China condena declarações dos EUA sobre massacre de Tiananmen. “É uma afronta ao povo chinês”

Gage Skidmore / Flickr

O director da CIA, Mike Pompeo

Um porta-voz chinês afirmou, num comunicado difundido pela embaixada chinesa em Washington, que a declaração do secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, “interfere grosseiramente” nos assuntos internos da China e é “uma afronta ao povo chinês e uma grave violação do direito internacional”.

Mike Pompeo recordou os “heróis do povo chinês que se levantaram corajosamente há 30 anos na Praça Tiananmen” para exigir reformas políticas, e pediu a Pequim que publique um balanço dos mortos e dos desaparecidos, algo que nunca fez, noticiou esta terça-feira a TSF, citando a agência Lusa.

O secretário de Estado afirmou que, “nas décadas que se seguiram, os Estados Unidos esperavam que a integração da China na comunidade internacional levasse a uma sociedade mais aberta e tolerante”. “Essas esperanças desapareceram”, frisou.

“O Estado chinês de um partido único não tolera qualquer dissidência e viola os direitos humanos sempre que é do seu interesse”, apontou.

Iniciado por estudantes da Universidade de Pequim, o movimento pró-democracia da Praça Tiananmen acabou quando os tanques do exército foram enviados para pôr fim a sete semanas de protestos, na noite de 03 para 04 de junho de 1989.

Os protestos ganharam força durante maio de 1989, pouco após a morte do líder reformista Hu Yaobang, que dividiu a hierarquia do Partido Comunista (PCC) em fações.

O número exato de pessoas mortas continua a ser segredo de Estado, mas as Mães de Tiananmen, associação não-governamental constituída por mulheres que perderam os filhos naquela altura, já identificaram mais de 200.

As autoridades chinesas defendem que a ação do Governo foi necessária para abrir caminho ao crescimento económico, e que se o Exército não interviesse, “a China mergulharia no caos”, como aconteceu em outros países socialistas.

A repressão sangrenta destes protestos, que poderá ter feito centenas ou até mesmo mais de mil mortos, continua a ser um assunto tabu na China.

Um “não-acontecimento” para os jovens chineses

De acordo com um artigo do Público, divulgado esta terça-feira, todos os anos, no início de junho, o Estado chinês mobiliza policias e recursos do seu aparelho de segurança para vigiar de perto Ding Zilin, uma professora aposentada que quase não sai da sua casa em Pequim. Este ano, os cuidados são redobrados.

Jakub Hałun / Wikimedia

Praça Tiananmen, em Pequim

Há 30 anos, Ding Zilin viu o filho de 17 anos, Jiang Jielian, e o marido, Jiang Pekun, serem mortos no mesmo dia durante a repressão do Exército aos manifestantes na Praça de Tiananmen. Decidiu fundar a organização Mães de Tiananmen para juntar familiares de manifestantes mortos durante os protestos, tornando-se num empecilho para o PCC na sua missão de apagar qualquer réstia da memória desses acontecimentos.

Há três anos, o New York Times disse que o telefone da sua casa foi cortado durante o aniversário dos protestos e que o Gabinete de Segurança Pública lhe tinha fornecido um telemóvel com três números apenas, incluindo o de emergência médica nacional.

Este ano, um homem foi detido na província de Sichuan depois de ter publicado no Twitter uma fotografia de uma garrafa de vinho com a inscrição “Em memória de 8964”, em referência à data do massacre em Tiananmen. De acordo com o site China Change, que compila notícias sobre violações de direitos humanos no país, outras quatro pessoas foram presas durante três anos pelo mesmo motivo.

Segundo o Público, o aparelho repressivo do regime chinês intensifica a sua atuação todos os anos à medida que se aproxima o aniversário dos protestos de Tiananmen. Qualquer comemoração é proibida e mesmo comentários nas redes sociais são vigiados ao milímetro pelos censores.

Há muitos assuntos que os chineses estão impedidos de discutir – as estimativas apontam para o bloqueio de 26 mil termos de pesquisa no Google e de 880 páginas na Wikipédia -, mas os acontecimentos de Junho de 1989 estão especialmente vedados.

“As autoridades chinesas têm receio de ações coletivas contra o Governo”, explicou à Al-Jazira o autor do livro “The Great Firewall of China: How to Build and Control na Alternate Version of the Internet”, James Griffith.

Primavera em Pequim

Como relatou o Público, no final dos anos 1980, a China atravessava um período acelerado de reformas modernizadoras, promovidas por Deng Xiaoping. A era de Mao Tsetung tinha sido oficialmente enterrada, e o sucessor conseguiu espaço de manobra para abrir a China às reformas, aproximando-a das economias de mercado. Foi nesta altura que foram inauguradas as primeiras zonas económicas especiais – que hoje são as grandes metrópoles no litoral do país.

manhhai / Flickr

Deng Xiaoping e Jimmy Carter, na altura Presidente dos EUA

Ao mesmo tempo, havia uma grande expetativa de que, tal como estava a acontecer na União Soviética com Mikhaïl Gorbatchev​, o regime de partido único estivesse na disposição de promover reformas política internas. A 15 de abril, a morte do ex-secretário geral do PCC, Hu Yaobang, considerado um reformista, serviu de pretexto para que milhares de estudantes se concentrassem em Tiananmen para pedir maior abertura política, mas também denunciando as práticas corruptas da elite partidária.

