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Síndrome de Havana. Relatório revela que EUA não levaram a sério lesões cerebrais de diplomatas em Cuba

Rolando Pujol / EPA

Um relatório desclassificado sobre os misteriosos sintomas sentidos por diplomatas em Cuba revela que a resposta inicial do Governo dos Estados Unidos foi insuficiente.

No fim de 2016, depois de serem surpreendidos por um ruídos agudos e persistentes, vários diplomatas norte-americanos que serviam na Embaixada de Cuba adoeceram, apresentando sintomas que incluíam dores de cabeça, dores de ouvidos, vertigens, náuseas e perda auditiva.

Segundo um relatório anteriormente classificado, que foi concluído em junho de 2018, o Departamento de Estado respondeu mal aos misteriosos incidentes de saúde que afetaram os diplomatas dos Estados Unidos em Cuba, escreve a ABC.

O staff dos Estados Unidos tem lutado contra o Governo para pedir maior apoio, inclusive para os problemas de saúde persistentes que muitos sofrem sob o que ficou conhecido como a “síndrome de Havana”. Os médicos descobriram que os americanos sofreram lesões cerebrais traumáticas, com sintomas que vão desde dores de cabeça e problemas de visão a défices cognitivos e tonturas.

O relatório interno é altamente crítico da resposta da administração Trump. “A resposta do Departamento de Estado a esses incidentes foi caracterizada pela falta de liderança sénior, comunicação ineficaz e desorganização sistémica“, concluiu o relatório.

O relatório também revelou novos detalhes sobre como Washington lidou com a questão e o que viu do ponto de vista médico ao examinar os pacientes. Ao todo, documentou lesões cerebrais em 24 pessoas. Esse número não inclui os 14 canadianos que também sofreram da Síndrome de Havana.

“Os indivíduos afetados tinham combinações variadas de disfunção cognitiva, vestibular e oculomotora, bem como distúrbios do sono e dor de cabeça”, lê-se no relatório. “Estes indivíduos parecem ter sofrido lesões em redes cerebrais generalizadas com uma história associada de trauma na cabeça”.

De acordo com o relatório, o Departamento de Estado esperou seis semanas depois de tomar conhecimento do incidente para informar os funcionários da Embaixada e não contou às suas famílias. “O Conselho considera lamentável o atraso de quase seis semanas entre o primeiro conhecimento da lesão e o primeiro briefing do pessoal da Embaixada”.

Como resultado dos ataques, o Canadá retirou os seus diplomatas de Cuba e os Estados Unidos encerraram as operações da CIA na área e, desde então, administram a embaixada com uma equipa reduzida.

“A decisão de reduzir a equipa em Havana não parece ter seguido os procedimentos padrão do Departamento de Estado e não foi precedida nem seguida por qualquer análise formal dos riscos e benefícios da presença contínua de médicos de funcionários do governo dos EUA em Havana”, lê-se no documento.

O relatório inclui um incidente semelhante que ocorreu na China em maio de 2018. “Há um relato clinicamente confirmado sobre um funcionário do Consulado de Guangzhou que descreveu incidentes em Guangzhou, China, semelhantes aos vividos por membros da comunidade da Embaixada de Havana e cujos ferimentos foram confirmados por especialistas médicos para igualar os das vítimas de Havana”.

Até hoje, a Síndrome de Havana ainda é um mistério. “Não sabemos o que aconteceu, quando aconteceu, quem foi ou por quê”, refere o relatório.

Um mistério por resolver

Desde que os diplomatas norte-americanos em Havana começaram a relatar sons estranhos que ouviam nas suas casas, surgiram já várias teorias sobre o que terá acontecido. Há a versão do “ataque sónico”, dos grilos e até de uma histeria coletiva.

Devido ao incidente, Washington reduziu o quadro de funcionários diplomáticos em mais de 50% e acusou as autoridades de Cuba de levarem a cabo “ataques sónicos. Esta acusação tem sido questionada por vários especialistas que defendem que ainda ninguém foi capaz de criar estas armas ultrassónicas. Cuba sempre rejeitou esta hipótese.

Em janeiro de 2019, uma equipa de cientistas da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, e da Universidade de Lincoln, no Reino Unido, apontou que o fenómeno possa ter sido produzido por um chilrear de grilos.

De acordo com o estudo, os ruídos pertenciam ao grilo de cauda curta (Anurogryllus celerinictus), um inseto muito famoso pelos seus grunhidos durante o acasalamento. Contudo, o estudo foi também questionado, havendo cientistas a afirmar que o som do inseto por si só não era capaz de causar tais sintomas.

Outros especialistas há que defendem a possibilidade de os diplomatas terem sofrido um fenómeno de histeria coletiva.

Um estudo realizado por cientistas canadianos do Brain Repair Center do Universidade Dalhousie e do Departamento de Saúde da Nova Scotia em 2019 apontava que os culpados poderiam ser produtos químicos usados no combate aos insetos.

Em dezembro passado, o relatório de um comité da Academia Nacional das Ciências norte-americana sugeriu que os sintomas misteriosos poderiam estar relacionados com exposição direta a radiação “micro-ondas”.

  Maria Campos, ZAP //

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