Festa leonina, OE e política. Marcelo poupa Cabrita, mas não põe de lado uma remodelação

António Cotrim / Lusa

Em entrevista à RTP, a primeira deste mandato, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, poupou Cabrita, culpou os adeptos pelo que se passou nos festejos do Sporting, sublinhou que acredita que o Orçamento do Estado para 2022 vai ser aprovado e ainda falou nas condições em que vivem os migrantes.

Marcelo Rebelo de Sousa poupou nas críticas ao Governo em relação às polémicas do momento que visam sobretudo o ministro da Administração Interna.

Numa altura em que Eduardo Cabrita se encontra debaixo de fogo depois de ser acusado de nada ter feito para evitar os aglomerados na festa leonina, o Chefe de Estado poupou o ministro de Costa.

“Não sei se verdadeiramente ali no caso houve intervenção do ministro da Administração Interna ou se isso não foi tratado a nível de outras estruturas”. O Presidente disse mesmo que “não tem dados” que tenha “havido intervenção do ministro nesta matéria”.

Questionado sobre se subscreveria a afirmação de que Eduardo Cabrita é um “excelente ministro”, tal como afirmou António Costa, Marcelo recusa-se a fazê-lo e frisa: “não sou primeiro-ministro, não tenho de subscrever opiniões sobre o Governo”.

Sobre a festa sportinguista, referiu esta semana que “quem devia prevenir não preveniu” para que as regras fossem cumpridas nos festejos. Contudo, ao longo da entrevista, adotou uma conduta diferentes sobre o assunto.

Se antes Marcelo Rebelo de Sousa parecia apontar o dedo às autoridades, agora, o Presidente disse que foi ouvir os vários especialistas e intervenientes e acabou por desvalorizar as falhas destes órgãos. “Foi-me explicado por muita prevenção que pudesse haver, os diques iam romper naquele tipo de fenómeno“, afirmou.

Clarificado o que se passou, Marcelo atribuiu agora as culpas aos adeptos.

“Olhando as imagens de disciplina em Fátima” e o que tem “visto em espetáculos” culturais, o que destoou foram os sportinguistas, sublinhou. “Há um somatório de fatores e há também o comportamento das pessoas: são 20 anos de espera, mas que diabo. Eu percebo isso, mas houve ali um efeito que não é positivo e não pode ser replicado num futuro próximo”, alertou o Presidente da República.

Às autoridades fica um aviso, de que isto foi “uma lição”,“porque temos ainda jogos de futebol, há ainda o final da Taça [de Portugal, a Champions e outras celebrações”.

“Estou convencido que o Orçamento do Estado passa”

Na vertente política e económica, o Presidente da República está confiante na aprovação do Orçamento do Estado para 2022, com a ajuda dos comunistas.

“Estou convencido que o Orçamento passa. E para passar tem de haver negociação, mas com uma base de apoio similar ao último orçamento”, referiu.

Para o chefe de Estado, pode existir um partido “que não se tenha abstido da última vez e o faça agora”, mas duvida “que haja um risco grande do OE não passar”. Na perspetiva de Marcelo, em entrevista à RTP, o mais provável é que sejam os mesmos partidos a apoiar o Orçamento para o próximo ano.

Marcelo Rebelo de Sousa acrescenta ainda que “o português gosta” que PS e PSD cheguem a acordo mesmo em matérias orçamentais, mas o Presidente destaca que “isso é dificílimo” e acrescenta que não seria bom “para o regime”.

Remodelação no Governo após autárquicas

Apesar de não acreditar na instabilidade da governação do PS, o Presidente admite uma leitura nacional (que até pode favorecer os socialistas): “As eleições autárquicas, como todas as eleições em Portugal são nacionais”.

Questionado sobre eventuais mudanças no executivo, Marcelo considera que “cabe ao primeiro-ministro avaliar, em cada momento, manter o Governo ou remodelar”.

“As eleições autárquicas são um subciclo (…) já houve tudo, remodelações amplas, pontuais. Se o primeiro-ministro, entende que não deve fazer remodelações no governo, ele é que decide sobre matéria”, sublinhado que Costa será “avaliado politicamente pela avaliação que faz”.

Relativamente à situação do país, que se encontra em desconfinamento, Marcelo Rebelo de Sousa deixa avisos ao Governo e aos partidos, para que se apliquem na “reconstrução económica”.

O Presidente da República diz que vêm aí dois anos essenciais na utilização de fundos e que também por isso é fundamental haver estabilidade política até ao fim e o Governo concluir o mandato, que termina em 2023.

Por fim, sobre a sondagem da Católica que aponta que 46% dos portugueses querem que seja mais exigente com o Governo, Marcelo compreende que os portugueses “não querem brincar em serviço, querem a legislatura até ao fim e querem que o Governo vá governando melhor”.

“Ilações políticas mais vastas”

O Presidente da República considerou que devem haver “consequências e ilações políticas mais vastas” sobre as condições em que vivem os trabalhadores imigrantes em Portugal, com avaliação por antecipação de outros casos semelhantes ao de Odemira.

Marcelo afirmou que “há aqui problemas sociais de fundo que não têm a ver com ser-se de direita ou ser-se de esquerda, tem que ver com a dignidade das pessoas para as quais tem de se olhar”.

Questionado se é suficiente a assinatura de protocolos para resolver problemas de habitação dos trabalhadores agrícolas de Odemira e o levantamento da cerca sanitária em duas freguesias daquele concelho do distrito de Beja, o chefe de Estado respondeu: “Não”.

“Efeitos políticos houve, imediatos, retirados no plano sanitário, no plano da habitação, a título imediato e a título de prazo mais longo. Agora, há muitas situações destas no país. E, portanto, há aqui consequências e ilações políticas mais vastas”, acrescentou.

Segundo o Presidente da República, “aquilo que deu origem a decisões concretas do Governo neste caso provavelmente tem de ser avaliado por antecipação noutros casos”.

De acordo com Marcelo Rebelo de Sousa, “uma ilação” a retirar do caso de Odemira é o olhar sobre a imigração: “Nós somos uma pátria de emigrantes e ficamos legitimamente revoltados quando os nossos emigrantes não são bem tratados lá fora. Temos de começar a ver da mesma maneira quando são emigrantes de outros países”.

“Em segundo lugar, é abrirmos os olhos para uma realidade: precisamos dos imigrantes economicamente, e vamos precisar de mais imigrantes, mais qualificados uns, menos qualificados outros”, defendeu.

Ana Isabel Moura, ZAP // Lusa

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2 COMENTÁRIOS

  1. A necessária remodelação do governo implica manter apenas um ministro, o dos Negócios Estrangeiros. Infelizmente é o único com competência na área que tutela. Os restantes, sabe Deus o que andam a fazer.

  2. Está comprovado que o português é mesmo apreciador de cabrito, deste ninguém se quer ver livre, vai ficar para reprodução!

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