Especial ZAP | Cristina Rodrigues: PAN admite traçar “linhas vermelhas” para se aliar ao PS

PAN

Cristina Rodrigues da Comissão Política Nacional do PAN

Cristina Rodrigues, a cabeça-de-lista do PAN por Setúbal para as legislativas de 6 de Outubro próximo e membro da Comissão Política Nacional do partido, é uma das figuras mais conhecidas do Pessoas Animais Natureza, mas nem sempre pelas melhores razões.

Em entrevista ao ZAP, a candidata a deputada fala da “confusão” numa entrevista polémica, da ligação ao grupo extremista de defesa dos animais IRA e diz que o bebé PAN está a tentar “ultrapassar a causa animal” para se afirmar definitivamente na política portuguesa.

O sucesso do PAN em Portugal já chegou além fronteiras e foi notícia na Galiza, onde o jornal La Voz de Galicia entrevistou André Silva para o definir como “o político da moda” em Portugal. Mas o partido Pessoas Animais Natureza quer ser mais do que uma moda passageira. “Queremos permanecer e continuar a crescer e a cimentar as nossas ideias e as nossas causas”, sublinha ao ZAP Cristina Rodrigues, a cabeça-de-lista do PAN pelo círculo de Setúbal que também integra a Comissão Política Nacional do partido.

A advogada de 34 anos admite que “há muitas pessoas a falarem do PAN”, entre as quais “muitas a falarem menos bem” do partido. Entre as críticas apontadas fala-se em demagogia, pelo facto de algumas das propostas do programa eleitoral do PAN parecerem alheadas da realidade e sem apresentarem sustentação financeira.

Mas Cristina Rodrigues atesta que “nestes 4 anos” em que André Silva, o único deputado do PAN na Assembleia da República, esteve no Parlamento, o partido mostrou trabalho e conseguiu fazer aprovar “muitas coisas que se julgavam difíceis de conseguir”.

“Deram-se passos muito importantes”, atesta a cabeça-de-lista por Setúbal, citando a “alteração do estatuto jurídico do animal que já tinha sido rejeitada pela grande maioria do Parlamento” como uma das grandes vitórias do PAN nesta legislatura. A alteração ao Código Civil que reconhece os animais como “seres sensíveis” foi aprovada por unanimidade, em Dezembro de 2016, com base num texto final resultante de propostas apresentadas por PAN, PS, Bloco de Esquerda e PSD.

“Um esforço para ultrapassar a causa animal”

Cristina Rodrigues nota na conversa com o ZAP que “o PAN tem uma génese animalista“, mas que “tem feito um esforço para ultrapassar essa causa”, para passar a abranger também outras matérias.

“Apresentámos projectos-lei sobre muito mais temas do que apenas os animais“, sublinha a candidata a deputada do PAN, citando que versaram temas como a violência doméstica e a saúde. “Em Orçamentos de Estado, fomos nós que introduzimos a questão da necessidade de contratar mais nutricionistas para os Centros de Saúde e também mais psicólogos”, atesta Cristina Rodrigues.

“Fomos nós também que conseguimos a aprovação da contratação de intérpretes de Língua gestual portuguesa para o Serviço Nacional de Saúde para que os cidadãos surdos tenham também a capacidade de dialogar com os médicos e com os profissionais de saúde”, acrescenta.

Olhando para a próxima legislatura e para o caminho trilhado até lá chegar, Cristina Rodrigues sustenta que o PAN fez “um esforço grande, neste programa eleitoral, para dedicar uma boa parte às áreas da Saúde e da Educação“.

Mas a grande bandeira do PAN nesta altura, e depois do foco terem sido os direitos dos animais, são as alterações climáticas e a defesa do futuro da humanidade, aproveitando um tema que nunca esteve tanto na moda.

“São alterações que a própria sociedade quer, não são só ideias do PAN”, considera Cristina Rodrigues, notando que as pessoas “partilham” com o partido “mudanças que gostavam de ver”. “É como se fôssemos a voz dessas pessoas“, conclui.

Durante a campanha, o PAN tem feito questão de vincar que todo o material panfletário distribuído é feito em material reciclável. Os “folhetos são reutilizáveis e comestíveis“, segundo revelaram elementos do PAN nas redes sociais.

Com um orçamento de 138 mil euros para a campanha eleitoral, todo ele proveniente da subvenção estatal a que o PAN tem direito, cerca de 24 mil euros estão destinados a propaganda e comunicação impressa e digital, enquanto cerca de 19 mil euros são para estruturas, cartazes e telas, de acordo com as contas apresentadas pelo partido no Tribunal Constitucional.

“Linhas vermelhas” para viabilizar geringonça II

Na caminhada para a próxima legislatura, o PAN espera passar de um deputado para “um grupo” parlamentar, como assume Cristina Rodrigues. As sondagens estão do lado do partido, apontando-lhe um resultado da ordem dos 3%, mas André Silva já disse que espera suplantar essa previsão, elegendo mais do que dois deputados.

