Ministra manda adiar cirurgias prioritárias. Diretor de medicina intensiva do S. João fala em “situação hipergrave”

Alejandro Garcia / EPA

A ministra da Saúde, Marta Temido, emitiu esta quarta-feira um despacho para os hospitais, onde dita que todos os esforços devem estar concentrados na área de Cuidados Intensivos, nomeadamente os doentes críticos da pandemia.

A ministra da Saúde enviou um despacho aos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que “entra em vigor imediatamente” em determina que os hospitais devem passar os seus Planos de Contingência para o nível máximo e proceder à sua revisão e expansão, de forma a maximizar a resposta da capacidade hospitalar à situação epidemiológica local, regional e nacional.

Esta medida deve ser tomada em articulação com a Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva e as Administrações Regionais de Saúde respetivas.

Segundo o despacho, os hospitais devem também “suspender a atividade assistencial programada não urgente que possa reverter em reforço de cuidados ao doente crítico, desde que tal suspensão, pela sua natureza ou prioridade clínica, não implique risco de vida para os utentes, limitação grave do seu prognóstico e/ou limitação de acesso a tratamentos periódicos ou de vigilância, designadamente no âmbito do acompanhamento da gravidez, exacerbação das doenças crónicas ou outros”.

Outra medida referida no despacho é o “diferimento de atividade cirúrgica programada de prioridade normal ou prioritária”.

O despacho determina a alocação de meios humanos para a Medicina Intensiva, de modo a maximizar a capacidade de resposta nesta área, em conformidade com a suspensão e diferimento de atividade assistencial efetuada, mediante proposta da CARNMI e sempre em articulação com a direção clínica de cada unidade”.

“O surgimento e a propagação do vírus SARS-CoV-2 em Portugal determinou a necessidade de assegurar a prevenção, contenção, mitigação e tratamento da covid-19, através da adoção de um conjunto de medidas excecionais e temporárias de resposta à pandemia”, refere o documento.

A nota sublinha que “a atual evolução da pandemia impõe a maximização da capacidade instalada, designadamente através da revisão e expansão dos Planos de Contingência na área da Medicina Intensiva, alocando os profissionais de saúde necessários à prestação de cuidados ao doente crítico, ainda que, para o efeito, seja necessário suspender a atividade assistencial programada que não coloque o utente em risco de vida ou de grave prejuízo atendendo à sua prioridade clínica”.

Por outro lado, o despacho não manda suspender a cirurgia urgente ou muito prioritária e não se aplica a hospitais como o Instituto Português de Oncologia. O Ministério da Saúde assegura que “o diferimento de atividade cirúrgica será sempre feito mediante avaliação clínica e garantia de que não ocorre limitação do prognóstico do utente”.

O documento adianta ainda que a cirurgia oncológica prioritária deve ocorrer até 45 dias após a indicação cirúrgica, sublinhando que o despacho vigora até 31 de janeiro.

Hospitais de Lisboa aumentam camas para doentes covid

Na Grande Lisboa, de acordo com o jornal Público, nos hospitais Amadora-Sintra e Garcia de Orta, o número de camas disponíveis para internar pacientes infetados é superior ao que estava inicialmente previsto nos planos de contingência.

No Hospital Amadora-Sintra, o acréscimo de camas covid-19 verificou-se na semana passada, “com mais 30 camas que reforçaram as 120 camas previstas no último nível do plano de contingência”.

No fim-de-semana, cinco doentes com covid-19 foram encaminhados para uma unidade no Porto, nessa altura “de forma preventiva, prevendo que pudesse haver um acréscimo de necessidades esta semana”.

Também em cuidados intensivos houve um acréscimo de mais duas camas, passando a ser 22. Segundo o hospital, apenas uma está vaga.

O Hospital Garcia de Orta vive-se uma situação de “sobrelotação da área dedicada à assistência a doentes covid-19”

As 155 camas que têm disponíveis estão todas ocupadas, com 136 doentes em enfermaria, 18 em cuidados intensivos e um em hospitalização domiciliária. As 155 camas, que representam perto de 30% do total de camas de agudos, resultam de um acréscimo feito na terça-feira de mais 16 camas de enfermaria que antes eram para doentes não covid e mais quatro camas de cuidados intensivos desde o dia 8.

