“Tempestade perfeita” ajuda a explicar “descontrole” nos preços da luz (mas as eléctricas deixam uma promessa)

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Os preços da electricidade no mercado de energia atingiram, neste mês de Setembro, um valor recorde e estão “completamente descontrolados” numa altura em que se formou o que os especialistas dizem ser uma “tempestade perfeita”. Mas as eléctricas prometem manter os preços do consumidor até ao fim do ano. No próximo, deve haver aumentos para todos.

Em Outubro, vai registar-se um aumento dos preços da luz no mercado regulado, afectando cerca de 933 mil famílias. Mas EDP, Galp, Endesa e Iberdrola devem manter os preços no mercado livre, pelo menos, até ao fim deste ano, conforme garantiram fontes das empresas eléctricas ao Diário de Notícias (DN).

É uma boa notícia para os 5,4 milhões de clientes destas eléctricas que representam 93,3% dos clientes no mercado livre.

Contudo, há informações divergentes, neste âmbito, uma vez que fontes da Endesa e da Iberdrola admitem, em declarações ao Eco, que os preços podem subir em Portugal.

Mas, qualquer que seja o cenário para este ano, em 2022, deve haver um novo aumento para todos os consumidores.

“A manter-se este cenário de elevada pressão nos preços grossistas, teremos de reflectir, na menor medida possível, ajustes mediante uma revisão de valores“, revela uma fonte da Iberdrola ao DN,  notando que “seria desejável” que o Governo baixasse os impostos para ir “ao encontro das necessidades dos consumidores”.

Em Agosto passado, o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, assegurou que Portugal tem “muitas almofadas” para “inibir o aumento do preço da electricidade” aos consumidores.

Já no início deste mês de Setembro, o secretário de Estado da Energia, João Galamba, garantiu que não haverá “subidas significativas” do preço da electricidade para os consumidores domésticos.

O que explica a subida dos preços da luz

Neste mês, os preços da electricidade no mercado grossista da Península Ibérica bateram recordes num cenário em que se formou uma “tempestade perfeita”, conforme salientam especialistas ouvidos pelo El País e pela TSF.

O jornal espanhol dá conta de uma subida de 19 euros em apenas 24 horas no preço do megawatt/hora ((MWh), apontando que, em termos de variação diária, registou-se, a 31 de Janeiro deste ano, um mínimo de 89 cêntimos e, a 15 de Setembro, um máximo de 172 euros. Mas o que explica esta subida drástica?

Os preços do gás em alta, aliados à falta de vento e de chuva, o que reduz a produção das energias renováveis, são parte da explicação. Mas também é preciso acrescentar a esta “tempestado perfeita” o facto de a procura por electricidade estar a aumentar, com a recuperação económica da crise pandémica.

“Os preços do gás natural estão em alta por tensões geopolíticas [da União Europeia com a Rússia] e os stocks estão baixos desde o último Inverno, algo que se prolongou e que começa a ser pernicioso”, explica o economista Pedro Silva, analista do sector da energia na Deco Proteste, em declarações à TSF.

“A quebra de produção das renováveis ao longo deste Verão que vivemos tem obrigado a chamar fontes não renováveis [como o carvão e o gás natural] para a produção de electricidade, fontes essas que têm preços mais altos e que suportam, também, a necessidade de adquirir os chamados títulos de carbono” criados para descarbonizar progressivamente a União Europeia (UE), aponta ainda Pedro Silva.

“Uma baixa produção das renováveis e um incremento das não renováveis na produção de electricidade fez disparar os preços” de “uma maneira que se queria controlada e que se afigura, agora, como completamente descontrolada face aos preços de quase 200 euros por megawatt que se estão a praticar”, constata o economista.

“Em regra geral, quanto mais renováveis se utilizam, mais barata é a energia“, nota ainda Pedro Silva na TSF, reforçando que era isso que acontecia em Janeiro, quando “quase 50% da electricidade tinha como origem a energia eólica“.

Como são definidos os preços da electricidade

Os preços da electricidade no mercado ibérico de venda de energia são “encerrados num leilão cego“, como esclarece o El País. Assim, os produtores de energia indicam quanta luz vendem e a que preço. Já as operadoras dizem quanto querem e quanto podem pagar.

