Marcelo está mais distante de Costa, mas “nunca será força de bloqueio”

Tiago Petinga / Lusa

O primeiro-ministro, António Costa, e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa

Analistas consultados pelo Jornal de Negócios não negam que Marcelo Rebelo de Sousa está mais distante de António Costa, mas consideram que o Presidente vai continuar a tentar ser o mais “consensual” possível.

Longe vão os tempos de harmonia entre Belém e São Bento, com o Presidente da República a acentuar cada vez mais as divergências face ao Governo. Prova disso foi a situação recente sobre o desconfinamento do país.

Em meados de junho, em resposta aos jornalistas, Marcelo Rebelo de Sousa garantiu que, no que depender de si, não haveria “volta atrás” no desconfinamento. Confrontado com estas palavras, António Costa disse que “ninguém” podia assegurar que não iria ser preciso voltar atrás.

“Por definição o Presidente nunca é desautorizado pelo primeiro-ministro. Quem nomeia o primeiro-ministro é o Presidente, não é o primeiro-ministro que nomeia o Presidente”, respondeu então o chefe de Estado.

Depois desta resposta, Costa tentou acalmar os ânimos, dizendo que “não há seguramente qualquer conflito” com Marcelo, “como aliás não tem existido”, e disse aos jornalistas que “não vale a pena andarem a criar romances”.

Pelo meio, o Presidente ainda lançou vários alertas sobre a importância de aproveitar bem os fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), tendo defendido mesmo que a sua execução deve ser julgada pelos eleitores nas legislativas daqui a dois anos.

Estará o Presidente a entrar na campanha de 2023, ajudando à reabilitação da direita, ou trata-se apenas da maior intervenção presidencial prometida pelo próprio para o segundo mandato, questionou, esta segunda-feira, o Jornal de Negócios.

Para Marques Mendes, “nem uma coisa, nem outra”. O comentador considera que é uma “preocupação muito legítima e genuína de que a aplicação dos fundos da bazuca não corra bem” e, por isso, o chefe de Estado “está a alertar no início do processo, que é quando se deve alertar”.

Marques Mendes não nega uma “postura de maior distanciamento do que havia”, mas acha que esta é apenas “fruto das circunstâncias”.

“A base de apoio do Governo estreitou-se, a degradação do Governo acentuou-se, logo é natural que também haja algum distanciamento, o que não significa oposição”, declarou, considerando que Marcelo “nunca será força de bloqueio”.

Já António Costa Pinto, investigador-coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, destaca a “perceção de que a bazuca tenderá a favorecer eleitoralmente o Governo”, pelo que considera “natural” que o Presidente e as forças da oposição estejam mais atentos a “formas de clientelismo, e até de corrupção, associadas a estes fundos”.

Ouvido pelo mesmo jornal, André Azevedo Alves, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, considera que o Presidente está a “estabelecer algum distanciamento crítico em relação ao Governo, tendo em conta a perceção de uma grande cobertura institucional, e até política, de Marcelo a Costa”.

No entanto, acrescenta que Marcelo Rebelo de Sousa continua a “tentar ser o mais consensual possível”, o que explica o “paradoxo de avanços e recuos” vistos nesta questão do desconfinamento, quando disse depois que os recuos apresentados pelo Governo não são, afinal, “bem recuos”.

José Adelino Maltez, professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, acha, pelo contrário, que o Presidente da República já “está a entrar no jogo da direita“.

“Rui Rio não serve e como a bazuca vai ser uma reivindicação da futura direita, que terá como slogan ‘a economia primeiro’, Marcelo está a alimentar a procura de uma alternativa ao centro”, defende.

ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Estivessem os dois cargos com cores políticas ao contrário e já há muito tempo o primeiro-ministro teria ido dar uma volta, e não estou aqui a discutir se com ou sem razão, guio-me apenas por casos passados!

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