O “fantasma” de Pedro Nuno e o exemplo de Espanha. Os trunfos do Bloco para o futuro

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Tiago Petinga / Lusa

O líder socialista António Costa e a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins

Depois da tempestade vem a bonança. Após o chumbo do Orçamento, e com a data das eleições legislativas na mira, os bloquistas já têm uma estratégia para o futuro.

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Após alguns anos de um casamento sólido, a geringonça separou-se num divórcio abrupto que deixou muitas feridas – e tem sido alvo de muitas críticas, sobretudo por parte do eleitorado.

O Bloco de Esquerda tem sido apontado como um dos culpados pela crise política que o país vive. Agora, o partido tem de refazer a sua imagem perante o eleitorado. Mas que truques vão usar os bloquistas?

Há aspetos que devem ser trabalhados e um deles passa por reconquistar os eleitores que ficaram insatisfeitos com a decisão do chumbo do orçamento. Por outro lado, começa a surgir a necessidade de puxar por um novo acordo escrito com os socialistas – e contar com o instinto de sobrevivência de António Costa, olhando para Pedro Nuno Santos como um aliado.

Para já, ainda não é claro o efeito que a convocação de eleições antecipadas poderá ter junto do eleitorado do Bloco, mas é necessário começar abrir caminho para o que se segue.

Os bloquistas têm-se esforçado para salientar que não foi o partido que quis iniciar esta crise, argumentando que este apenas se focou em nove propostas orçamentais já com a intenção de não dispersar nas negociações.

O Bloco não considera que as eleições fossem a resposta inevitável ao chumbo do Orçamento, e que se o PS quisesse mesmo negociar tinha negociado e evitado este cenário.

Contudo, o orçamento não passou e Marcelo decidiu: vai mesmo haver eleições antecipadas e, além de relembrar que esta decisão podia ter sido evitada, a preocupação do partido é sobreviver.

Com os dados que existem em cima da mesa – tendo em conta algumas sondagens que foram sendo apresentadas na última semana – é pouco provável que as próximas eleições legislativas venham trazer uma dinâmica parlamentar muito diferente e António Costa deverá manter-se dependente de Bloco e/ou PCP.

Neste cenário, os bloquistas apostam tudo no instinto de sobrevivência de António Costa, e caso o primeiro-ministro queira manter o poder poderá de ter de se sujeitar a acordos à esquerda.

No caso do PS estar perante uma situação de ingovernabilidade, e ficar num beco sem saída – onde irá depender dos partidos de esquerda para sobreviver – o passo seguinte poderá ser recorrer a Pedro Nuno Santos: o rosto socialista que nunca negou a vontade de liderar o partido e que na semana passada frisou que geringonça não foi “um parênteses” na política portuguesa.

O Bloco de Esquerda, escreve o Observador, aposta no “fantasma” de Pedro Nuno Santos para tentar forçar António Costa a chegar a acordo.

No entanto, os bloquistas têm outro trunfo. No Bloco de Esquerda, há quem sugira que é preciso repetir a fórmula que Jerónimo de Sousa usou no nascimento da geringonça, em 2015: um acordo escrito.

Apesar da vontade de compromisso, o Bloco de Esquerda só aceita fazer parte da solução com um acordo por escrito, com uma “lista de medidas” e prazos concretos e escrutináveis.

Os bloquistas continuam a insistir em exigências, com as leis laborais à cabeça, que o PS diz serem muito difíceis de satisfazer. Mas o Bloco olha para Espanha, onde na semana passada o PSOE de Pedro Sánchez chegou a acordo com o Unidas Podemos para finalmente resolver o impasse quanto à lei laboral que está em vigor desde os tempos do PP de Mariano Rajoy.

É neste exemplo que o Bloco deposita agora as suas esperanças e vira o seu discurso de campanha para provar que existe o tal “projeto de consenso à esquerda”, confiante em que nessas duas semanas Costa terá mesmo de responder publicamente e esclarecer sobre o que pretende fazer com as leis laborais.

Numa situação de ingovernabilidade, os partidos de esquerda também podem ficar em xeque. Se o BE e o PCP forem “necessários” para garantir que há Governo, terão de mostrar boa vontade e negociar, pois se as bancadas encolherem, terão necessariamente menos força negocial.

Para evitar este cenário, será preciso perceber a reação dos eleitores a esta crise – e neste campo o Bloco acredita que a campanha será determinante.

  ZAP //

 

5 Comments

  1. A verdade é que a Geringonça funcionou. A verdade é que o salário mínimo teve a sua maior evolução desde abril de 74. O sistema de saúde, apesar das suas falhas, continua no topo dos melhores do mundo, isto num país com uma dívida enorme. Os eleitores tem de escolher se querem continuar este caminho… Eu penso que este é melhor do que uma maioria absoluta. Mas vamos ter de esperar pelo último dia de Janeiro.

    • Disse bem: “apesar de uma dívida enorme”. Só faltou acrescentar: “que aumentou desde 2015” (não, não foi a pandemia; já em 2019 era maior).
      Distribuir benesses, endividando futuras gerações, não é qualidade a assinalar. Antes pelo contrário!

    • O salário mínimo aumentou mas o salário médio diminuiu. Se continuar neste caminho Portugal passa a ser um país de salários mínimos.O sistema nacional de saúde é um dos melhores do mundo se excluírmos os países europeus ocidentais e os países nórdicos. A ADSE isso sim é um dos melhores do mundo e devia substituir o SNE mas para isso é preciso acabar com os “establishments”.

  2. A esquerda responsável é representada pelo PAN, mesmo se alguns insistem no slogan de que o PAN não é nem de esquerda nem de direita. Como se um partido ambientalista e dedicado aos direitos dos homens e dos animais pudesse ser de direita. Na próxima campanha eleitoral o PAN precisa de conquistar votos ao BE e aos Verdes, apontando para o facto de que só o PAN pode fazer uma coligação com o PS. O BE e o PCP autoexcluiram-se com o chumbo ao OE.

  3. “Exemplos” são as medidas que dão resultados positivos comprovados.
    O governo espanhol e suas medidas ainda são demasiado recentes para se falar em “exemplo”.

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