“Probabilidade de morrer desceu drasticamente”. Peritos propõem manter a matriz de risco atual

O Infarmed acolhe mais uma reunião de peritos para avaliação da situação epidemiológica da covid-19 em Portugal. Como era de esperar, os especialistas não aconselham uma alteração da matriz de risco.

André Peralta Santos, responsável pelos serviços de informação e análise da Direção-Geral da Saúde (DGS), refere que o país tem uma incidência “baixa a moderada”, por volta dos 60 novos casos por 100 mil habitantes, “com ligeira tendência crescente na última semana”.

“Não são muitos concelhos com incidência superior a 120 casos por 100 mil habitantes”, disse. Contam-se agora 12 concelhos nessa situação, englobando 683 mil habitantes, ou seja, 7% da população.

Por sua vez, o concelho de Lisboa apresenta uma incidência superior a 120 o que “pode apresentar maior preocupação” por ter maior densidade populacional.

Já a região de Lisboa e Vale do Tejo revelou “crescimento da incidência por ser uma zona de grande densidade e movimentos pendulares intensos”, contudo, enquanto região, os números da incidência mantêm-se abaixo dos 120 casos por cada 100.000 habitantes.



O especialista frisa que a maior incidência se registou no grupo entre os 20 e os 40 anos, ou seja “adultos jovens”, com maior destaque para a faixa etária dos 20 aos 29.

Os mais velhos, ou seja, pessoas com mais de 80 anos, mantêm-se numa “tendência decrescente”, fruto da vacinação. O investigador acrescenta que entre as 272 pessoas com mais de 80 anos que foram infetadas já depois de terem vacinação completa, se registaram 15 internamentos e nenhum óbito.

Quanto às consequências da doença, o especialista salientou que as hospitalizações continuam com tendência decrescente, sendo que os doentes internados têm, atualmente, entre 40 a 59 anos.

Baltazar Nunes aborda a evolução da incidência e transmissibilidade do vírus e revela que em meados de março a incidência tem estado constante, o que significa que a incidência da covid-19 em Portugal se encontra “em níveis baixos/moderados, mas com tendência crescente”.

Ainda assim, alerta que para compensar o aumento dos contactos entre as pessoas e da transmissibilidade, é preciso aumentar a testagem e reduzir o número de contactos fora das “bolhas” familiares.

Aumento da mobilidade

Sobre a mobilidade, Henrique Barros diz que os “valores de confinamento são muito baixos, ao nível de agosto de 2020, quase pré-pandémica”, estando Portugal entre os países com menor redução de mobilidade e a registar um crescimento no movimento em transportes públicos assim como em locais de trabalho e lazer.

O especialista diz que a incidência atual está ao nível do mesmo período do ano passado, mas a composição por faixas etárias é diferente e o reflexo nos internamentos também diminui, como reflexo da vacinação.

Mas mais importante, a probabilidade de morrer “desceu drasticamente”, sublinha Henrique Barros. Entre os maiores de 80 anos, e ao início, essa probabilidade era de cerca de 20% – um em cada cinco infetados acabavam por morrer. Agora, ronda os 5% e muitas vezes o óbito está associado a outras doenças.

Contudo, recorda que “o vírus chegou para viver entre nós. É isso que quer dizer endemia”. Neste sentido, o especialista destaca que “tudo leva a crer que a infeção se tornou endémica, ou pelo menos tornou-se endémica socialmente”, lembrando que os números em Portugal são um bom sinal de que houve aprendizagens sobre o modo de combater a doença.

Variante do Reino Unido perde força

João Paulo Gomes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, frisa que em abril não havia qualquer caso da variante indiana, sendo que em maio houve um salto que gera preocupação: nas análises feitas, foi identificada em 4,6% dos casos (em 37 amostras), o que pode corresponder, segundo estimativa, a 160 casos.

“Estes casos não se referem apenas à região de Lisboa e Vale do Tejo, mas já se encontram em 9 distritos e 13 concelhos”, disse o especialista.

Esta foi uma das novidades trazidas por João Paulo Gomes que informou ainda que a variante do Reino Unido é a prevalecente, mas que está a perder força.