O Centro Hospitalar Lisboa Norte, que tem 198 internados com covid-19, 42 dos quais em unidade de cuidados intensivos (UCI), “aumentou 50 vagas ao seu plano para internamento covid, passando de 160 para um total de 210 camas, das quais 48 são em UCI”.

Já no Centro Hospitalar Lisboa Central, a lotação é de 246 camas, das quais 196 camas de adultos, seis camas em pediatria e 44 camas em cuidados intensivos.

O Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental diz estar a “conseguir dar resposta à procura da urgência covid”. Quanto a doentes internados, em enfermaria estão 93, havendo ainda sete camas disponíveis, e em cuidados intensivos 29 e quatro camas disponíveis.

Diretor de medicina intensiva do S. João: “Situação hipergrave”

O diretor de serviço de medicina intensiva do Hospital de São João, Porto, defendeu o encerramento das escolas, uma medida “contra” a sua “convicção natural”, mas “essencial” num momento “horribilis” do SNS.

“A situação atual é tão preocupante que, nesta altura, advogo o encerramento das escolas na totalidade. Isto é algo completamente contra o meu coração. Defendo isso porque estamos numa situação hipergrave. É preferível meter as medidas todas ao mesmo tempo, simbolizando à população a gravidade do momento, e depois ir aliviando de forma incremental”, disse José Artur Paiva, em entrevista à agência Lusa.

“Eu tenho uma posição de base que é: escolas de 1.º e 2.º ciclo devem ser mantidas [com ensino presencia]. Já o contrário, para os 13/14 anos, não vejo essa necessidade imediata, mas o momento é grave. E temos agora a nova variante [do vírus] que parece ter maior transmissibilidade entre os mais novos do que a variante mais comum”, reforçou José Artur Paiva.

Diretor de uma unidade de cuidados intensivos que atualmente está com uma taxa de ocupação a rondar os 90%, apontou que “já se perderam alguns dias preciosos”, mas sublinhou a necessidade de olhar para o futuro, num momento que antevê “o mês horribilis do SNS”.

José Artur Paiva defendeu que, com o atual crescimento de mortalidade e a previsão de que cada dia em que são registados 10 mil novos casos, corresponde 150 novos casos a admitir em medicina intensiva sete a dez dias depois, “aumentar medidas de confinamento é evidente”.

“Isto quer dizer que vale a pena sacrificarmo-nos agora porque temos uma saída, temos um plano que nos conduz ao fundo do túnel. Não podemos é pensar que por termos o plano, podemos facilitar. Só podemos apagar os faróis ao fim do túnel”, frisou o especialista.

Atualmente o Hospital de São João acolhe 120 doentes covid-19, dos quais 42 estão em cuidados intensivos.

Maria Campos, ZAP // Lusa

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4 COMENTÁRIOS

  1. Gostaria que a ministra Marta Temido me esclarecesse como devo lidar com a minha condição!
    Tenho um tumor no cerebro e desde que se iniciou Março 2020 que aguardo cirurgia. A minha sorte é ser benigno e aparentemente estável! Coitados dos outros todos que estão à minha frente na lista de espera e que são mais urgentes! Esses devem estar radiantes com a boa prestação deste governo!
    Com sorte, o problema destas pessoas e o meu, resolve-se por si mesmo e assim as listas vão reduzindo aos poucos até não haver necessidade de haver listas de espera.

    • Espere sentadinha, pois este SNS e esta DGS são o pão podre do setor da saúde.
      As melhoras para si, mas tenho de ser realista.

  2. Lamento a sua situação e a de muitos outros mas, não responsabilizo a ministra. A culpa é dos que proclamam a “liberdade” de não confinar, de não usar máscara, de não abdicar de momentos sociais, esquecendo que a liberdade deles acaba onde começa a dos outros. Há figuras públicas que, em programas de TV, têm tido um comportamento politicamente incorrecto, incentivando quase à desobediência, como foi o caso da magistrada Maria José Morgado, no Governo Sombra. Eu não acreditava no que estava a ouvir!!

  3. Mas por que razão não se negoceia um acordo com os hospitais privados e passam para estes os largos milhares de cirurgias que estão em atraso? O país está em guerra aberta com uma pandemia e o país é de todos, portanto todos teremos que estar envolvidos no mesmo combate, aqui não pode haver cores políticas ou outras em primeiro lugar e muito menos desleixo dos governantes.

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