Marcelo não está “tão otimista” como DGS ou PCP

Mário Cruz / Lusa

Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que não está “tão otimista” quanto a Direção-Geral da Saúde (DGS) e do PCP e que tinha a expectativa de que Portugal registasse apenas 100 casos de covid-19, ou menos, por dia, no início de setembro.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse esta sexta-feira que a sua perspetiva sobre a realização da Festa do Avante! “não é tão otimista” como a perceção da Direção-Geral da Saúde (DGS) e do PCP.

“Não escondo, e tive ocasião de dizer aos responsáveis do PCP, de uma forma cordial, mas muito franca, que a minha perceção não é tão otimista como a perceção da DGS e como a perceção do partido”, considerou o chefe de Estado, à margem de uma visita ao município de Castro Marim, sobre o evento que decorre entre no Seixal (Setúbal).

Marcelo Rebelo de Sousa recordou que a DGS definiu uma série de regras que “considera suficientes para, não havendo riscos de maior, dar luz verde”, através de “uma autorização técnica, científica e especializada” ao evento, e que o PCP entende “estarem preenchidas as condições de saúde mínimas, ou suficientes, para a sua realização”.

Sem discutir as questões sanitárias, o Presidente da República colocou a questão no plano da avaliação política e da perceção que a Festa do Avante! tem junto da população.

“Não vou discutir regras sanitárias. Não é a minha especialidade, nem deve o Presidente da República discutir. A questão é outra: todos os eventos – e os grandes por maioria de razão – devem ser apreciados também à luz da perceção que as pessoas têm deles”, afirmou.

Para o chefe de Estado, “uma coisa são as regras e a maneira como são aplicadas, outra coisa é a imagem retirada pelas pessoas daquilo que é autorizado e realizado”.

“A perceção da DGS e do partido organizador é que é positiva, como exercício da democracia e também como respeito de regras suficientes para se concretizar. A perceção de uma parte do país é que é menos positiva, é menos otimista relativamente à imagem geral que é deixada”, acrescentou.

O Presidente da República reafirmou que, na sua ótica, não está em causa a legitimidade do organismo e do partido, mas que a avaliação política só poderá ser efetuada depois da realização do evento.

“Não estou a dizer que não haja legitimidade da DGS para definir regras, que não haja legitimidade democrática do partido para realizar este acontecimento. É uma questão de avaliação política”, frisou.

E Marcelo Rebelo de Sousa vincou: “São duas leituras da realidade: só depois de concretizado é que se verá quem tem mais ou menos razão. Como Presidente da República, até ficaria muito feliz se, no fim disto tudo, a generalidade dos portugueses ficasse com essa perceção positiva”.

Marcelo esperava por 100 casos por dia em setembro

Marcelo afirmou, também esta sexta-feira, que tinha a expectativa que Portugal registasse apenas 100 casos de covid-19, ou menos, por dia, no início de setembro, mas considerou a situação “controlada e estável”. “A minha expectativa, em junho e julho, não o escondo, era que chegássemos agora [no início de setembro] com 100 casos ou menos por dia”, referiu.

O chefe de Estado considerou que “a situação está controlada e estável, no bom sentido do termo, em matéria de internamentos e cuidados intensivos”, mas que esperava “uma tendência decrescente, tendendo para diminuir progressivamente” no número global de casos.

“Infelizmente, não foi o que aconteceu. Nós estamos, em alguns dias da semana, com altos e baixos: aos fins de semana, [os números] são baixos – entre sábado e segunda -, e durante a semana são muito mais altos”, acrescentou. Marcelo Rebelo de Sousa garantiu que não está preocupado e ressalvou que o Governo “é que diz que está preocupado”.

“Há várias declarações de membros do Governo que dizem que há qualquer coisa de preocupante ou que a situação é grave. Quando o Governo, com umas semanas de antecedência, admite passar a estado de contingência, não é porque está despreocupado, senão não anunciava o estado de contingência. Mais vale prevenir do que remediar. Só atua assim quem acha que pode haver o risco de, é só isso”, sustentou.

O Presidente da República recordou que está marcado para segunda-feira, no Porto, o retorno das reuniões sobre a evolução da covid-19, com a presença de todos os partidos políticos com assento parlamentar.

“Espero que essa sessão seja útil também para isso, para todos os partidos políticos perceberem por que é que o Governo, com antecipação, preventivamente, disse que tinha a intenção de, daí a umas semanas, vir a recorrer ao estado de contingência. Espero que essa sessão, além de esclarecer os portugueses na parte aberta, esclareça os partidos políticos com assento na Assembleia da República”, sublinhou.

Questionado sobre a presença de público nos estádios, uma pretensão reclamada pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional nas últimas semanas, o chefe de Estado disse que está em causa “a definição de regras e o acompanhamento da evolução da situação” e que a gestão da pandemia passa por “um equilíbrio entre a defesa da vida e da saúde e o não matar a economia ou a sociedade”.

“Isto é um equilíbrio entre dramatizar muito e desdramatizar totalmente. A dramatização total e a desdramatização total. É um equilíbrio. Nesse equilíbrio, entra a definição das regras sanitárias. Quando se define uma regra sanitária, atende-se ao risco que acarreta para a vida e para a saúde, mas também atende-se ao exemplo que se dá e como as pessoas leem isso. Pode a intenção ser muito boa e a leitura ser completamente diferente”, assinalou.

Exemplificando com as regras diferentes entre a Feira do Livro, os espetáculos, as escolas e nos estabelecimentos, Marcelo Rebelo de Sousa sustentou que “a afinação é complicada” porque a opinião pública espera “regras iguais para todas as situações“.

“Essa ponderação é uma ponderação que tem de ser feita pelos especialistas. Mas depois, e por isso é que ‘bati muito na tecla’ do esclarecimento, é preciso explicar para as pessoas perceberem por que é que num caso é um metro, noutro são dois metros e noutro é oito metros. Se não há explicação, uma parte dos portugueses dramatiza e outra parte desdramatiza completamente”, rematou.

ZAP // Lusa

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