De abril para maio, passou de 91% dos casos para 87%, a diferença explica-se pelo aparecimento dos tais 4,6% dos casos da variante indiana. As variantes de Manaus e da África do Sul andam em torno dos 3%.

De acordo com os dados, as amostras das pessoas que apresentaram a variante indiana foi, sobretudo, porque viajaram para a Índia ou para o Nepal.

Neste sentido, é fundamental haver um controlo de fronteiras para evitar a disseminação da variante indiana, refere João Paulo Gomes.

Atualização da matriz de risco

Andreia Leite, da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, explica que existe um conjunto de critérios, batizados como linhas vermelhas, destinados a considerar a epidemia como controlada: a incidência cumulativa a 14 dias por 100 mil habitantes (que não deveria passar dos 240), bem como o Rt, que devia ficar abaixo de 1.

A investigadora destaca que ainda há bastantes incógnitas, designadamente a resposta das vacinas às novas variantes e a duração da imunidade. Ao mesmo tempo, só a partir da segunda dose é que é possível atingir níveis de efetividade consideráveis.

Assim, propõe que se mantenha a atual matriz de risco, uma vez que “a vacinação vai contribuir para manter os valores controlados de infeção, logo não se justifica a modificação dos critérios”, diz Andreia Leite.

Além disso, os peritos também tiveram em conta o enquadramento europeu de reconhecimento de patamares de risco, a menor probabilidade de ocorrência de variantes de risco quando a transmissão comunitária se encontra controlada, a necessidade de diferenciação geográfica de medidas e, ainda, a clareza e comunicação, uma vez que “a matriz é já conhecida por todos”.

De modo a chegar a esta recomendação, os peritos reviram a literatura e os critérios seguidos por outros dez países, que já tinham servido de base para a proposta inicial das linhas vermelhas.

Especialista propõe novos níveis de desconfinamento

Raquel Duarte apresentou um plano desenhado para continuar o desconfinamento depois de junho.

O plano assenta em pressupostos como a continuação da vacinação e da testagem, com grande foco também na ventilação dos espaços interiores e grande preocupação com a “igualdade”. O princípio básico será a “precaução”, para evitar “regresso a cenários restritivos” e a intenção será “progredir evitando ter de recuar”.

A especialista propõe que as regras gerais devem ser: obrigatoriedade de investir na ventilação e climatização nas atividades interiores, abrir janelas e portas, promover atividades ao ar livre, promover a testagem alargada, utilizar máscara e incentivar a  higienização.

5,2 milhões de inoculações em Portugal Continental

Henrique Gouveia e Melo, coordenador da task force da vacinação contra a covid-19, revela que até no final desta semana, mais de 85% das pessoas dos 60 aos 69 anos estarão vacinadas e cerca de 40% dos 50 aos 59 anos também.

A data de 8 de agosto continua a ser a referência para ter 70% da população vacinada com pelo menos uma dose.

Ainda assim, este dia pode variar entre duas semanas mais cedo ou mais tarde, consoante a disponibilidade da entrega de doses e a manutenção ou não de restrições de idade no uso das vacinas da Janssen e Astrazeneca.

Já foram administradas em Portugal continental 5,2 milhões de vacinas.

Ana Isabel Moura, ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Portanto, para os especialistas isto deixou de ser uma necessidade para reduzir os obtidos e manter um numero baixo de internamentos. Agora é a forma de combater o virus!

    De um mes para o outro os chamados especialistas que percebiam tanto do virus como o Sapateiro (as decisões e as medidas propostas completamente diferentes das que temos hoje mostram o quanto percebiam do virus, foi à base de tentativa e erro com resultados desastrosos na sociedade) tornaram-se nas entidades mais importantes do pais, sem serem eleitos por os portugueses decidiram sobre as restrições, a economia e o emprego.
    Agora não querem perder a importância e ter de voltar para debaixo da pedra da mediocridade (de onde nunca deviriam ter saído).

    Por eles isto seria para manter até não se registrar nenhum caso pelo menos durante 365 dias consecutivos!

    Espero sinceramente que os governantes tomem decisões com base no estado geral e não apenas ao virus.

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