“Nada está garantido”, aponta Cristina Rodrigues ao ZAP, ciente de que o jogo só termina depois do apito final. “Continuamos a trabalhar e trabalharemos até ao último momento para o melhor resultado”, sublinha a cabeça-de-lista de um dos distritos onde o PAN espera bons resultados e que, assim, tem grandes possibilidades de ser eleita deputada.

Caso assegure a eleição por Setúbal, Cristina Rodrigues define como grandes cavalos de batalha as questões mais “relevantes do ponto de vista ambiental” que assolam o distrito, designadamente o novo Aeroporto no Montijo, contestado pelos ambientalistas, e as dragagens de areia no estuário do Sado no âmbito da melhoria das acessibilidades marítimas ao porto de Setúbal. A candidata do PAN cita ainda “a mobilidade ” como outra das causas que vai defender.

Tema recorrente na campanha tem sido a possibilidade de o PAN poder vir a viabilizar uma “geringonça II” numa altura em que as sondagens colocam o PS mais longe do objectivo da maioria absoluta.

Um cenário que o PAN ainda não discutiu em sede de Comissão Política Nacional, assegura ao ZAP Cristina Rodrigues, vincando que o partido não se quer “antecipar à vontade dos eleitores” e que “só depois das eleições” é que se vai “eventualmente reflectir” internamente sobre essa hipótese.

Certo é que o PAN “não tem sede de poder, nem de fazer parte do Governo”. “Temos é vontade de fazer aprovar assuntos e causas que consideramos de máxima importância”, destaca Cristina Rodrigues, notando que eventuais exigências a fazer ao PS, para viabilizar um possível novo Governo socialista, terão que ser debatidas pela Comissão Política Nacional. “Não identificamos [ainda] essas linhas vermelhas”, considera, admitindo que poderão ser definidos “alguns assuntos” que o PAN considera “prioritários” no âmbito dessa hipotética aliança com o PS.

Cristina Rodrigues “confusa” com entrevista polémica

Cristina Rodrigues deu que falar, nos últimos dias, no âmbito de uma entrevista onde ficou patente que não teria conhecimento da proposta do PAN quanto ao aumento do salário mínimo nacional.

Confrontada pelo ZAP com a pergunta se já conhece a proposta do PAN quanto ao salário mínimo, Cristina Rodrigues assegura que “já sabia na altura” da entrevista que tem sido partilhada pelas redes sociais.

“Fui uma das pessoas que fizeram o programa eleitoral e sinceramente, fiquei confusa com as circunstâncias daquela entrevista, mas não me vou adiantar mais além do que isso”, aponta. “Não só o li como o escrevi”, vinca a advogada sobre o programa eleitoral do PAN.

Este foi apenas um dos episódios em que elementos do PAN pareceram revelar falta de preparação, algo que ficou patente até nas prestações de André Silva nos debates televisivos com outros líderes de partidos.

“O facto de haver políticos que já têm uma retórica preparada não significa que sejam mais trabalhadores ou mais eficientes ou mais dedicados do que as pessoas do PAN”, destaca Cristina Rodrigues, admitindo a inexperiência do PAN.

“Não podemos nunca esquecer que somos um partido ainda recente” e, por isso, “não podemos ter a mesma maturidade, o mesmo conhecimento que outros partidos que já existem há 40 anos”, reforça, frisando que “o PAN está em desenvolvimento” e que “as pessoas que o compõem estão em desenvolvimento com ele deste ponto de vista da vida política”.

Não somos políticos de profissão, não temos a mesma experiência, mas isso não significa que sejamos menos bons”, acrescenta Cristina Rodrigues, reforçando que a presente legislatura “demonstrou” que André Silva, “sem qualquer tipo de experiência política, fez um trabalho sério, sem qualquer tipo de impreparação”, apresentando “projectos-lei muito bem fundamentados”. E “mesmo a nível da eficiência”, mostrou muito trabalho, com um “número de projectos-lei muito superior ao de outros grupos parlamentares com muitos deputados”, assegura.

Nega ligações ao IRA

O nome de Cristina Rodrigues esteve também envolvido numa polémica relacionada com o grupo extremista de defesa dos animais IRA (Intervenção e Resgate Animal). Uma reportagem da TVI avançou que a Polícia Judiciária (PJ) estaria a investigar o grupo por suspeitas de crimes de terrorismo, assalto à mão armada e sequestro e que a própria Cristina Rodrigues seria também visada no inquérito, suspeitando-se que seria um dos encapuçados que surgem em vídeos de propaganda do IRA.

“Nunca fiz parte da associação” e “nunca houve qualquer prova daquilo que foi alegado contra esse grupo”, assegura ao ZAP Cristina Rodrigues. “Do que eu tenho conhecimento, continuam a operar na legalidade e não houve sequer qualquer processo judicial contra eles”, acrescenta.

A candidata do PAN sustenta ainda que, “como advogada”, prestou “ajuda jurídica pro-bono a este grupo como a outras associações”, em “situações pontuais, nomeadamente relacionadas com um animal que não está em condições adequadas, o que é que se pode fazer, se é para se fazer queixa-crime, se se contacta a polícia”.

Nota: No âmbito das Eleições Legislativas 2019, o ZAP contactou os partidos que, em 2015, reuniram mais de 0,50% dos votos.

SV, ZAP //

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