Autor do relatório sobre Pedrógão acusa Comissão de Dados de censura

António Cotrim / Lusa

O investigador Xavier Viegas entende “que nada justifica a decisão de censurar” um capítulo do relatório e que “tudo fará” para que as histórias das vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande e Góis sejam conhecidas.

Xavier Viegas, que coordenou uma equipa do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra na elaboração de um relatório sobre os fogos de Pedrógão Grande, distrito de Leiria, e Góis, distrito de Coimbra, reage num artigo de opinião publicado no Público ao veto da Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) à publicação integral do capítulo 6 do documento.

Na semana passada a CNPD vetou a publicação integral do capítulo 6 do relatório elaborado por Domingos Xavier Viegas sobre os incêndios de Pedrógão Grande, permitindo apenas que os familiares das vítimas tenham acesso à informação.

A CNPD considera que a divulgação pública do relatório expõe “as pessoas num grau muito elevado, afetando significativamente os direitos fundamentais ao respeito pela vida privada e à proteção de dados pessoais”.

O especialista explica que preparou uma nova versão deste capítulo de forma a omitir os nomes das pessoas envolvidas e “tornando o texto impessoal e de difícil leitura mas ainda assim compreensível”.

No artigo de opinião hoje publicado, Xavier Viegas considera “penoso ver que o trabalho de uma equipa de investigação, com provas e contribuições dadas no âmbito do estudo do comportamento do fogo, da segurança e da proteção de pessoas e bens, seja censurado a bem da proteção de dados que são reconhecidamente do domínio público”.

“Pela nossa parte, tudo faremos para que tal aconteça e iremos usar a nossa liberdade de investigação e o nosso direito e obrigação de divulgar os resultados da nossa investigação, para a dar a conhecer a todos os que tenham interesse nela”, refere.

O investigador lembra que o propósito da sua equipa “foi sempre o de dar a conhecer os factos apurados, registando o que de bom e mau” lhes foi dado a analisar, sem condenar ou culpar nenhuma pessoa ou entidade, mas para comunicar, ao público em geral, as lições que se devem retirar deste eventos e para dotar as entidades pertinentes de elementos que lhes permitam “tomar decisões quando estas se imponham”.

No entender de Xavier Viegas, “o ruído que se tem feito em torno deste capítulo tem erradamente desviado a atenção das pessoas para o conteúdo do relatório, mesmo sem este capítulo”.

“Na preparação e apresentação dos acidentes não nos moveu qualquer intenção de voyeurismo, de expor publicamente as pessoas ou os seus familiares, mas sim a de apresentar, com o rigor que nos foi possível ter, os factos apurados, para ficarem documentados historicamente e para servirem de ensinamento para outros”, disse.

No que diz respeito à publicação de algumas subsecções do capítulo 6, que a CNPC autoriza, o investigador considera tratar-se de “partes pouco substanciais do relatório, omitindo-se assim aspetos muito importantes, que como a própria CNPD reconhece, são de interesse público”.

O Governo divulgou na sexta-feira passada alguns pontos do capítulo 6 do relatório sobre os incêndios de Pedrógão Grande, que fazem uma análise detalhada a casos de sobrevivência, a vítimas mortais encontradas e a problemas nas comunicações.

Os pontos em causa no relatório analisam várias situações, entre as quais casos de sobrevivência por as pessoas terem permanecido em casa ou em tanques de água, alguns feridos que foram socorridos, as pessoas que foram encontradas já sem vida, mas salvaguardam a identidade dos envolvidos, bem como alguns dos locais onde ocorreram as situações.

Dias antes do anúncio do veto pela CNPD, Xavier Viegas já tinha defendido que o relatório entregue ao Governo fosse divulgado na totalidade.

Em 17 de junho e durante vários dias, fogos florestais devastaram extensas áreas, sobretudo em Pedrógão Grande, provocando 64 vítimas mortais e mais de 200 feridos, além de elevados prejuízos materiais.

