Há hospitais sem médico à noite para assistir internados com covid-19

Alejandro Garcia / EPA

Vários hospitais no norte do país não tem recursos humanos suficientes para dar assistência noturna a doentes internados com covid-19. É o caso dos hospitais de Penafiel e de Amarante, que não têm um único médico em permanência durante a noite, e dos hospitais de Gaia e do Porto, que têm uma equipa reduzida para dar assistência a mais de uma centena de pacientes.

Segundo avança o Público esta sexta-feira, existem hospitais sem um único médico em permanência durante a noite para assistir dezenas ou centenas de doentes internados com covid-19.

É o caso do hospital de Penafiel, que tem neste momento cerca de 130 pessoas internadas com o novo coronavírus em cinco enfermarias diferentes – se um destes pacientes precisar de assistência durante a noite é chamado um médico da urgência.

Também o hospital de Amarante, onde estão internados neste momento mais de 50 doentes com covid, utiliza esse sistema.

Há uma percentagem de doentes com covid-19 que descompensa de forma rápida, o que obriga a uma intervenção célere. Além disso, face à enorme pressão sobre os cuidados intensivos, muitas destas enfermarias acabam por acolher não só os doentes com necessidade de cuidados de nível um, como é habitual, mas também os de nível dois, pacientes mais graves que deveriam estar monitorizados nos chamados cuidados intermédios, realçaram vários médicos ao jornal Público.

Por outro lado, a necessidade de usar diversos equipamentos de proteção individual para prestar assistência a um doente covid torna tudo mais complicado e demorado, já que se um médico tiver que prestar cuidados em diferentes enfermarias tem que se equipar, desequipar e voltar a equipar várias vezes – o que se complica ainda mais se as enfermarias estiverem em pisos ou edifícios distintos.

Por esta razão, tem havido médicos que entregam à administração do hospital declarações a isentarem-se de responsabilidades por considerarem que estão a trabalhar sem as condições adequadas.

Foi o que aconteceu no hospital de Gaia, onde cerca de uma dezena de pneumologistas asseguram a assistência noturna dos doentes covid, distribuídos por três pisos diferentes num mesmo edifício.

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, interpelou até a administração para o facto de “a execução de tal ordem ser suscetível de representar um risco acrescido para a saúde dos doentes, e, por certo, importa para estes médicos a assunção da responsabilidade de vigilância e prestação de cuidados a doentes, cujo quadro clínico é instável, e como sabemos, com hipóteses elevadas de agravamento súbito e de descompensação”, citou o Sindicato Independente dos Médicos.

A administração do hospital de Gaia garantiu que esta situação “não coloca em causa a segurança dos doentes internados”, sublinhando que existe uma equipa de emergência interna, que pode prestar apoio se dois doentes precisarem de assistência em simultâneo.

Já no hospital de Santo António, no Porto, a situação não era melhor e foi, entretanto, criada uma equipa de emergência – composta por um especialista e um interno – para assistir os 122 doentes covid distribuídos por quatro enfermarias, localizadas em dois edifícios, durante a noite.

Nas quatro enfermarias estão de permanência um especialista e um interno, confirmou o Centro Hospitalar Universitário do Porto (CHUP) ao Público.

O Santo António alega ainda que a assistência noturna aos doentes covid internados é feita “em rede” e que além dos residentes, há na urgência diferentes especialistas e uma equipa de emergência interna só para os doentes infetados. “O CHUP duplicou as equipas de emergência permanente, estando uma responsável pela assistência a doentes covid-19”, sublinha o hospital.

Também neste hospital pelo menos uma dezena de médicos assinou declarações de escusa de responsabilidade, contestando a forma como está organizada a urgência covid na segunda fase da pandemia – ao contrário do que aconteceu na primeira vaga, agora não há uma equipa dedicada à urgência covid, havendo uma rotação muito maior de profissionais, incluindo internos sem a experiência adequada.

Segundo os médicos ouvidos pelo Público, a principal dificuldade de reforçar equipas nos diversos hospitais está relacionada com o facto de se estar a tentar ao máximo manter a atividade programada, o que faz com que haja muito menos opções quer a nível de espaço, quer a nível de recursos humanos.

ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

  1. Pois então por onde andam os tais médicos e enfermeiros que emigraram devido à catástrofe económica que a troika teve que controlar com rígidas medidas e que o senhor Costa e companhia prometeram fazer regressar ao país? Já lá vão cinco anos ou mais e pelo que me tenho apercebido eles vão continuando a circular no mesmo sentido, ou seja, de cá para lá. Chega de aldrabões!

  2. É o resultado de há décadas não investirem na saúde ao invés todos os governos têm é cortado na saúde quando todos eles sabem que médicos enfermeiros e outros profissionais de saúde levam anos a especializarem-se um medico ou enfermeiro não se especializa de um dia para o outro, se estaríamos agora melhor? Não sei se estaríamos melhor pior ou igual ao olhar o Mundo vejo que todos os Países estão com falta de profissionais de saúde. Não é por acaso que alguns agora já abriram os cordões há bolsa para darem mais salário e melhores condições de trabalho, como diz o ditado “em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão”.

  3. O problema maior foi tê-los “enxotado”. Foram todos obrigados a sair da sua zona de conforto pelo sr. Passos Coelho. Já na altura parecia inevitável reforçar o SNS. Agora é tarde! Ainda que Costa quisesse, eles talvez não estejam interessados! Entretanto, organizaram as suas vidas e têm tarefas importantes a desempenhar como seja tratar de Boris! Eles não são bolas de pingue pongue!!!

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