Ex-ministro da Saúde brasileiro avisa que uso da cloroquina aumenta risco de mortes por arritmia

O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta

O ex-ministro da Saúde do Brasil Luiz Henrique Mandetta, demitido em abril passado, afirmou esta segunda-feira que o uso da cloroquina em pacientes com covid-19 pode aumentar o número de mortes por arritmia cardíaca no país.

Em entrevista publicada pelo jornal Folha de São Paulo, Mandetta relatou que percebeu os riscos da substância quando médicos brasileiros começaram a testar a cloroquina em pacientes em estado grave que estão nos hospitais.

“Do que sei dos estudos que me informaram, e não concluíram, 33% dos pacientes que estavam em hospital, monitorizados com eletrocardiograma contínuo, tiveram que suspender a cloroquina porque deu arritmia que poderia levar a parada [cardíaca]. Esse número assustou, é alto”, relatou Mandetta.

“Se todos os velhinhos tiverem arritmia, vão lotar o Centro de Tratamento Intensivo (CTI), porque tem muito mais casos de arritmia que complicação de Covid. E vou ter de arrumar CTI para isso, e pode ser que morra muita gente em casa com arritmia”, acrescentou.

O ex-ministro da Saúde brasileiro afirmou que a intenção do Presidente do país, Jair Bolsonaro, em promover a cloroquina é fazer com que as pessoas pensem que podem voltar ao trabalho porque já existe um remédio.

“É algo para tranquilizar, recuperar a normalidade sem tanto peso na consciência. Se tivesse lógica de assistência, a ideia teria vindo de sociedades especializadas. Portanto, não há ninguém sério que defenda um medicamento como uma panaceia”, afirmou.

Mandetta, demitido por Bolsonaro em abril por apoiar as medidas de isolamento social decretadas por governadores e prefeitos de câmara do país e por não ter aprovado um protocolo de uso da cloroquina para pacientes que não estão em estado grave, afirmou que o Governo não poderá dizer que não foi avisado sobre a crise que a pandemia geraria.

O Brasil já é o quarto no mundo em número de casos de covid -19, com 241.080 infetados, e o sexto com mais mortes, tendo registado 16.118 óbitos, segundo dados do Ministério da Saúde mais atualizados.

“Nada do que está a acontecer é surpresa para o Governo”

“Eu nunca disse e não vou dizer, mas tivemos nossos estudos de cenários de números de casos e mortes. Nada do que está acontecendo hoje é uma surpresa para o Governo”, disse o ex-ministro, cujo sucessor, Nelson Teich, também renunciou ao cargo na última sexta-feira, menos de um mês depois de assumir a pasta da Saúde.

A acentuada curva ascendente da doença indica que, no Brasil, as infeções e mortes continuarão a crescer exponencialmente, pois ainda não há previsões exatas sobre quando a doença atingirá seu pico.

Apesar desses números, o Presidente brasileiro é um dos governantes mais céticos sobre a gravidade da pandemia e insiste em criticar as medidas de distanciamento social adotadas pelos governos regionais para conter o avanço da doença.

“Ele [Bolsonaro] considerou claramente que a crise económica decorrente da crise da saúde era inaceitável, embora o alertássemos de que era uma doença muito grave e que o número de casos poderia surpreender”, afirmou o ex-ministro da Saúde.

“A primeira impressão que tive foi de que o Governo não estava tão interessado no assunto e não estava dando a dimensão adequada. Somente quando já estávamos com o vírus e os casos que somavam, na segunda semana de março, eles perceberam que toda a sociedade estava intimamente ligada ao Ministério da Saúde como o principal ponto de referência“.

Pico não acontecerá antes de julho

De acordo com Mandetta, os governadores e prefeitos começaram a adotar medidas de distanciamento social e foi então que “o Presidente começou a fazer uma leitura diametralmente contrária ao que foi discutido no Ministério [da Saúde] e dificultou tudo”.

O antigo gestor estimou que o pico da covid-19 no país não ocorrerá antes de julho, pelo que os números ainda vão crescer muito.

