Mário Nogueira vai deixar liderança da Fenprof daqui a três anos

Rodrigo Antunes / Lusa

O secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof) acredita que não haverá maioria absoluta nas legislativas, acha que o resultado socialista nas europeias não foi “uma grande vitória” e, avaliando a legislatura, diz que só os professores “tiraram o Governo do sério”.

“Os professores, diria assim, foram os únicos que tiraram o Governo do sério. Às vezes as pessoas podem não se aperceber disso”, disse.

Em entrevista à Lusa, o secretário-geral da Fenprof, que se prepara para ser eleito pela última vez para o cargo, antecipa o congresso de sexta-feira e sábado, em que os professores, reunidos em Lisboa, vão fazer uma avaliação da legislatura e definir os próximos passos de uma luta que ainda não deram por perdida: a contagem integral dos nove anos, quatro meses e dois dias de tempo de serviço congelado.

Os próximos três anos serão os últimos de Mário Nogueira à frente da Fenprof, garantiu o secretário-geral que este fim-de-semana será reeleito neste congresso para o cargo que, garantiu, não será um trampolim para outros voos.

A decisão de se recandidatar chegou a agradecê-la ao PS e ao primeiro-ministro, António Costa, quando no início de maio o Parlamento confirmou a reviravolta na contagem do tempo de serviço dos professores, que chegou a estar dada como garantida na totalidade, depois de a comissão parlamentar de educação ter votado um texto final para aprovação em plenário que assegurava esse objetivo dos docentes.

Recusando falar em vitórias ou derrotas, prefere sublinhar que o volte-face deixou os professores “a meio de um processo”, uma vez que garantem que não vão desistir de lutar pela recuperação integral do tempo de serviço.

Esse meio caminho que falta percorrer pesou na decisão de se recandidatar, assim como o apoio declarado das direções dos sindicatos que integram a federação, e garantiu que a Fenprof não será “trampolim para coisas acima”. “Não quero ser dirigente de nenhum partido, não quero ser dirigente de uma central sindical”, disse. A decisão é a de, depois de terminado o mandato, regressar à escola, sem margem para discussão ou reconsiderações.

“Completamente, isso nem tem discussão, está completamente posto de parte. Eu, saindo daqui o meu espaço será o da minha escola e mais nada, portanto, não tem sequer cabimento ou não tem sequer espaço para reflexão minha em relação a isso. Portanto, estou aqui como professor, a única coisa que é minha profissão é ser professor e é assim que sou sindicalista e dirigente sindical do sector. Depois, quando acabar, o meu mandato é a minha escola, que é ali em frente à minha casa, em Coimbra”, disse.

Pressões do Governo

Mário Nogueira afirmou que só os professores levaram o executivo a colocar a hipótese de demissão, “um Governo que não se demitiu com desgraças que aconteceram ao longo de quatro anos”, mas que admitiu fazê-lo se o tempo de serviço dos docentes fosse todo contado.

O líder sindical enfatizou as pressões do lado do Governo, mas também “os recados” da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) ao longo do processo negocial do tempo de serviço, para afirmar que “o adversário é fortíssimo”. “Não é isso que nos leva a desanimar, pelo contrário, tem é que nos dar mais força. Se o adversário é fortíssimo, vamos lá tomar vitaminas”, disse.

Mário Nogueira entende que o Ministério da Educação é, neste momento, “uma inexistência”, a relação institucional “é praticamente nula” e o ministro da tutela, Tiago Brandão Rodrigues, “foi essencialmente um representante das Finanças na Educação”.

Já em relação ao executivo, o secretário-geral da Fenprof entende que a legislatura serviu para “isolar o Governo” na questão do tempo de serviço, uma vez que todos os partidos se mostraram favoráveis à contagem integral – ainda que depois o parlamento tenha negado esse objetivo – e será já neste congresso que os professores começam a definir a continuidade da luta, que, tendo em conta as últimas sondagens, pode vir a ter os mesmos interlocutores e uma correção de forças diferente no parlamento, com o PS mais próximo da maioria absoluta.

As sondagens são sondagens. Vamos ver. Acho que vai ficar muito longe da maioria absoluta”, considerou Mário Nogueira, que, quando questionado se uma maioria absoluta do PS seria o pior que podia acontecer aos professores, respondeu que “seria sempre mau uma maioria absoluta fosse de quem fosse, do PS ou do PSD”.

O líder da Fenprof entende que, depois de o PS ter colocado as últimas eleições europeias como um momento de avaliação ao Governo, os socialistas não têm muito para celebrar. “Não sei se o PS teve assim uma vitória, porque, para um partido que anseia ter maioria absoluta e acaba com 33%, convenhamos que está um bocadinho longe do seu objetivo”.

O secretário-geral da Fenprof acha que o PS perdeu os professores, mas admite que tenha ganho votos junto da opinião pública, “que achou muito bem o que fez” em relação à contagem do tempo de serviço e que motivou uma ameaça de demissão do executivo.

Já em relação à direita, acha que PSD e CDS-PP perderam a opinião pública ao apoiar as reivindicações dos professores num primeiro momento, e perderam depois os professores ao recuarem, e que foi essa “grande derrota da direita” que deu aos socialistas a vitória que deixou longe o segundo partido mais votado, mas que ficou também longe da maioria absoluta.

As eleições contaram com um protesto sui generis dos professores nas urnas, segundo Mário Nogueira, que se mostrou surpreendido, desde logo por não ter havido campanha ou apelos nesse sentido e porque entende que não é essa “a solução”.

“Surpreendentemente, viemos a saber que nas recentes eleições para o Parlamento Europeu em todo o país há milhares de votos anulados com “nove, quatro, dois”. Em todas as mesas de voto, quase, isso foi assinalado. Há secções de voto onde houve centenas de votos e não houve nenhuma campanha a dizer “façam assim ou façam de outra forma”, contou.

ZAP // Lusa

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