Medicina intensiva quase no limite. Mas descarta-se para já mais ajuda externa

António Cotrim / Lusa

A ministra da Saúde, Marta Temido

O presidente da Comissão de Resposta em Medicina Intensiva para a covid-19 alertou, esta segunda-feira, que o país está “muito perto” do limite de camas de cuidados intensivos e que faltam enfermeiros, mas descarta para já mais ajuda internacional.

Estamos muito perto do total da expansão da Medicina Intensiva. Nós conseguimos expandir 200 camas, ainda existem mais camas que podemos expandir, mas já estamos praticamente (no limite) em todos os blocos operatórios, em todos os recobros, em quase todos os hospitais. Portanto, a capacidade já é diminuta e não só por espaço, mas sobretudo por recursos humanos, e os recursos humanos que nos fazem falta são intensivistas e principalmente enfermagem”, disse João Gouveia, durante uma conferencia de imprensa no Hospital da Luz, em Lisboa, com a presença da equipa militar alemã que começou a trabalhar naquele hospital.

De acordo com o responsável pela Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva para a covid-19, há neste momento cerca 1.250 camas no Serviço Nacional de Saúde, mais as do privado, e todos os dias se conseguem “acrescentar mais algumas”.

Mas João Gouveia avisa que só se poderá respirar de alívio quando os blocos operatórios e os recobros estiverem desocupados, quando houver menos de três mil casos diários às quartas e quintas-feiras durante duas ou três semanas seguidas, menos de 270 doentes internados em medicina intensiva e os profissionais de saúde a trabalhar normalmente.

Apesar disso, o responsável afirmou estar convencido de que, com a resposta que se conseguiu montar, não vai ser necessário enviar doentes para o estrangeiro.

“Acho que é um esforço gigantesco do sistema de saúde português público e privado para aumentar a capacidade de resposta e com isso espero não ser necessário recorrer a essas ajudas”, frisou, admitindo, no entanto, que todas as ofertas estão a ser estudadas para o caso de virem a ser necessárias.

Os doentes que vão ser tratados pela equipa alemã no Hospital da Luz serão provenientes de hospitais da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, tendo até ao momento sido transferido um doente crítico do Hospital Garcia de Orta, em Almada.

Simultaneamente, há dois que estão a ser avaliados para saber se estão em condições de poder ser transferidos – um do Hospital de Cascais e outro do Hospital do Barreiro – porque nem todos são transportáveis, acrescentou.

Quanto ao tempo que será necessário manter a equipa alemã em Portugal a ajudar, o responsável afirmou que durante a missão de reconhecimento apontou o final de abril como data previsível, mas agora admitiu poder ter-se enganado, já que “os números estão a descer mais depressa”.

Mesmo assim, João Gouveia considera que “pelo menos até meados de abril” a capacidade de medicina intensiva deve estar o mais esticada que for possível. O coronel Jens-Peter Evers, líder da equipa alemã em Portugal afirmou, por sua vez, que “é absolutamente necessário” ficarem “o máximo de tempo possível”.

Falando sobre as condições de trabalho da equipa, o médico-chefe afirmou ter sido uma surpresa, porque foi “perfeito” o que encontraram: “encontrámos as melhores condições, não esperávamos ter tão boas condições, não podia ser melhor”.

Evers faz um balanço muito positivo da estada em Portugal, contando que até a sociedade civil dá mostras da sua simpatia e gratidão, quando lhes acena ou buzina nos carros, ao cruzar-se com eles.

No entanto, sublinha que o objetivo destes médicos e enfermeiros em Portugal é um só, salvar o máximo de vidas possível e ganhar mais experiência.

No Hospital da Luz apenas a equipa alemã é responsável pela Unidade de Cuidados Intensivos, esclareceu o médico alemão, adiantando que podem ter alguma ajuda de profissionais portugueses para fazer tradução ou para auxiliar em exames, por exemplo. “Mas só a equipa alemã é que vai estar a trabalhar dia e noite“, disse.

Questionado sobre que avaliação faz relativamente ao que o Governo português poderá ter feito de errado na condução das políticas de saúde para combater a pandemia, Jens-Peter Evers afirmou ter “a certeza de que não fez nada de mal e que o Governo alemão não fez nada melhor”, que o tratamento é o mesmo e o problema é o vírus.

“Somos amigos europeus, é nossa função ajudar, esta é a forma de eu ver a cooperação”, acrescentou.

Temido prefere manter doentes em Portugal

Esta segunda-feira, a ministra da Saúde também assumiu preferência pelo tratamento dos doentes com covid-19 em Portugal, ao invés de os transferir para outros países que se mostraram disponíveis para ajudar.

“São hipóteses que, obviamente, consideramos com a maior atenção, sendo certo que, por razões de estabilidade do próprio doente e de resposta em saúde junto do meio familiar, preferíamos garantir o tratamento no nosso país e o mais possível junto de casa. É um esforço que continuaremos a tentar fazer”, disse Marta Temido, a propósito das propostas de auxílio que chegaram de Espanha e da Áustria.

Numa conferência de imprensa no Ministério da Saúde, em Lisboa, na qual fez um ponto de situação sobre o plano de vacinação contra a covid-19, após uma reunião, por videoconferência, com a task-force, a governante observou que a posição do ministério segue a visão da Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva para a covid-19 e destacou a aposta no reforço da capacidade instalada do país.

“Iremos procurar garantir primeiro que as respostas sejam ao nível do nosso país. Esperamos que estas duas semanas – que serão ainda semanas de muita pressão sobre os cuidados hospitalares e, sobretudo, os cuidados intensivos – nos permitam manter esta linha de resposta. O que mais nos preocupa é garantir os melhores cuidados aos utentes que deles precisem”, acrescentou.

No entanto, a ministra assegurou que Portugal vai continuar a “trabalhar e a articular com vários países da União Europeia apoios e colaborações no âmbito do mecanismo europeu”, além de “cooperações bilaterais”.

Já sobre a manifestação de disponibilidade de médicos reformados para ajudar como voluntários o Serviço Nacional de Saúde na resposta à pandemia, queixando-se de barreiras administrativas a esse apoio, Marta Temido vincou que “todos os profissionais são bem-vindos”. A governante confirmou a receção da carta subscrita por esses profissionais e anunciou que irá encaminhá-la para os prestadores de saúde.

ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Ajuda externa quando há mil médicos portugueses na reforma que se disponibilizaram para ajudar no combate ao vírus e até hoje foram recusados ou ignorados!

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