Os jovens europeus estão a perder a esperança na democracia. Porquê?

Um recente inquérito feito à escala europeia revelou que menos de 6 em cada 10 jovens europeus acredita que a democracia é a melhor forma de governo. 1 em cada 5 diz que apoiaria um regime autoritário em determinadas circunstâncias. E apenas 6% acredita que o seu sistema político funciona bem.

A confiança fundamental em que assenta a democracia parece estar a desaparecer. Porque é que os jovens estão a perder a fé na democracia? E o que será necessário para a restaurar?

A confiança na democracia começa com a confiança nas suas instituições: governos, tribunais e serviços públicos. Quando estas instituições são vistas como pouco reativas, desresponsabilizadas ou injustas, a confiança na democracia vacila.

O Relatório Social Mundial 2025 das Nações Unidas, de que David McMillan, professor da Universidade de Stirling (Reino Unido) foi coautor, mostra que a confiança institucional está a diminuir a nível mundial.

Esta mudança, escreve McMillan num artigo no The Conversation, é mais acentuada entre os jovens: de acordo com os últimos dados disponíveis do barómetro, mais de um quarto das pessoas nascidas na década de 1990 declaram não ter qualquer confiança nos seus governos.

Este valor é de cerca de 17% para as pessoas com mais de 65 anos. Não se trata de uma quebra temporária. Trata-se de uma mudança geracional na forma como os cidadãos se relacionam com o poder.

Durante muitos anos, a Europa pareceu desafiar esta tendência em comparação com outras regiões. As gerações mais jovens confiavam mais nas instituições do que as mais velhas. Mas esse padrão inverteu-se. Hoje, são mais céticos, mais desiludidos e mais abertos a alternativas.

Porque é que a democracia está quebrada

No centro desta crise estão a desigualdade, a insegurança e a erosão da confiança.

Em primeiro lugar, a desigualdade persistente alarga as distâncias sociais entre grupos sociais, alimentando o ressentimento e a convicção de que o sistema é manipulado. Embora a desigualdade de rendimentos na Europa não tenha aumentado de forma tão acentuada como noutros locais, este facto oculta as crescentes disparidades geracionais. De acordo com o FMI, os rendimentos dos europeus em idade ativa estagnaram desde a crise financeira de 2007-2008. Os jovens têm atualmente os rendimentos medianos mais baixos de todos os grupos etários, apesar de os rendimentos dos reformados terem aumentado.

A insegurança económica agrava a sensação de que a riqueza e as oportunidades estão distribuídas de forma desigual. Muitos jovens europeus sentem-se bloqueados, incapazes de pagar uma habitação, de construir carreiras estáveis ou de planear o seu futuro. No inquérito Young Europe 2025, mais de um terço dos inquiridos afirma que garantir um custo de vida acessível deveria ser uma prioridade política de topo. No entanto, as instituições destinadas a proporcionar segurança e oportunidades são frequentemente vistas como ineficazes e desfasadas da realidade.

A investigação de McMillan confirma que a perceção da desigualdade e da insegurança é um dos principais fatores de desconfiança. Quando as instituições não protegem as pessoas do risco ou não cumprem as promessas, o contrato social que sustenta a democracia desfaz-se.

A “barganha geracional” do progresso está a quebrar-se. Muitos jovens europeus já não acreditam que a democracia garanta a mobilidade ascendente ou proteja a sua dignidade. Esta desilusão foi agravada pelas crises que definiram a sua maioridade: desde a crise dos migrantes, a pandemia e a ansiedade climática até à guerra na Ucrânia, estes choques abalaram a fé na capacidade das instituições para responder à incerteza.

Como reconstruir a confiança na democracia

A confiança não será restabelecida apenas com retórica. A democracia tem de provar que pode produzir resultados tangíveis.

Isto significa satisfazer as expectativas básicas das gerações mais jovens: habitação a preços acessíveis, trabalho digno, um planeta habitável e uma participação significativa nos processos políticos.

Uma das formas mais eficazes de reconstruir a confiança é através de uma proteção social universal e inclusiva. Quando os serviços públicos são vistos como justos, acessíveis e fiáveis, a confiança nas instituições tende a ser mais forte. A proteção social não é apenas uma rede de segurança. É um sinal visível de que o Estado trabalha para todos e não apenas para os poucos privilegiados. Os governos que pretendem efetivamente restaurar a legitimidade devem começar por aqui.

Mas a proteção também deve ser inclusiva entre gerações. Em toda a Europa, as despesas com as pensões continuam a ser elevadas, enquanto os programas de que os jovens dependem – seguro de desemprego, apoio à habitação, cuidados infantis – são frequentemente subfinanciados em todos os países europeus.

O rápido envelhecimento da população europeia significa que, num futuro próximo, as gerações mais jovens estarão em menor número nas urnas. As políticas devem ter conscientemente em conta esta disparidade e garantir que as necessidades dos jovens não são postas de lado.

Importa referir que os jovens europeus não estão a rejeitar a democracia porque preferem o autoritarismo. Estão a rejeitar uma versão que se sente desresponsabilizada, sem capacidade de resposta e injusta.

Já vimos o que acontece quando a decadência democrática não é controlada: as divisões aprofundam-se, o espaço cívico diminui e o autoritarismo enraíza-se.

A confiança pode ser reconstruída. Mas isso exige coragem política, instituições inclusivas e sistemas de proteção social que reflitam a realidade dos jovens.

A democracia não pode funcionar com base na nostalgia. Tem de provar que funciona para todos. Os jovens pedem que os levem a sério, que os ouçam, que os respeitem e que lhes seja dada uma participação no futuro. A sociedade faria bem em ouvi-los.

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.