados que precisavam. Mas, apontou Pueyo, muitos dos países ocidentais estão a ir na direção de Hubei e Itália, que têm os sistemas de saúde sobrecarregados.

Nesses dois locais, os pacientes encheram os hospitais, com muitos a serem atendidos nos corredores e nas salas de espera. Na cidade de Wuhan – onde começou o surto de pneumonia viral -, em poucos dias foram construídos dois hospitais, que ficaram também sobrelotados graças ao elevado número de infetados.

Essa sobrecarga não afeta somente os equipamentos, já insuficientes. A forte propagação do vírus tem levado os profissionais de saúde a passar mais horas do que o normal nos hospitais e nos centros de atendimento. Como resultado, estão cansados e desidratados. Há ainda exemplos de profissionais já na reforma que atendem os pedidos para retornar durante um período e ajudar no controlo da doença.

Devido ao facto de estarem muito tempo expostos ao vírus – em alguns casos sem equipamento de proteção eficaz -, não são raros os casos de profissionais que contraem o Covid-19. Quando isso acontece, precisam ficar de quarentena por 14 dias. Na melhor das hipóteses, não podem ajudar durante duas semanas.

Outra das situações que estes profissionais têm que gerir prende-se com o facto de haver poucas maquinas de auxílio à respiração, como as ECMO. Por serem impossíveis de partilhar, os médicos têm que determinar quais os pacientes que as vão utilizar, podendo estar em causa quem vive e quem morre.

Dipartimento Protezione Civile / Flickr

Voluntários da Proteção Civil italiana a realizar exames no aeroporto Guglielmo Marconi

Mas essa realidade não se prende somente aos equipamentos poucos acessíveis. No caso das máscaras, muitos países veem escassear esse material, essencial para suprir as necessidades dos profissionais de saúde. Em muitos desses, os relatos indicam que haverá máscaras somente para mais duas semanas.

Evitar o contágio

Ao reduzir o número de infeções ao máximo, o sistema de saúde ficará mais disponível para tratar dos infetados, reduzindo, consequentemente, a taxa de mortalidade. Caso essa medida se prolongue, chega-se a um ponto em que o resto da sociedade poderá ser vacinado, eliminando completamente o risco, referiu Pueyo.

Para que tal aconteça, o distanciamento social é um dos pontos-chave. No caso de Wuhan, assim que houve um encerramento e toda a região passou para quarentena, os casos foram diminuindo. Isso ocorreu porque as pessoas não interagiram entre si e o vírus não se espalhou.

O consenso científico atual indica que o vírus pode se espalhar até dois metros do local onde o infetado se encontra, caso este tussa. Se a distância for maior, as gotículas caem no chão e não há perigo. Contudo, nas superfícies, o vírus pode sobreviver durante horas, dias ou mesmo semanas, fazendo com que maçanetas, mesas e botões de elevadores sejam grandes vetores de infeção.

Atuação política no distanciamento social

Existem várias etapas para controlar uma epidemia, começando com a antecipação e terminando com a erradicação. Mas, com o número crescente de casos, as opções que os políticos têm pela frente são a contenção e a mitigação.

A contenção exige que todos os casos sejam identificados, controlados e isolados. É o que a China, a Singapura, o Japão, Hong Kong e Taiwan estão a fazer, limitando muito rapidamente as pessoas que chegam, identificando os doentes, isolando-os, utilizando equipamentos de proteção apropriados para proteger os profissionais de saúde, rastreando os contatos e colocando a população em quarentena.

Em Taiwan, extremamente ligado e próximo à China, há menos de 50 casos confirmados, tendo o país já contido o vírus. Agora, está a tentar torná-lo o mais inofensivo possível.

Republic of Korea / Flickr

Comboio KTX a ser desinfetado, em Seul, na Coreia do Sul

Mas uma vez que existem centenas ou milhares de casos na população, impedir que mais ocorram, rastrear os existentes e isolar os seus contatos não é mais suficiente, passando o próximo passo pela mitigação, que requer, como já referido, distanciamento social.

A mitigação é possível com medidas que passam pelo encerramento temporário de empresas, de lojas, de transportes coletivos e de escolas, entre outras instalações. Quanto mais cedo essas medidas entrarem em vigor, menos tempo será preciso mantê-las, mais fácil será a identificação de casos de infetados e menor a propagação.

Foi o que aconteceu em Wuhan e está agora a ocorrer em Itália. Com milhares de casos oficiais, é o que deve acontecer em países como o Irão, a França, a Espanha, a Alemanha, a Suíça e os EUA, sublinhou Pueyo.

Em Portugal, algumas dessas medidas já estão a ser tomadas, com pessoas já a trabalhar a partir de casa, eventos cancelados e algumas zonas em quarentena. Na quinta-feira, o Governo decretou o fecho de todas as escolas até ao fim do mês. Essas medidas desacelerarão o vírus, mas não são suficientes para o eliminar.

Para uma atuação eficaz, frisou o economista, é necessário que o trânsito de pessoas seja reduzido ao mínimo; as movimentações nas áreas de risco evitadas; as pessoas com sintomas permaneçam em casa; o horário padrão dos profissionais de saúde seja suspenso e os estabelecimentos de ensino, atrações, centros culturais e sociais sejam encerrados.

Além disso, acrescentou, restaurantes devem ter horário de funcionamento limitado – o atendimento deve ser feito com uma distância mínima de pelo menos um metro -; bares e discotecas devem encerrar; e, na atividade comercial, deve haver uma distância de um metro entre os clientes e os funcionários.

As visitas ao hospital devem também ser limitadas e as reuniões de trabalho adiadas. Os eventos e competições desportivas, públicas ou privadas, canceladas. Outros eventos importantes podem ser realizados à porta fechada.

Enaltecendo o distanciamento social para conter o vírus, Tomas Pueyo concluiu que é necessário ganhar, no imediato, consciência do impacto desmesurado que um só dia de atraso a tomar as medidas de contenção pode ter – mesmo, ou principalmente, numa fase em que ainda há poucos casos. Essa consciência pode salvar vidas.

ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. As estatísticas de óbitos em Portugal indicam por doenças do aparelho respiratório faleceram em Portugal 12803 pessoas em 2017 e 13276 em 2018, o que dará uma média de 35 óbitos por dia.
    Ora entre dia 2 de Março e dia 13 de Março foram registados em Portugal 112 casos confirmados de COVID-19 (10 casos por dia) e segundo o vosso artigo só 20% dos casos requerem hospitalização (2 casos por dia) e (no caso grave registado na Itália) 3% dos pacientes poderão ter situações fatais (para os números que indicam seriam felizmente muitos poucos).
    Os meus número estão errados ?
    Percebo que evitar a propagação do virus é essencial tomar medidas de contenção para evitar esgotar a capacidade de resposta dos hospitais, mas não estaremos a exagerar um pouco no tom alarmista das notícias e com esse exagero a aumentar o medo entre os cidadão e a provocar um stress desnecessário no Serviço Nacional de Saúde?

    • Os números parecem estar mais que certos. Pesquisei agora mesmo e encontrei isto, mais de 250 milhões de mortes e feridos nas estradas mundias e por causa de doenças das vias respiratórias mas nisto não falam em pandemias nenhumas o que não deixa de ser muito conveniente. O vírus COVID-19 amaricão foi libertado para camuflar a podridão que vai no sistema financeiro, aquilo vai implodir a qualquer momento. E depois como sempre vão esmifrar os do costume.

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