Vacinas contra a covid-19. “É muita parra e pouca uva”, diz cientista da Universidade de Lisboa

Existem três vacinas na fase final de testes com taxas de sucesso na casa dos 90% que ainda não foram, no entanto, aprovadas pela entidade reguladora. Um cientista da Universidade de Lisboa explicou ao jornal Público porque é que isso pode ser perigoso.

“Primeiro foi a Pfizer-BioNtech, depois vieram logo os responsáveis da vacina russa dizer que a deles tinha 92% de eficácia, agora a Moderna a dizer que tem 95% e tudo isto sem dados”, começa por dizer Miguel Castanho, cientista do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em entrevista ao jornal Público.

O cientista considera que as farmacêuticas se estão a precipitar, na medida em que dão alguma informação, “mas ainda sem resultados finais, sem terem todos os dados, o que do ponto de vista científico não tem consistência“.

“Do ponto de vista do mundo científico, esperar-se-ia algum recato, que se olhasse para os resultados finais – porque não importam só os resultados, é também como foram obtidos, como se planearam os estudos e quais os critérios usados. Isso também conta e tem de ser alvo de escrutínio”, acrescentou.

Apesar de não criticar a forma como foram concebidos os ensaios clínicos, Miguel Castanho pensa que os critérios de exigência possam ter sido “aligeirados” porque “a precisão e robustez estatística dos resultados poderia eventualmente exigir mais dados e, abdicando dessa robustez estatística, podem obter-se resultados mais rapidamente. Menos testes chegam para alcançar o ponto que se pretendia”.

Além disso, o problema dos anúncios de altíssimas taxas de sucesso é que transmitem uma falsa ideia de otimismo.

“Começa-se a lançar na população a ideia de que tudo está a correr espetacularmente bem e que tudo será fácil com as vacinas, tudo será rápido, e não será assim. Enfim, por muito boa que venha a ser a vacina para a covid-19, nunca será fácil, devido à quantidade de gente que será preciso vacinar para ter um efeito prático. Portanto, este ambiente tem um efeito pernicioso e que não tem nada a ver com ciência”, explicou Miguel Castanho.

Segundo o cientista, a corrida pela vacina contra o novo coronavírus pode ser entendido como uma corrida comercial e não pela saúde pública, o que pode alimentar os movimentos antivacinas.

Por outro lado, criam-se expectativas muito elevadas que poderão não ser cumpridas por alguma razão. “Tanto pode ser porque a eficácia não é tão elevada como se esperava, ou porque afinal há problemas de segurança em alguns grupos ou subgrupos populacionais ou porque a distribuição afinal é problemática ou porque nas condições de armazenamento há uma degradação da vacina”, diz Miguel Castanho.

“Pode haver um problema qualquer em algum dos pontos críticos para além do desenvolvimento da vacina, e haver um defraudar de expectativas. Os movimentos antivacinação alimentam-se disso, da frustração das pessoas”, conclui.

O cientista não põe de parte a possibilidade de ser criada uma boa vacina, mas considera que a expectativa que está a ser criada pode não ser correspondida – o que fará com que seja considerada um falhanço (ou mini-sucesso), em vez de um enorme sucesso.

Por essa razão, devia-se ter algum recato agora, afirma Miguel Castanho. “Depois de termos os resultados e sabermos o que são as vacinas, quer do ponto de vista da eficácia, quer da segurança, quer das condições de distribuição, aí sim, aí já temos muita matéria para falar, e aí teremos de ter uma discussão coletiva sobre como vamos lidar com a pandemia. Por ora, como diz o povo, é muita parra e pouca uva“, atira.

ZAP //

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