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Vítor Bento ouvido na Comissão de Inquérito no caso BES

RTP / Flickr

Vítor Bento, o novo presidente do BES

Vítor Bento, ex-presidente do Novo Banco

O ex-presidente do Novo Banco, Vítor Bento, explicou esta terça-feira aos deputados que recebeu com surpresa o convite de Ricardo Salgado para lhe suceder na liderança do BES, tendo aceitado devido ao apoio expresso do Banco de Portugal (BdP).

“A 30 de junho recebi o convite inesperado de Ricardo Salgado para presidir ao Banco Espírito Santo (BES). Tinha acabado de ser conhecido o grande sucesso do aumento de capital e o quadro que me foi descrito – e não estou a revelar nada que não seja público – foi que o banco tinha um problema de exposição ao Grupo Espírito Santo (GES), mas que estava contido“, afirmou o responsável na audição da comissão de inquérito parlamentar ao caso BES.

Vítor Bento sublinhou que contactou logo no dia seguinte o Banco de Portugal e que lhe foi garantido que os prejuízos estavam contidos dentro da almofada de capital que o banco dispunha e que o problema em Angola estava a ser tratado pelas autoridades portuguesas e angolanas. E que lhe asseguraram que, se o banco viesse a ter problemas de capital, estaria disponível a linha de recapitalização pública, constituída em 2011, quando Portugal recorreu ao apoio financeiro da troika.

O gestor aceitou o convite numa ótica de “desafio patriótico”, segundo o próprio, realçando que lhe foi “prometido” o apoio por parte do Banco de Portugal. “Fiquei convencido que tinha pela frente o desafio de recuperar a confiança”, afirmou, acrescentando que pensava que, em caso de necessidade, a linha pública de 12 mil milhões de euros estava disponível para ser utilizada, “tal como foi por outros bancos”.

Bento contou que, depois de ter obtido o “apoio explícito” do Crédit Agricole, acionista de referência do BES, decidiu aceitar o convite, mas com condições. “Só assumiria funções após serem divulgadas as contas do primeiro semestre, até porque não fazia sentido apresentar resultados que não sabia explicar e teria como base de partida as contas do semestre validadas pelos auditores”, disse.

Por essa altura, Bento já tinha iniciado contactos para formar a equipa de gestão do BES. “Tive várias recusas de profissionais competentes que não se quiseram arriscar nesta aventura”, confidenciou, realçando que conseguiu contratar dois “grandes profissionais”, José Honório e João Moreira Rato, para a sua equipa.

Segundo Bento, a 10 de julho “as condições agravaram-se” depois de ser conhecida a exposição real do BES ao GES. “Começou assim uma grande pressão para que a minha entrada no banco se processasse o mais rapidamente possível”, revelou, sublinhando que a 14 de julho a sua equipa aceitou assumir funções.

“Em pouco tempo, verificou-se que nenhuma das condições em que aceitámos o desafio se concretizou. O problema de Angola não estava resolvido e a linha de recapitalização pública não estava disponível para ser usada pelo banco”, assinalou.

A comissão de inquérito arrancou a 17 de novembro e tem um prazo de 120 dias, que pode eventualmente ser alargado. Os trabalhos têm por intuito “apurar as práticas da anterior gestão do BES, o papel dos auditores externos, as relações entre o BES e o conjunto de entidades integrantes do universo GES, designadamente os métodos e veículos utilizados pelo BES para financiar essas entidades”.

Será também avaliado, por exemplo, o funcionamento do sistema financeiro e o “processo e as condições de aplicação da medida de resolução do BdP” para o BES e a “eventual utilização, direta ou indireta, imediata ou a prazo, de dinheiros públicos”.

A 3 de agosto, o Banco de Portugal tomou o controlo do BES, após a apresentação de prejuízos semestrais de 3,6 mil milhões de euros, e anunciou a separação da instituição em duas entidades: o chamado banco mau (um veículo que mantém o nome BES e que concentra os ativos e passivos tóxicos do BES, assim como os acionistas) e o banco de transição que foi designado Novo Banco.

/Lusa

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