Milhares fugiram da Venezuela. Pandemia obrigou-os a voltar (mas não é assim tão fácil)

Gabriela Moscardini / EPA

Desde 2016, quase cinco milhões de venezuelanos deixaram o país, fugindo da pobreza e dos serviços sociais e de saúde em colapso. Agora, a pandemia de covid-19 forçou-os a regressar à Venezuela – se o Governo permitir.

Entrar na Venezuela em tempo de coronavírus não é tarefa fácil. O presidente Nicolas Maduro afirmou que os migrantes que regressam podem estar deliberadamente infetados por outros países, a fim de espalhar o vírus na Venezuela. Por isso, o Governo limitou o número de venezuelanos autorizados a entrar no próprio país a aproximadamente 1.000 por semana.

Segundo as autoridades venezuelanas, pelo menos 56 mil venezuelanos regressaram entre março e meados de junho. As autoridades colombianas que controlam as fronteira acreditam que pelo menos 60 mil migrantes venezuelanos voltaram ao país através da cidade colombiana de Cucuta desde março.

Cucuta, onde três pontes cruzam a fronteira Colômbia-Venezuela, é o principal ponto de trânsito. “É como uma ampulheta gigante. Nos últimos cinco anos, vimos mais de três milhões de venezuelanos por aqui, todos à procura de uma saída e melhores oportunidades”, disse Victor Bautista, secretário de Migração do Departamento Norte de Santander da Colômbia, em declarações à CNN. “E agora virou para a Venezuela.”

Em países com populações significativas de imigrantes venezuelanos, como Argentina, Chile, Peru, Equador e Colômbia, a maioria trabalha na economia informal, sem apoio social. Muitos perderam o emprego e, sem salário para pagar a renda, decidiram voltar à Venezuela.

Os campos improvisados, onde as pessoas esperam a sua vez para atravessar a fronteira, não permitem distanciamento social. Não há casas-de-banho nem água e maior acampamento consiste em abrigos feitos de papelão e sacos de lixo pretos.

As autoridades colombianas não sabem quantas pessoas vivem no campos. Sempre que um grupo sai, novos migrantes tomam o seu lugar.

De acordo com a CNN, que falou com um trabalhador humanitário internacional, os migrantes venezuelanos que não construíram redes de apoio num novo país adotado são os mais propensos a voltar para a Venezuela.

Para travar a propagação do vírus, a maioria dos migrantes que querem entrar na Venezuela recebem um pulseira com um código de cores pelas autoridades colombianas quando chegam a Cucuta.

Todos os dias, um grupo embarca num autocarro, que o leva a uma instalação de triagem, onde é isolado e testado. A temperatura de cada migrante é testada várias vezes por dia. Se alguém apresentar febre, é realizado um teste de reação em cadeia da polimerase (PCR).

Sem febre ou um teste de PCR negativo, os migrantes podem atravessar a fronteira, desde que as autoridades venezuelanas o aprovem. Este acordo entre os dois países é informal. Nenhum Governo reconhece o outro e, em teoria, a fronteira está fechada.

A vida depois de passar a fronteira

Na Venezuela, 96% da população vive abaixo da linha da pobreza. A maioria dos hospitais carece de água corrente durantes dias seguidos, médicos e pacientes não podem receber os medicamentos que precisam e milhares de profissionais de saúde deixaram o país em busca de melhores oportunidades no exterior.

Quando chegam à Venezuela, os migrantes devem isolar-se durante 12 dias antes de poderam viajar para casa. O Governo de Maduro criou centros de isolamento em cidades próximas à fronteira, onde os migrantes precisam de ficar.

Apenas 350 venezuelanos têm permissão para regressar ao país às segundas, quartas e sextas-feiras, totalizando um número oficial de 1050 por semana – número que reflete a capacidade limitada da Venezuela de colocar cidadãos em quarentena à chegada.

No entanto, segundo a CNN, muitos imigrantes cruzam a fronteira na terça-feira e, às vezes, a fronteira é reaberta.

O governo de Maduro afirmou que os direitos dos cidadãos de entrar no seu próprio país são respeitados e que o ritmo lento de admissão é necessário para proteger o resto da população do vírus.

Até agora, a Venezuela registrou muito menos casos do que outros países da região. No entanto, observadores internacionais questionaram a capacidade da Venezuela de testar o vírus, dizendo que o número real de infecções por coronavírus poderia ser muito maior.

No lado colombiano, as autoridades estão preocupadas com a hora em que a “ampulheta” virar novamente, altura em que as dificuldades na Venezuela obrigarão os migrantes a sair novamente.

ZAP //

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7 COMENTÁRIOS

  1. Isto é algo difícil de entender.
    São nacionais da Venezuela.
    São católicos e prestam boa atenção à missa.
    Recebem ordem de marcha amarela e roxa.
    Em vez de postura positiva com a construção do seu país, fogem sem razão aparente.
    A prova é que voltam.
    Foram enganados pelos cleros que ainda querem fazer politica, como faziam dantes.
    Não tinham vergonha nenhuma de utilizar estes inocentes como remessa contra os seus inimigos mortais: Os que não querem misericórdia nem almoço, mas direitos de uma vida digna para todos e não só para fieis

  2. Os venezuelanos depois de vítimas do comunismo, são agora também vítimas do vírus que afecta todo o mundo, mas este coitados vivem entre dois infernos. O Maduro protegido por uma claque de militares de alta patente e sem escrúpulos, certamente bem pagos e a viver à custa da miséria do seu povo, mantêm este tipo de escravatura, uma vergonha!

    • Para além, de como são um povo errante e numeroso, são muitas vezes explorado, roubado e escravizado por onde passam.

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