“Uma vez eu disse que teríamos 20 semanas muito difíceis pela frente. Passaram 8 semanas. Eu disse que os casos aumentariam em abril, maio e junho; que em julho, quando atingirmos o pico da curva, estabilizaremos, embora os registos permanecerão altos até agosto, quando o número de casos começará a cair, e que em setembro estaremos perto de algo agradável”, concluiu.

O uso da cloroquina como tratamento para a covid-19 tem deixado muitas dúvidas a especialistas por todo o mundo. Também a agência francesa de medicamentos e produtos de saúde alertou que os efeitos colaterais relatados em pacientes covid-19 tratados com o fármaco hidroxicloroquina representam um “sinal de alerta importante” sobre uma “fragilidade particular” no nível cardíaco.

ZAP // Lusa

PARTILHAR

3 COMENTÁRIOS

  1. Infelizmente o presidente do Brasil fez a sua escolha. Deixar contaminar a população e gerar a morte de muitos.
    Tenho vergonha do meu governo.
    Perdi meu pai para a covid e na mente desse gestor irresponsável (Bolsonaro) isso faz parte.

RESPONDER

Portugal tem o segundo melhor ataque do Euro. E a terceira pior defesa

Fechada a segunda jornada da fase de Grupos do Euro 2020, a seleção nacional tem o segundo melhor ataque da prova, com 5 golos marcados, atrás apenas da Itália. Mas tem também a terceira pior …

Espanha 1-1 Itália | Hino ao desperdício trama La Roja

A Polónia, comandada pelo treinador português Paulo Sousa, empatou hoje a um golo com a Espanha, em Sevilha, em encontro da segunda jornada do Grupo E do Euro2020, mantendo-se ambas sem vitórias. A formação espanhola, que …

Já pode ajudar a NASA a batizar o manequim que vai até à Lua

A agência espacial norte-americana está a pedir ajuda para batizar o "Moonikin", o manequim que vai a bordo da nave Orion, durante a missão lunar Artemis I, ainda este ano. Quando a nave espacial Orion, da …

Portugal em Europeus: as últimas três derrotas foram (todas) contra a Alemanha

Em 90 minutos, Portugal não era derrotado numa fase final de um Europeu desde a estreia no Europeu 2012. Recorde as seleções que bateram Portugal, até agora. "Já não posso ver os franceses à frente". Esta …

Spotify lança Greenroom (e abre concorrência ao Clubhouse)

O Spotify lançou na quarta-feira, dia 16 de junho, uma app de conversas por áudio em direto chamada Greenroom, uma resposta do gigante sueco de streaming de música à popular plataforma Clubhouse. O Greenroom permite que …

"Médicos de árvores" em Singapura ajudam a preservar os seus pacientes gigantes

Arboristas como Eric Ong são responsáveis pelo bem-estar das milhares de árvores em Singapura. O seu trabalho é essencial para a preservação da natureza. A Singapura é uma cidade-estado insular situada ao sul da Malásia, com …

Novo primeiro-ministro de Israel dá 14 dias a Netanyahu para deixar residência oficial

O novo primeiro-ministro de Israel, Naftali Benet, deu duas semanas ao antecessor Benjamin Netanyahu para abandonar a residência oficial do chefe de Governo, em Jerusalém, segundo adianta hoje a imprensa local. Benet terá enviado na sexta-feira …

Ponte inca com mais de 500 anos é reconstruída após cair durante a pandemia

Peruanos da comunidade Huinchiri, localizada na região de Cusco, estão a reconstruir uma ponte inca com 500 anos. Esta foi feita a partir de técnicas tradicionais de tecelagem para criar uma passagem sob o Rio …

Portugal 2-4 Alemanha | Reality check ao plano do engenheiro

A seleção portuguesa de futebol, campeã em título, caiu hoje para o terceiro lugar do Grupo F do Euro2020, ao perder por 4-2 com a Alemanha, em encontro da segunda jornada, disputado no Allianz Arena, …

Pandemia mostrou “falta de proteção das mulheres”

A pandemia de covid-19 mostrou “a vulnerabilidade e a falta de proteção das mulheres e quão pouco as sociedades se preocupam realmente em proteger elementos-chave em matéria de segurança”, considera Edit Schlaffer, diretora-executiva da Women …