“Em 1989, a pobreza asfixiava o país de cima a baixo, e nas zonas rurais, onde a maioria das pessoas ainda vivia, a mera subsistência era a norma”, recordou a analista Bonnie Girard, que na altura vivia em Pequim, num artigo na revista Diplomat.

“A China estava na iminência de qualquer coisa mais do que apenas uma explosão económica, algo cuja magnitude poucos previam, mas que todos aguardavam calmamente”, referiu.

Ao longo das semanas, mais gente se juntava aos estudantes em Tiananmen, e os protestos alastravam a outras cidades. Um mês depois do início dos protestos, a China recebia Mikhaïl Gorbatchov numa visita de Estado, com o objetivo não declarado de mostrar ao líder soviético a unidade e estabilidade do regime. Mas a cerimónia de boas-vindas foi cancelada e a agenda da visita sofreu várias alterações, embaraçando o PCC.

A liderança chinesa que até aí se encontrava dividida, entre os que mostravam disponibilidade para negociar o fim dos protestos e aqueles que defendiam uma resposta dura, decidiu declarar a lei marcial, abrindo caminho a uma intervenção do Exército do Povo. Após semanas de impasse, na noite de 03 para 04 de junho, os militares abriram fogo sobre os manifestantes, e os tanques ocuparam Tiananmen.

O número de mortos causados pela repressão continua a ser, 30 anos depois, objeto de discussão. O Governo recusa divulgar qualquer informação sobre os acontecimentos, e as estimativas variam entre poucas centenas e dez mil vítimas, segundo um antigo embaixador britânico.

Memória apagada

A China continuou o seu caminho de reformas económicas, tornando-se na potência mundial que é hoje. Mas o massacre de Tiananmen permanece na sombra para a maioria dos chineses. As gerações mais novas pouco ou nada sabem sobre o que se passou, lê-se ainda no artigo do Público.

Kevin Lim / Flickr

Protestos em Tiananmen, em 1989

Para o regime, recordar que houve um movimento que contestou a hegemonia do PCC é um anátema. “A principal lição que a liderança partidária aprendeu foi a de que não iria tolerar divisões, sobretudo publicamente, uma vez que isso iria permitir levantamentos populares e o caos”, observou o analista do Instituto Brookings, Jeffrey Bader, que no final dos anos 1980 pertencia ao Departamento de Estado dos EUA.

O jornal South China Morning Post recordava recentemente uma história que demonstra a lacuna na memória da população chinesa sobre o 04 de junho. Em 2007, um jornal de Chengdu publicou um anúncio que prestava homenagem às mães que perderam filhos durante os protestos. A rececionista responsável pela aprovação da publicidade nunca tinha ouvido falar de Tiananmen, e julgava tratar-se de um acidente numa mina.

A censura contra comemorações ou discussões sobre o massacre de Tiananmen é frequentemente apontada como a razão para que os mais jovens pouco ou nada saibam sobre o episódio. Mas há quem note igualmente a mudança geracional na China, onde as gerações que nasceram no período do crescimento económico, aliado à estabilidade fornecida pela consolidação do poder do PCC, dão hoje prioridade a questões materiais.

“Os chineses podem ser muito influenciados pelo Estado, mas esta propaganda funciona em conjugação com a realidade empírica do enorme crescimento de ganhos materiais, dos quais toda a população (urbana e rural) beneficiou diretamente”, notou o professor do Colégio de Defesa Nacional dos Emirados Árabes Unidos, Christopher Colley, à Diplomat.

“O Ocidente precisa de perceber que as realidades sociais e económicas na China fazem deste aniversário um não-acontecimento para a maioria dos chineses”, concluiu.

TP, ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

  1. Ignorar Tiananmen é um insulto aos heróis da época e ao povo chinês, o PCC é uma entidade politica que impõe uma ditadura aos chineses ….uma vergonha que o Mundo tolera à pala dos negócios, uma hipocrisia imposta por uma classe mais fdp que a humanidade criou e que mais mortos provocou.

  2. A china está “a espera de quê para avançar com todas as possibilidades de resposta???? Tem que ser dente por dente, olho por olho. Patrulhar os mares da china e nao permitir que navios americanos andem na zona, a nao ser em aguas internacionais, Porque nao avançar com proibiçao de compra por parte dos eua das tais terras raras, que segundo dizem iria parar por completo a tecnologia militar, tecnologia dos telemovei e outros, porque nao avcançam forte e feio, a china tem potencial para colocar os eua de rastos.

  3. Estes chinocas, agora que tem poder, já fazem pressão sobre tudo e todos e até querem mandar na opinião publica dos outros países!…
    Haja dinheiro….

  4. Mais de 200?!
    Mais de 10,000 em mortos e desaparecidos, muitos deles simples estudantes.
    E isto aconteceu em 1989.
    Mais de 70% da nova geração na China não sabe exactamente o que se passou.

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