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À 25.ª hora, não se esperam golpes de magia. O fim do que restava da geringonça está praticamente consumado

Tiago Petinga / Lusa

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, em conferência de imprensa

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa

A corda já não estica: nem para o lado do Governo, nem para a outrora enamorada esquerda. Todos batem o pé na reta finalíssima e a vigésima quinta hora não parece trazer novidades.

Tudo tem um limite.” É este o entendimento do Governo, que pouca ou quase nenhuma margem dá a negociações de última hora com os antigos parceiros da geringonça.

Fonte do Executivo, citada pelo Observador, defende que os 850 euros pedidos pelo PCP para 2022 ou o fim do fator de sustentabilidade na Segurança Social que o Bloco exige “estão tão para lá do limite, que pode significar que não há mais nenhum entendimento”.

Se, de um lado, o PCP não acredita em “golpes de mágica”, o Bloco de Esquerda acusa o Governo de não querer ver este Orçamento do Estado aprovado. Já do lado do Executivo, a retórica é oura: insiste-se que quem não está a negociar são os parceiros.

Aliás, foi mesmo isso que Duarte Cordeiro sublinhou, na tarde de segunda-feira, ao afirmar que o Governo “nunca tinha ido tão longe e também nunca tinha tido um nível de exigência tão grande” por parte do PCP e do BE. Mais tarde, Carlos César iria mais longe, acusando a esquerda de ter preferido “jogos de poder”.

O namoro de outrora é, agora, um divórcio praticamente consumado.

Nem Bloco, nem PCP. A geringonça já não é o que era

O Bloco de Esquerda não esperava que o PCP assumisse, de forma definitiva, o fechar da porta. Os bloquistas acreditavam que os comunistas iriam acabar por viabilizar o documento, dando margem ao BE para votar contra e manter as críticas já apontadas ao Executivo.

Depois de, no domingo, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares ter dito que encarava o voto contra do Bloco como uma “declaração definitiva” – mesmo depois de o partido de Catarina Martins não o ter assumido assim –, o BE entendeu que as palavras do Governo podiam ser lidas de duas formas distintas: ou o Executivo já estaria pronto para assumir a crise e ir a eleições ou estaria a apostar num acordo de última hora com o PCP.

Mas já com o PCP fora de jogo, o Governo não entreabriu a porta ao Bloco, acusando o partido de ter uma disponibilidade meramente “retórica” e que não se verificou à mesa das negociações.

Nesta segunda-feira, dirigentes do Bloco mantinham a esperança de que a recusa do PCP obrigasse o Governo a voltar a negociar com o partido. Mas a intenção dos socialistas não se alterou com o anúncio do voto contra do PCP, mesmo depois de Catarina Martins ter dito que havia “muita disponibilidade” para voltar a negociar.

No Governo, entende-se que o Bloco não estava verdadeiramente disponível.

Também esta segunda-feira, a ministra do Trabalho Ana Mendes Godinho disse que o Governo estava aberto a suspender sem prazo a caducidade da contratação coletiva, e a manobra foi lida nas entrelinhas como uma nova cedência do Governo.

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Mas tal viria a ser desmanchado por Duarte Cordeiro, que fez questão de sublinhar que aquela proposta já era conhecida dos parceiros e que mesmo depois disso preferiram enveredar pelo voto contra.

Na mesma conferência de imprensa, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares mantinha a disponibilidade do Governo para negociar até quarta-feira, dia da votação na generalidade, mas assinalava a sua pouca convicção nisso mesmo.

Sem mais contactos, dá-se início ao passa-culpas

Nesta que é a reta final do jogo orçamental, o Observador confirmou junto de várias fontes que não houve contactos com o Governo nem nenhuma das partes à esquerda mostrou intenções de voltar a encontrar-se para negociações.

O próximo capítulo é o do passa-culpas, até porque parte do eleitorado da esquerda poderá castigar o Bloco e o PCP por não compreenderem o chumbo do OE2022.

Os dirigentes socialistas preparam já o ataque e o guião das acusações, que deverá ter expressão no debate parlamentar que inicia já esta terça-feira, no Parlamento.

O PCP, pelo menos, tem uma estratégia já bem delineada que passa por revelar pormenores das negociações privadas para responder às acusações de intransigência e colar o Governo à ideia de inflexibilidade.

O líder parlamentar João Oliveira garantiu, na RTP2, que no salário mínimo os comunistas não tinham exigido o aumento direto dos atuais 665 euros para o objetivo de 850 euros. O comunista disse que, à mesa das negociações, o partido propôs ir até aos 755 euros em janeiro e subir até aos 800 durante o ano.

O PCP apresentou um objetivo, propôs um caminho para lá chegar e o Governo rejeitou. Esta é a estratégia dos comunistas, que defendem que “não podem carregar nas suas costas” a responsabilidade de uma crise política. O debate, agora, segue no Parlamento e centra-se na eficácia dos discursos – muito mais do que na das medidas.

  Liliana Malainho, ZAP //

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