Quatro “cavaleiros do Apocalipse” dão azo à resposta de Trump à pandemia

The United States Department of Justice / Wikimedia

O procurador-geral dos EUA, William Barr, com Donald Trump.

Jared Kushner, Stephen Miller, Mike Pompeo e William Barr são as principais figuras que têm estado ao lado de Donald Trump na gestão da pandemia de covid-19.

A pandemia de covid-19 fez, até esta sexta-feira, mais de 75 mil mortos nos Estados Unidos, com mais de 1,2 milhões de infetados, de acordo com uma contagem da Universidade Johns Hopkins. Face a isto, pode-se dizer que a gestão da pandemia do novo coronavírus nos Estados Unidos está longe de ser perfeita.

Muitos apontam o presidente norte-americano, Donald Trump, como o principal responsável. Inicialmente desvalorizou a situação, demorou a aplicar medidas de contenção e o país acabou por pagar pelo descuido.

Porém, a equipa de gestão da pandemia não é um exército de um homem. Há quatro rostos que dão azo à catastrófica resposta de Trump à pandemia de covid-19: Jared Kushner, Stephen Miller, Mike Pompeo e William Barr.

Estes quatro homens afetos a Donald Trump, escreve o The Intercept, estão a deixar o presidente dos EUA transformar a pandemia numa guerra cultural, enquanto se procura usar a crise sanitária para fomentar boatos e teorias da conspiração para punir os inimigos políticos de Trump.

O conselheiro da Casa Branca, Jared Kushner, com Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

Jared Kushner é genro de Donald Trump e um dos seus principais conselheiros na Casa Branca. Responsável pela resposta federal ao vírus, Kushner comandou uma task force de reserva.

No início da pandemia, o marido de Ivanka Trump convenceu o presidente de que a imprensa estava a exagerar em relação à ameaça do coronavírus. Isto levou a que Donald Trump tardasse a aplicar medidas que pudessem combater o vírus numa fase inicial, que é fundamental para evitar a sua propagação.

“Estamos do outro lado do aspeto médico disto”, disse Kushner à Fox News, na semana passada. “Atingimos todos os diferentes marcos necessários. O Governo federal esteve à altura do desafio e esta é uma grande história de sucesso”.

Embora a pandemia continue a causar estragos no país, Kushner age como se o plano de ação dos Estados Unidos estivesse a correr às mil maravilhas.

Gage Skidmore / Flickr

Stephen Miller é conselheiro de Donald Trump na Casa Branca.

Stephen Miller é outro dos conselheiros políticos da Casa Branca. Por sua vez, convenceu Trump a assinar uma ordem executiva que restringe a imigração durante a pandemia. Apesar de ser algo temporário, muitos antecipam que a sua ideia seja tornar isto num diploma permanente.

Miller há muito que é um defensor de políticas de anti-imigração e conseguiu que o presidente norte-americano alocasse fundos do Departamento de Segurança Interna, responsável pela resposta à pandemia, para o controlo de imigração e fronteiras.

A demissão de Stephen Miller foi exigida por um grupo de 25 congressistas judeus, em dezembro do ano passado, depois de uma fuga de informação o descrever como um supremacista branco.

“O seu apoio bem documentado aos temas centrais do nacionalismo branco e violentamente anti migrantes é absolutamente inaceitável”, escreveram em carta dirigida a Trump.

Gage Skidmore / Flickr

O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo

Mike Pompeo é já um nome conhecido de muitos. O secretário de Estado norte-americano tem sido um dos principais cultivadores de teorias da conspiração defendidas por Donald J. Trump. Ainda esta semana, disse que há “imensas provas” de que coronavírus vem de um laboratório na cidade de Wuhan, na China.

Apenas dois dias depois, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e um dos principais peritos em doenças infecciosas da Casa Branca, Anthony Fauci, desmentiram o presidente norte-americano e o seu secretário de Estado, afirmando que não existem provas que sustentem que o novo coronavírus foi criado num laboratório chinês.

Por fim, o último ‘cavaleiro do Apocalipse’ é o procurador-geral William Barr. Segundo o The Intercept, Barr está a ameaçar recorrer à Justiça para agir contra os governantes que, na ausência de liderança nacional, fizeram aquilo que podiam para lidar com a pandemia, impondo as suas próprias medidas de contenção.

A administração de Trump tentou também capacitar Barr com o poder de pedir aos juízes federais que congelassem os processos judiciais durante uma emergência nacional. A Câmara de Representantes, fortemente controlada pelos democratas, certamente que irá rejeitar a proposta. No entanto, caso fosse aprovada, isto significaria que qualquer pessoa presa poderia ser mantida sob custódia sem acusação até que a crise terminasse.

A oposição a William Barr não é recente e vem já desde o processo de impeachment de Donald Trump, no ano passado. Mais de mil ex-funcionários do Departamento de Justiça dos EUA pediram a demissão do procurador-geral, acusando-o de ter interferido num processo judicial para ajudar um amigo de Donald Trump.

Roger Stone, ex-consultor de Trump, tinha sido condenado a uma pena de entre sete e nove anos de prisão, por mentir aos procuradores que investigaram a interferência russa nas eleições presidenciais de 2016, mas o Departamento de Justiça reduziu a pena, em nome dos “interesses da justiça”, após o presidente ter lamentado a dureza da sentença.

Punho de ferro sob a oposição

Em contrapartida, quem não concorda com Trump parece ter um destino pouco encorajador. Um cientista do Governo dos Estados Unidos disse que foi demitido depois de criticar a pressão exercida por Trump para o uso de um medicamento contra a malária no tratamento da covid-19, a hidroxicloroquina.

Rick Bright, ex-diretor da Autoridade Biomédica de Pesquisa e Desenvolvimento Avançado, um organismo governamental, apresentou esta terça-feira queixa pela forma como foi afastado do seu cargo junto do Gabinete de Conselho Especial, uma agência que recebe e analisa denúncias.

O líder norte-americano considera agora que a atual crise do novo coronavírus é “pior” que o ataque surpresa conduzido pelo Japão em 1941 contra a base naval norte-americana de Pearl Harbor.

Durante uma visita a uma fábrica de máscaras, Donald Trump admitiu que se prepara para reabrir o país, considerando que “haverá mais mortes” com a retoma económica e justifica que esta será uma uma consequência natural ao facto das pessoas não estarem confinadas às suas casas.

Daniel Costa DC, ZAP //

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