Com base nisso, o Operador Ibérico do Mercado de Energia (OMIE) fixa um valor para o dia seguinte utilizando o que o El País define como o “método marginalista”, ou seja, é “a última energia a entrar no sistema” que “define o preço de todas as fontes, independentemente de elas poderem gerar electricidade a um preço mais barato”.

Deste modo, a 15 de Setembro, o dia mais caro do ano, a energia distribuiu-se da seguinte forma, em termos de origem: nuclear (25%), co-geração (15,8%), ciclo combinado (14,5%), hidráulica (13,2%), carvão (7,4%), eólica (6,1%) e solar (0,75%), segundo dados do OMIE citados pelo El País.

Já em Janeiro, a energia de fonte eólica era a dominante, com um peso de 48,13%, sendo 15,5% de co-geração, 14,85%, hidráulica, 13,71%, nuclear, 7,63%, fotovoltaica, e 0,23%, solar, ainda de acordo com o OMIE. E, nessa altura, nem foi necessário recorrer ao gás e ao carvão.

“Cada euro que sobe o gás, equivale a 2 na luz”

Enquanto isso, os preços do gás no mercado ibérico (MibGas) continuam em alta, tendo atingido, nesta quarta-feira, os 63,72 euros por MWh, quase o dobro da tarifa de Janeiro, segundo as contas do El País.

E “cada euro que sobe o gás, equivale a praticamente dois [euros] nos preços da luz”, explica ao jornal espanhol o director da eléctrica Próxima Energía, Jorge Morales.

Este responsável realça ainda que as reservas da Europa estão “em mínimos” históricos para esta época do ano.

A escassez de oferta está também relacionada com o facto de Putin estar a fechar a torneira russa, enquanto a China está a precisar de uma grande quantidade de gás.

Perante este cenário, os consumidores não devem esperar uma descida nos preços a curto prazo. Um possível alívio pode só chegar na Primavera de 2022.

Eléctricas deixam ameaça ao Governo espanhol

Em Espanha, o Governo anunciou um “plano de choque” para reduzir em 22% os preços na factura dos consumidores de luz, mas as eléctricas já ameaçaram deixar de produzir energia nuclear, caso as medidas avancem.

Fontes consultadas pelo El País notam que as empresas de energia, entre as quais se integram a EDP, a Iberdrola e a Endesa, entre outras, podem recorrer à via judicial contra as medidas do Governo espanhol.

As eléctricas alegam que “as medidas dirigidas a intervir nos mercados vão contra a sua eficiência, a ortodoxia europeia e criam um clima de insegurança jurídica“, como cita o El País.

O Foro Nuclear, a entidade que reúne as grandes eléctricas que actuam em Espanha, incluindo a portuguesa EDP, alerta também que se se aprovar a retirada dos chamados “benefícios caídos do céu”, em que as empresas recebem por não emitir dióxido de carbono, “será impossível a continuidade das centrais nucleares espanholas”, conforme transcreve o mesmo jornal.

Neste braço-de-ferro, o primeiro-ministro Pedro Sánchez já prometeu que o seu Governo vai “defender sempre o interesse dos cidadãos acima de qualquer pressão ou interesse particular”.

  Susana Valente, ZAP //

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12 COMENTÁRIOS

  1. Estão sempre a publicitar que cada vez há mais formas de obter energia e mesmo assim o preço aumenta. Agora temos a energia eólica, solar, das marés e outras e mesmo assim fica mais cara? Afinal não estamos a produzir mais? Por isso não deveria ser mais barata? É preciso o regulador fazer alguma coisa, senão vai ser uma anarquia de preços.

  2. Mais um vez, o “mercado” a funcionar dá estas “prendas” ao consumidor…
    Há barragens “paradas” que podiam produzir electricidade sem dependência do gás… a dependência do gás (etc) de fora da UE dá nisto.

    • O problema é que aqui o mercado não funciona. Há um elemento fulcral que distorce tudo. Chama-se Estado. Tal como nos combustíveis, o Estado a promover todo o tipo de distorções. No ambiente tem havido grandes negócios. Estou convicto que um dia iremos ver muitos responsáveis atuais no banco dos réus.

