Fumar raramente é referido pelos seus benefícios para a saúde. Mas sabe-se que ajuda as pessoas que sofrem de colite ulcerosa. Um novo estudo explica porquê. Tem tudo a ver com a migração das bactérias.
Um estudo publicado esta semana no Gut revelou porque é que há pessoas a quem fumar faz bem aos intestinos.
Os cientistas conhecem há cerca de 40 anos este efeito do tabaco nalguns intestinos. Mas também sabem que há um paradoxo: Tanto a colite ulcerosa como a doença de Crohn são Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), mas fumar ajuda a primeira, mas prejudica a segunda.
Tal como acontece com grande parte da investigação atual em biologia, num esforço para desvendar estes mistérios, os investigadores do RIKEN Center for Integrative Medical Sciences (Japão) voltaram-se para o intestino e o seu microbioma. Especificamente, quiseram descobrir se o tabaco permite que certos tipos de bactérias intestinais se desenvolvam – o que poderia explicar o efeito do hábito nas DIIs.
Descobriram que certas bactérias, incluindo Streptococcus, que normalmente se encontram na boca, prosperavam na camada mucosa da parede interna do intestino – apenas nos fumadores.
Normalmente, estas bactérias que se encontram na boca passam para o intestino e saem do nosso corpo; não costumam estabelecer-se nos nossos cólons. De alguma forma, fumar deu-lhes um ponto de apoio no intestino.
Para tentar perceber como e porquê, os investigadores analisaram os metabolitos intestinais – os subprodutos do processamento dos alimentos nos intestinos.
Nos fumadores, encontraram níveis elevados de um metabolito chamado hidroquinona que, por sua vez, permitia que as bactérias da boca, incluindo o Streptococcus, permanecessem e crescessem no intestino.
“Os nossos resultados indicam que a deslocação de bactérias da boca para o intestino, particularmente as do género Streptococcus, e a subsequente resposta imunitária no intestino, é o mecanismo através do qual o tabaco ajuda a proteger contra a doença”, afirma o líder da investigação, Hiroshi Ohno, em comunicado.
Mas porque é que a presença de bactérias da boca no intestino ajudava as pessoas que sofriam de colite ulcerosa, mas prejudicava as que sofriam de doença de Crohn?
Em estudos com ratos, os investigadores descobriram que as bactérias da boca que se desenvolvem no intestino desencadeiam a ativação de células Th1 auxiliares, uma célula imunitária que pode combater a infeção.
Descobriu-se que nas pessoas que sofriam de colite, as células Th1 combatiam uma resposta imunitária que normalmente conduz à inflamação. Ao reduzir esta inflamação, as células Th1 ajudaram a aliviar os sintomas. No entanto, nos doentes de Crohn, a inflamação é causada pelas próprias células Th1, pelo que a ativação de um maior número destas células no intestino agravou os sintomas.
Importa referir que os investigadores não defendem o tabagismo como tratamento para a colite ulcerosa. No entanto, consideram que esta descoberta trará uma compreensão mais profunda das DII.