Afinal, mudança do Infarmed “foi uma intenção, não uma decisão”

Universidade Lusíada de Lisboa / Flickr

Maria do Céu Machado, presidente do Infarmed

A presidente do Infarmed afirma que o ministro da Saúde lhe terá dito que a  mudança do Infarmed para o Porto se tratava apenas de uma intenção. Maria do Céu Machado garante que a passagem da sede para o Porto significará a perda de muitos milhões de euros.

Maria do Céu Machado, presidente do Infarmed, contou ao Público que foi com surpresa que recebeu um telefonema do ministro da saúde, na manhã de dia 21, a dizer que se tinha reunido com o primeiro-ministro e que tinham decidido transferir o Infarmed para o Porto.

“Isto é como todas as notícias de surpresa: até cairmos em nós, há uma fase em que se fica com uma espécie de anestesia, de ‘isto não pode ser verdade’“, conta a presidente.

Nesse dia, foi convocada uma reunião com os dirigentes do Infarmed para as 16h mas, minutos depois do telefonema de Adalberto Campos Fernandes, a informação já tinha sido tornada pública, através dos meios de comunicação.

A reunião foi antecipada e acabaria por durar apenas cinco minutos, com o ministro a pedir para que não lhe fizessem perguntas porque não sabia “responder a nenhuma”.

A presidente do Infarmed explica que no mesmo dia, à noite, voltou a conversar com o ministro da Saúde depois de ter vindo a público a reação negativa dos trabalhadores ao anúncio da transferência e, no dia seguinte, o governante afirmou que se tratava de uma intenção e não de uma decisão.

Maria do Céu Machado conta, em entrevista ao Público, que o ministro da Saúde “disse que percebia, de certa forma, que isto era uma notícia surpresa e que não era uma decisão, era uma intenção. Várias vezes repetiu isso“, garante a responsável que afirma nunca ter sido consultada sobre uma eventual mudança para o Porto.

Confio que seja uma intenção e não uma decisão e que haja uma avaliação de impacto financeiro, social, relativo à atividade nacional e internacional e à saúde pública”, afirma a presidente do Infarmed.

Até esta altura, Maria do Céu apenas tinha ouvido dizer que Adalberto Campos Fernandes tinha perguntado num almoço: “E se o Infarmed fosse para o Porto?“, interpretando a pergunta como uma brincadeira.

Se o Infarmed perder 70% dos seus trabalhadores, Maria do Céu Machado garante que o regulador vai perder milhões, dado que não vai poder garantir a qualidade do trabalho que faz nas áreas dos medicamentos, dispositivos médicos e cosméticos.

“Na semana passada estive na Agência Europeia do Medicamento, numa reunião em que estiveram presentes representantes de diversos países para negociar os processos centralizados de avaliação de medicamentos que estão no Reino Unido e que todos os países querem porque representam prestígio e milhões. Comprometi-me a assumir mais 20% de processos. Serão mais de 10 milhões de euros“, menciona.

Ainda sobre o assunto, Maria do Céu diz que o Infarmed já teve o sinal da EMA de que não poderão dar-lhe os processo que foram combinados caso o regulador português esteja numa fase de transição nas mesma altura em que eles estão.

Sobre a possibilidade da haver apenas a transferência de uma parte da Autoridade Nacional para o Medicamento, a responsável responde que “o Infarmed é coeso e temos uma enorme preocupação na articulação entre serviços. Se pode ir o conselho diretivo? Se for apenas para andar em almoços e jantares, então pode estar em qualquer lado“.

Maria do Céu Machado recorda ainda um inquérito feito aos trabalhadores, na semana passada, em que 82,7 dos funcionários foram taxativos na decisão de não ir para o Porto. Além disso, recorda que o próprio plano estratégico para 2018 do Infarmed, aprovado pela tutela e assinado em setembro, “não faz referência a esta mudança”.

A responsável lembra que “o processo tem de ser liderado pela própria instituição e pelas pessoas que lá trabalham”, mas sublinha que a mudança poderia traduzir-se num problema de “perda de reação imediata para dar resposta a situações de urgência, como ruturas de medicamentos”.

O anúncio da transferência do Infarmed para o Porto foi feito, na semana passada, pelo ministro Adalberto Campos Fernandes, um dia depois de se saber que o Porto não conseguiu vencer a candidatura para receber a sede da Agência Europeia do Medicamento.

O Infarmed conta com 350 trabalhadores e mais cerca de 100 colaboradores externos, que incluem especialistas. “Acho que o Governo e o ministro, tendo consciência destas condições, tomarão a atitude mais correta“, conclui Maria do Céu Machado.

ZAP //

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8 COMENTÁRIOS

  1. Geringonça ao seu mais alto nível!
    para estes tipos (tipas) existe um dito popular ” não F. nem saem de sima” ou dito de outra forma não fazem nem deixam fazer.

  2. Não se preocupem… Os tugas vão pagar mais uns €€€€ em cartões de compras do continente ou do pingo doce para o governo fazer um estudo de mercado.
    Se o tuga for contra o governo revoga a decisão. Se for a favor o governo mantém a decisão e quem paga os seus custos, para além dos trabalhadores, é o conjunto dos tugas com o dinheiro dos seus impostos.

  3. Isto começa-se a parecer com a história de Tancos em que o material era obsoleto… depois nem tinha sido roubado nada (no limite) e no final sempre apareceu tudo mais uma caixa…
    O que vai aparecer a mais neste caso?

  4. Pronto. Podem os trabalhadores do Infarmed estar descansados que já não vão para o Porto. Primeiro estava tudo decidido há muito tempo. Como o costa começou a ver o rabo a arder, agora já era só um intenção. Não há palavras para esta corja!!!

  5. Que grande palhaçada. Este governo na ânsia de agradar a todos (o que é impossível) começa a fazer disparates. Os partidos da esquerda na ânsia de estarem no governo começam a pactuar com ele. Então? estão a defender Portugal os começamos outra vez com interesses partidários e pessoais. Já chega de amigos especiais e de mãos largas.

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