      • Ai onde? O Estado promove o quê?
        Não sei se percebeste que neste caso eu me referia a Mibel (Mercado Ibérico de Electricidade) e, em Espanha, a eletricidade para os consumidores ainda é mais cara do que em Portugal.
        E, Portugal e Espanha o mercado da energia é liberalizado e o Estado não é tido nem achado na formação dos preços!
        É o mercado quem forma e quem “distorce” os preços!!

  3. A verdadeira tempestade foi terem privatizado as eléctricas sem acautelarem uma verdadeira concorrência somando a isso a pressão dos governos no aumento do consumo de electricidade nos transportes sobre a bandeira do aquecimento global no entanto essa produção de energia depende fortemente de gaz. Temo que o aumento da electricidade irá ser bem maior quando os governos começarem a receber menos receita das taxas sobre os combustíveis.

    • Não tenha qualquer dúvida disso, muitos acreditam ainda no Pai Natal. Querem ter carros eléctricos e tal, preparem a carteira que o governo não vai tirar dum lado vai a outro. Continuem na economia verde e essas tretas e vão ter o que merecem, devem pensar que as renováveis resolvem o problema. Aliás, este Verão viu-se bastou uma falha no transporte de energia em França para PI e ficou quase tudo às escuras.

  4. Em 19 de Maio foram instalados 41 paineis solares, pela EDP, no prédio onde habito, e neste momento estão 41 mamarrachos que não têm utilidade nenhuma porque DGE tem de aprovar esta instalação. Quando fomos contactados para a instalação a aprovação era uma coisa de 1 a 2 semanas, e afinal ainda vamos ter de esperar (ultima informação) pelo menos mais 3 meses, quando chegar o inverno (dias curtos e sem sol) é que vão por aquilo a funcionar. Mais uma critica, fomos informados que havia necessidade de proceder à troca do contador do condomínio mas que seriamos avisados para não só acompanhar a alteração assim como confirmar a realização do serviço, o que aconteceu foi que um dia apareceu uma pessoa que deve ter ido para a porta da garagem (não tem campainha) e não conseguiu aceder ao contador tendo ido embora sem tocar a nenhuma campainha, pois estão SEMPRE pessoas no prédio tendo com esta visita cobrado uma importância que se recusam a devolver, devido as nossas reclamações agendaram uma nova vinda , para um dia, mas na VÉSPERA durante a tarde apareceu um técnico da E/Redes para proceder à troca do contador.

  5. O sr Sócrates ex primeiro ministro negócio mal mas negócio as rendas e o mercado da energia em Portugal… A troika impôs mudanças e regras mas algo que nem passos Coelho conseguiu alterar… Agora temos a tempestade perfeita, o mercado a criar uma bolha especulativa na eletricidade em que se vem juntar a uma má gestão energética em Portugal…. Para o próximo ano os portugueses vão ter muitos maus gostos de boca…com os impostos a aumentar, com a inflação a aumentar os salários vão tornar se pequenos para tudo o resto…. E diz o governo que nunca teve tão bem

    • Então não conseguiu alterar?
      O Passos, além de entregar a EDP, REN, barragens, etc aos chineses por “trocos” (bom negócio segundo o Catroga!), ainda fez a proeza de alterar o IVA da electricidade para 23%.
      Já para não falar das promessas do Durão:
      “CRIAÇÃO DO MERCADO IBÉRICO DE ENERGIA
      Mibel: Durão Barroso promete redução dos preços da electricidade”
      20 de Janeiro de 2004

  6. A energia deveria estar muito mais barata do que aquilo que estava vindo de fontes renováveis mas os carteis da energia não podiam deixar tal situação acontecer, juntem isso aos impostos desmesurados em portugal e aí sim criou-se a tempestade perfeita!

  7. O preço da electricidade está como está, devido ao interesse ganancioso de alguns que se julgam todos poderosos. Enquanto esta cambada de intocáveis, convencidos de que são imortais, estiver à frente da gestão dos bens públicos. Nada se pode esperar de bom.

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