Reunião do Infarmed. Incidência elevada (mas a decrescer), confinamento de 2 meses e críticas ao Governo

António Pedro Santos / Lusa

O Presidente da República, o primeiro-ministro e os partidos reuniram-se novamente nesta terça-feira com epidemiologistas, mas desta vez por videoconferência, num momento em que o país se encontra em confinamento geral por causa da covid-19.

Depois de a ministra da Saúde, Marta Temido, abrir a sessão, André Peralta Santos, da Direção-Geral de Saúde (DGS), falou sobre os dados epidemiológicos atuais em Portugal, mostrando um gráfico em que se vê uma “trajetória descendente” depois de um “pico a 29 de janeiro” com 1.669 casos por 100 mil habitantes.

O especialista mostrou que a incidência esteve acima dos 1.920 em muitos municípios do país, mas “ao dia de hoje a situação é mais favorável”, depois de no final de janeiro ter havido em todo o país um decréscimo.

“Todas as idades têm uma tendência decrescente”, referiu Peralta Santos.

Quanto às faixas etárias, as pessoas acima dos 80 anos atingiram “incidências muito elevadas” e a faixa entre os 60 e os 80, em dezembro, foi a que teve maior incidência.

Nas hospitalizações totais, já há “indicação de formação de um pico”, enquanto nas UCI “ainda [se está] a formar um pico sem tendência definida”.

A mortalidade atingiu em janeiro um aumento de “quase três vezes em relação ao pico de dezembro”, mas já há a “formação clara de um “pico na primeira semana de fevereiro”.

O especialista considerou que a incidência continua “extremamente elevada”, embora decrescente. “Este nível de confinamento parece suficiente para travar a disseminação, incluindo da nova variante”, disse.

Seguiu-se Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, que falou sobre a evolução da incidência e transmissibilidade da covid-19.

Segundo o especialista, o R é inferior a 1 em todas as regiões de Portugal continental e nos Açores. Na Madeira está a 1,13, “o que indica uma fase de crescimento”.

O valor estimado para a média dos últimos cinco dias analisados, entre 30 de janeiro e 3 de fevereiro, é de 0,82 para o R.

A 4 de janeiro o R era de 1.24 e a 3 de fevereiro era de 0.78. “Em 30 dias houve uma redução muito mais acentuada da transmissibilidade”, explicou.

O especialista refere o fecho das escolas como um fator que contribuiu para a maior capacidade de controlo do vírus.

Portugal é agora um dos países com redução mais acentuada da mobilidade na União Europeia (UE), “na ordem dos 66%”, segundo Baltazar Nunes.

“Precisamos de manter estas medidas por dois meses”, disse. “O cenário de 60 dias é o que consegue trazer os níveis de ocupação nas UCI para valores mais baixos: 300 camas ocupadas em UCI e 200 em abril se mantivermos medidas por 60 dias” – a contar de 15/20 de janeiro. Assim, o investigador defende a manutenção das medidas até ao fim de março.

“Andamos atrás da epidemia”

Manuel do Carmo Gomes, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, explicou que, depois das “medidas leves” de 15 de janeiro, “houve um estacionamento da velocidade dos contágios” e que só a partir do dia 22 janeiro se observa “pela primeira vez uma descida suave das taxas de incidência das várias idades”.

Foi decisiva a ação do Conselho de Ministros do dia 21 de janeiro quando decidiu ter medidas mais restritivas que levaram a uma redução dos casos”, notou.

Carmo Gomes defendeu fazer uma reflexão sobre a forma como se está a lidar com a pandemia, acrescentando que, na sua opinião, a resposta tem sido “insuficiente” e que tem de ser “agressiva”.

“A forma como desde maio lidamos com esta epidemia consiste em ler indicadores epidemiológicos que chegam com atraso (pelo menos 7 dias), adotar medidas em resposta, depois levamos uma semana ou 15 dias para ver resultado das medidas. Normalmente as medidas não são suficientes e tomamos mais medidas. Isto é a resposta gradual”, disse.

O perito defendeu “uma resposta agressiva delineada por critérios objetivos, com linhas vermelhas que, se forem ultrapassadas, temos de agir de forma muito agressiva”.

As linhas vermelhas de Carmo Gomes são ter um R que não ultrapasse 1,1; ter percentagem de testes positivos que não permita a positividade chegar aos 10% (deve estar nos 5%); e ter incidência que não ultrapasse o nível que o Ministério da Saúde acha adequado para gerir doentes Covid e não Covid – 2 mil novos casos por dia.

“A partir de determinada altura não conseguimos controlar o vírus que cresce exponencialmente desta maneira”, continuou. “Andamos atrás da epidemia”.

“O número de casos explode a partir de determinada altura”, disse, dando o exemplo do Natal, altura em que o país registava 3.500 casos diários e que, “em seis semanas”, passou para 12 mil. “Andámos permanentemente sem conseguir travar de forma definitiva o crescendo da epidemia”.

Vacinação pode salvar “3.500 vidas” até setembro

Henrique de Barros, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, assumiu que há “duas hipóteses de eficácia vacinal: 70 ou 90%”.

No primeiro caso pressupõe-se que “70% da população estará vacinada no final de setembro”, com dois milhões de pessoas vacinadas até ao fim de abril e os cinco milhões restantes até setembro” ou “cerca de quatro milhões até ao fim de abril, com quatro pessoas em mil por dia”.

“Se a vacinação ocorrer como está previsto, salvamos 3.500 vidas até ao fim de setembro”, revelou.

Henrique Barros disse que seria possível ver diferenças “optando por um cenário de vacinação muito mais rápida até ao final de abril”, altura em que “estaríamos muito abaixo dos 200 internados em cuidados intensivos e num patamar ideal de 50 casos por 100 mil habitantes”.

Segundo o especialista, “um esforço na aceleração do processo de vacinação tem ganhos inequívocos em vidas e na melhor gestão dos cuidados de saúde”, bem como a possibilidade de “sair da situação atual no final do verão”.

Evolução das variantes em Portugal

João Paulo Gomes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, falou sobre a vigilância das variantes genéticas do vírus.

Segundo o perito, as variantes do Reino Unido, África do Sul e Brasil têm “uma mutação comum às três”, sendo as últimas duas de “preocupação acrescida” por terem uma “mutação adicional que ambas partilham”.

Em 200 mil testes efetuados em dezembro nos laboratórios Unilabs, quase 50 mil deram positivos e mais de 8.600 com a variante do Reino Unido. O especialista revela que entre 1 de dezembro e 7 de fevereiro circularam em Portugal “mais de 120 mil” casos associados à variante do Reino Unido.

Os casos desta variante têm 20 vezes mais carga viral do que as outras variantes.

Maria Campos Maria Campos, ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

    • Críticas ao governo têm sido de norte a sul do país, tal a forma ridícula como tem tomado algumas decisões, sobretudo as correspondentes ao período de Natal, que vitimou milhares de portugueses.

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