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Vacinação indevida chega à Segurança Social. Enfermeiros questionam MP

Mário Cruz / Lusa

Continuam a surgir casos de pessoas, que não fazem parte dos grupos prioritários, que já receberam a vacina contra a covid-19. O mais recente aconteceu na Segurança Social de Setúbal, o que já motivou a abertura de um inquérito interno urgente.

Pelo menos 126 funcionários do Centro Distrital da Segurança Social de Setúbal, entre os quais a diretora deste organismo e diretores de unidade e de núcleos, foram vacinados contra a covid-19, depois de terem sido incluídos numa lista na qual só deveriam constar utentes e funcionários de lares e de instituições de cuidados continuados, avançou esta quinta-feira a SIC Notícias.

O canal televisivo apurou que o documento chegou à Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo através do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) da Arrábida. A inclusão destes 126 nomes, incluindo o da diretora, a socialista Natividade Coelho, terá causado estranheza às autoridades de saúde, que chegaram a questionar a Segurança Social. Certo é que a vacinação aconteceu mesmo assim, na passada sexta-feira, nas instalações do INATEL.

Confrontado com este caso, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social disse que a ministra Ana Mendes Godinho não tinha conhecimento, mas, perante as questões colocadas, “foi determinada a abertura de um inquérito interno urgente ao Instituto da Segurança Social”.

Questionado pela SIC, esse mesmo instituto remeteu explicações para o ACES da Arrábida, uma vez que “todo o processo de vacinação tem sido conduzido e decidido” por este organismo e que só apontou “os trabalhadores de ação social que exercem funções que os colocam em situação de risco de exposição ao vírus, nomeadamente através da intervenção em lares”.

Lar de Portimão ofereceu vacinas a todos os órgãos sociais

Segundo o Observador, também o Centro de Apoio a Idosos de Portimão deu a possibilidade a todos os órgãos sociais, incluindo o Conselho Fiscal, que não tem contacto com os idosos, de serem vacinados contra a covid-19.

O jornal online apurou, no entanto, que alguns terão recusado a ideia. É o caso do próprio Conselho Fiscal. “Não fui vacinado porque não quis. Os meus colegas também não foram”, afirmou Carlos Bicheiro, presidente desse Conselho do lar.

Numa resposta escrita, o presidente da direção do centro e também líder da bancada do PS na Assembleia Municipal, José Figueiredo Santos, explicou que foi cumprido o Plano de Vacinação e as orientações da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, que preveem a vacinação de “todos os idosos, profissionais , parte dos corpos gerentes essenciais ao funcionamento presencial na instituição (também eles de risco), e que têm contacto direto e ativo com os idosos, com as instalações que os mesmos frequentam e utilizam”.

Já o presidente da Autoridade Regional de Saúde (ARS) do Algarve, Paulo Morgado, disse ao Observador desconhecer este caso, mas reconheceu saber “que tem havido por aí varias situações deste género”. Por outro lado, o responsável diz que também podem acontecer casos pontuais em que são administradas vacinas que sobram.

Esta quinta-feira, o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) também esteve no centro de uma polémica, por também ter vacinado profissionais não prioritários, entre os quais diretores, assessores, administradores e informáticos.

O INEM explicou que só foram administradas as “doses sobrantes aos profissionais do INEM que dão suporte à atividade de Emergência Médica, para evitar o desperdício destas”, uma vez que vários profissionais prioritários “não preenchiam os critérios para poderem receber a primeira dose da vacina”.

Ordem dos Enfermeiros questiona Ministério Público

“Na sequência das várias participações recebidas na Ordem dos Enfermeiros (OE) e após várias notícias sobre situações suspeitas na vacinação contra a covid-19, em particular autarcas e agora a situação no INEM, a OE enviou um ofício à Procuradoria-Geral da República a questionar se o Ministério Público tem conhecimento dos casos e se existe algum inquérito em curso”, lê-se num comunicado emitido por esta Ordem, esta quinta-feira, e citado pelo semanário Expresso.

A Ordem dos Enfermeiros explica ter recebido “relatos de profissionais de saúde que não estão incluídos nas listas de vacinação prioritária, de planos de administração da vacina com a inclusão de enfermeiros como supletivos, de não profissionais de saúde suspeitos de definirem pessoas ou grupos de pessoas a quem tem sido dado tratamento prioritário e ainda de pessoas não incluídas em qualquer grupo prioritário a quem já foi administrada a vacina”.

“No espírito de colaboração que pauta a Ordem dos Enfermeiros, instituição representativa dos que exercem a profissão de enfermeiro e a quem compete promover a defesa dos interesses gerais dos destinatários dos serviços de enfermagem, representar e defender os interesses da profissão, bem como zelar pela dignidade da profissão, a OE decidiu enviar um conjunto de questões” à PGR.

Esta quinta-feira, o coordenador do Plano de Vacinação contra a covid-19, Francisco Ramos, fez um ponto de situação e anunciou que a Inspeção Geral da Saúde vai começar a fazer auditorias à vacinação para perceber se os critérios estabelecidos para os grupos prioritários estão a ser cumpridos.

  Filipa Mesquita, ZAP //

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