Atrasos nos inquéritos e falta de rastreadores põem em causa testagem em massa

Massimo Percossi / EPA

Continuam a faltar rastreadores para recuperar o atraso dos inquéritos epidemiológicos. Na semana passada, ainda havia 4244 por concluir.

Na semana passada, a estratégia em Portugal voltou a ser “testar, testar, testar”, mas com os atrasos nos inquéritos epidemiológicos – havia ainda 4244 por concluir – e a contínua falta de rastreadores essa é uma tarefa difícil.

Em declarações ao jornal online Observador, vários especialistas alertaram que estes inquéritos, que devem ser feitos em menos de 24 horas, são cruciais para travar as cadeias de transmissão do novo coronavírus.

É o caso do infeciologista António Diniz, para quem é “evidente” que, a partir do momento em que se aumenta a testagem, é também preciso aumentar o número de rastreadores.

“Quando se diz que se vai fazer uma coisa – que é, a meu ver bem, aumentar a capacidade de testagem – tem de haver a avaliação dos meios para aplicar essa medida. Senão, por melhor que sejam as intenções e que o texto seja o mais correto e que esteja escrito, se não houver meios para implementar é igual”, declarou.

“Para atingir o objetivo, que me parece bondoso, para aumentar a capacidade de testagem e a realização de inquéritos epidemiológicos, são necessários também meios físicos, além das pessoas formadas”, acrescentou.

Ricardo Mexia, da Associação de Médicos de Saúde Pública, disse que esta é uma questão na qual já anda a batalhar “há muito tempo”.

É preciso recrutar pessoas, treiná-las e dar-lhes as ferramentas necessárias. Até o podem fazer em teletrabalho, como aliás uma boa parte está a fazê-lo. Tem de se alocar os recursos necessários”, apelou.

Em resposta ao mesmo jornal digital, o Governo afirmou que está a fazer de tudo para reforçar os recursos humanos nesta área.

“Mobilizaram-se funcionários da administração pública, professores sem componente letiva, funcionários das autarquias locais, médicos internos de formação geral e específica, médicos aposentados e outros identificados pela Ordem dos Médicos, enfermeiros aposentados, enfermeiros, técnicos de saúde, profissionais de saúde de outras unidades dos ACES, estudantes dos cursos de enfermagem e medicina, agentes da proteção civil, elementos das forças de segurança e elementos das forças armadas.”

Segundo o Observador, no início deste mês, havia 1121 rastreadores, mais do dobro do que em dezembro passado (427). Porém, este é um número que continua a ser insuficiente. Um relatório da Universidade Johns Hopkins estima que são necessários 30 rastreadores por cada 100 mil habitantes, ou seja, para o nosso país seriam precisos três mil, um número bem distante da realidade atual.

É “urgente” haver resposta organizada para travar danos

Em comunicado enviado à agência Lusa, Miguel Guimarães e o Gabinete de Crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos sublinham que os quase 20 mil óbitos em janeiro “refletem o profundo impacto na resposta assistencial aos cidadãos residentes em Portugal que a gestão da pandemia está a ter e, em particular, nos doentes não-covid“.

Neste contexto, alertam que “é urgente uma resposta organizada e coordenada das estruturas de saúde que assegure uma progressiva e rápida normalização do atendimento assistencial global, para travar o impacto da pandemia em vários indicadores de saúde, nomeadamente na diminuição da esperança média de vida nas idades mais avançadas”.

Quanto ao combate à covid-19, o caminho a seguir, aponta aquela Ordem, passa agora por “monitorizar a eficácia do confinamento a nível regional (NUTS II) com acompanhamento permanente” de vários indicadores.

“A incidência de novos casos por 100 mil habitantes a 14 dias e respetiva tendência, o RT [índice de transmissibilidade] local, a taxa de positividade dos testes de diagnóstico, o atraso na realização dos inquéritos epidemiológicos e a percentagem de cobertura vacinal” dos profissionais de saúde e da população com 80 ou mais anos”, enumera.

A Ordem dos Médicos assinala ser “determinante criar condições para a efetiva operacionalização quer da vigilância epidemiológica, quer da testagem precoce e imediata de todos os contactos de alto risco”, salientando que desde julho defendia aquela vigilância, mas que “só agora é obrigatória, a par da indispensável vigilância laboratorial da circulação de novas variantes”.

Miguel Guimarães e o Gabinete de Crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos “reiteram que o combate à pandemia é ganho na comunidade”, deixando um outro alerta. “Para esmagarmos a onda pandémica é essencial o envolvimento e a adesão da população às medidas de prevenção, bem como a manutenção do confinamento até que a evolução favorável e sustentada dos indicadores epidemiológicos permita a sua reversão”, dizem.

Portugal é o país mais mortal da UE (e 2.º do mundo)

Segundo o Diário de Notícias, que cita a base de dados Our World In Data, no ratio de novas mortes diárias por milhão de habitantes, Portugal é o segundo país da lista (13,53), só ficando atrás do Peru por algumas décimas (13,59).

Assim sendo, na União Europeia, o nosso país é o primeiro da tabela. O valor de 13,53 novos mortos diários por milhão de habitantes é quase o dobro do número da República Checa, que ocupa o segundo lugar com 7,94.

De acordo com o DN, a situação é mais favorável quando se trata do número de novos infetados diários por milhão de habitantes: Portugal ocupa a 24.ª posição mundial (164,46) e fica em oitavo na UE.

Portugal registou, esta terça-feira, mais 111 óbitos e 1502 novos casos de infeção pelo novo coronavírus, segundo o boletim epidemiológico da Direção-Geral da Saúde (DGS).

A pandemia de covid-19 já fez pelo menos 2.408.243 mortes em todo o mundo e infetou mais de 109.074.730 pessoas, segundo o balanço diário feito pela AFP.

ZAP // Lusa

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