// Lusa

PARTILHAR

5 COMENTÁRIOS

  1. Qual e o problema de ocultar o nome das familias?! Acho bem!

    Na minha opiniao so querem o nome das familiar para “vender sangue”.

  2. Este tipo quer obviamente obter dividendos públicos do relatório que ajudou a fazer!
    Como se costuma dizer, “quer aparecer”… Esta publicidade gratuita dá-lhe uma pseudo-notoriedade!
    Mais um triste, coitado!

  3. E ainda dizem que a censura não existe… depois vêm com a noticia das cheias de 1967 essas sim uma catástrofe natural,e falam da censura da época, para disfarçar as asneiras feitas nos tristes incêndios de 2017 que de catástrofe natural nada têm. Pois foram colocados pela mão do homem, e ainda não querem que se saiba … isto sim é Censura

RESPONDER

TAP regista prejuízos de 111 milhões de euros até setembro

A TAP registou, nos primeiros nove meses deste ano, prejuízos acumulados de 111 milhões de euros que atribui a "variações cambiais sem impacto na tesouraria". "A TAP S.A. apurou um prejuízo acumulado, nos primeiros nove meses …

Coreia do Norte não está interessada em mais cimeiras com os EUA

A Coreia do Norte advertiu, esta segunda-feira, que "não está interessada" em mais cimeiras com os Estados Unidos, se Washington persistir na recusa em fazer concessões. A Coreia do Norte deu a Washington até ao final …

Refugiado detido que escreveu um livro pelo Whatsapp conquista a liberdade

O jornalista e escritor curdo-iraniano Behrouz Boochani, que estava detido há seis anos num centro de imigrantes na Austrália, conquistou a liberdade. Boochani escreveu, através de mensagens da rede social Whatsapp, o livro “No Friend But …

Pinto Luz não se resigna a disputar "campeonato dos pequeninos"

O candidato à liderança social-democrata afirmou, esta segunda-feira, não se resignar a um partido que disputa o "campeonato dos pequeninos" ou é "uma segunda escolha do PS", pedindo a "quem não gosta deste PSD" que …

Militares portugueses já salvaram mais de 14 mil migrantes no Mediterrâneo

Marinha, Polícia Marítima e Unidade de Controlo de Costa da GNR, ao serviço da agência Frontex, no sul de Espanha e de Itália, já resgataram 14.151 migrantes no Mediterrâneo desde 2014. As equipas militares portuguesas, a …

Estudantes de Medicina dizem adeus ao "terrível" Harrison

Mais de 2.700 recém-licenciados de Medicina realizaram, esta segunda-feira, a Prova Nacional de Acesso (PNA), que substitui o "terrível" Harrison. Esta segunda-feira, mais de 2.700 candidatos responderam pela primeira vez a 150 questões da Prova Nacional …

Vítimas de legionella de Vila Franca de Xira reclamam 2,6 milhões ao Estado

A Associação de Apoio às Vítimas do Surto de Legionella de Vila Franca de Xira reclama uma indemnização de 2,6 milhões de euros por falhas e omissões de entidades públicas em relação às vítimas que ficaram …

Pelo menos três mortos em tiroteio em supermercado no Oklahoma

Pelo menos três pessoas morreram, esta segunda-feira, num tiroteio num supermercado da cadeia Walmart em Duncan, cidade do Estado norte-americano Oklahoma. O responsável da polícia de Duncan, Danny Ford, citado pela televisão local TNN-ABC, indicou que …

Benfica tem 125 jogadores com contrato profissional. Sporting tem 123 e o FC Porto só 80

O Benfica tem assinado contratos profissionais com cada vez mais jogadores, ao longo dos últimos anos. Actualmente, o clube da Luz tem contrato com 125 atletas. O Sporting está lá perto, com vínculos profissionais com …

Rússia está a negociar a troca de espiões ao estilo do que acontecia na Guerra Fria

A Rússia, a Noruega e a Lituânia realizaram recentemente uma troca de espiões, garantindo o retorno de vários agentes capturados aos seus países de origem. De acordo com chefe da contrainteligência lituana, citado pelo Moscow Times, …