Depois da “diplomacia da vacina”, crise sanitária na Índia deixa África sem doses

Monirul BHUIYAN / AFP

As vacinas da AstraZeneca que chegavam às campanhas de imunização africanas eram provenientes da Índia. Com o disparar da crise sanitária neste país, as exportações estagnaram.

A partir do final de fevereiro, começaram a chegar aos países de baixos e médios rendimentos as primeiras vacinas contra a covid-19 através da iniciativa Covax, lançada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e outros parceiros.

No caso de África, o fornecimento parou depois de o Governo indiano ter imposto limites à exportação de vacinas, devido ao agravamento da sua situação pandémica.

“O início das campanhas de vacinação em África estava ancorado na entrega de vacinas [da AstraZeneca] fabricadas pelo Serum Institute da Índia”, através da iniciativa Covax, disse à Deutsche Welle Ahmed Ogwell, vice-diretor dos Centros de Controlo e Prevenção das Doenças – África, órgão criado pela União Africana.

Acontece que a empresa, a maior fabricante de vacinas do mundo, não está a conseguir produzir vacinas suficientes para o mercado indiano. Na sequência deste problema, o Governo de Nova Deli impôs restrições às exportações, escreve o Público.

Ogwell revelou que mais de 20 países africanos que receberam a vacina da AstraZeneca “estão neste momento afetados, porque não têm como conseguir a segunda dose“. Até ao fim de junho, a Covax precisa de arranjar 20 milhões de doses para cobrir esta falta – daí o apelo lançado pela OMS para obter doações financeiras e de vacinas.

O Nepal, por exemplo, precisa urgentemente de 1,6 milhões de doses da AstraZeneca para administrar segundas doses. O primeiro-ministro, Sharma Oli, fez um apelo para que doadores estrangeiros façam chegar vacinas e medicamentos para doentes em cuidados intensivos, de modo a evitar o colapso do sistema de saúde nepalês.

Com 3,45 milhões de casos, a Índia registou 357.229 novas infeções nas últimas 24 horas. O número de mortes subiu em 3.449, para um total de 222.408, segundo os números oficiais citados pela Reuters.

Depois de ter começado a vacinar a população em 16 de janeiro, a Índia usou a sua capacidade de fabrico para doar vacinas aos vizinhos, numa iniciativa conhecida como “diplomacia da vacina“, uma forma de intensificar relações com as nações vizinhas do sul da Ásia.

Parece, no entanto, que a doação de milhares de doses a algumas nações, numa espécie de jogo geoestratégico, chegou ao fim.

China salienta apoio à Índia após publicação polémica

As autoridades chinesas salientaram nos últimos dias o apoio prestado à Índia no combate à nova vaga da pandemia de covid-19, depois de uma publicação polémica sobre a mesma numa conta oficial do Partido Comunista Chinês (PCC) na rede social Weibo.

A publicação, na conta da Comissão Central Política e de Assuntos Jurídicos do PCC no Weibo, consistia numa comparação entre duas imagens – um lançamento espacial chinês, ao lado de uma fogueira de cremação de vítimas de covid-19 na Índia – ambas com a legenda depreciativa “a China a acender um fogo versus a Índia a acender um fogo”.

O embaixador da China na Índia, Sun Weidong, disse a órgãos de comunicação social estatais chineses que Pequim enviou mais de cinco mil ventiladores e 21.569 geradores de oxigénio ao longo dos últimos meses.

“Tanto quanto sei, as empresas chinesas estão a acelerar a produção de pelo menos 40 mil geradores de oxigénio, em encomendas feitas pelo lado indiano, e estão a trabalhar incessantemente para as entregar o quanto antes”, disse o diplomata.

“Muitas empresas e organizações privadas chinesas estão a usar os próprios canais para providenciar” diferentes tipos de auxílio à Índia, adiantou.

A publicação foi removida depois de alguns utilizadores da rede social se terem queixado do teor inapropriado, face à grave situação vivida na Índia.

Liliana Malainho, ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Por que razão a Índia é o maior fabricante de vacinas e os miseráveis indianos não têm acesso a elas? Simplesmente exploração, quer dos seus governantes, quer dos empresários internacionais que debaixo do capote globalização se transferem para este e outros países em igualdade de miséria para fabricarem barato e venderem caro nos países de onde nunca deveriam ter saído, culpa de políticos irresponsáveis!

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