Próximas semanas serão as piores. Menos de 300 casos em UCI só com “dois meses de algum confinamento”

José Sena Goulão / Lusa

Especialistas do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge dizem que são precisos mais dois meses com medidas de confinamento para que o número de casos em UCI fique abaixo dos 300. O jornal Expresso aponta o pico de casos para a próxima semana e alerta que os internamentos continuarão a subir.

De acordo com o jornal Expresso, o impacto do confinamento na redução da transmissão da covid-19 em Portugal é muito subtil, mas os especialistas já veem sinais de desaceleração.

O país continua, no entanto, a manter-se numa tendência crescente de infeções, internamentos e óbitos.

Há modelos que apontam para um pico de casos na próxima semana, o que significa que só na segunda metade de fevereiro é que o alívio deverá chegar aos hospitais. Até lá, estimam os peritos, a pressão irá subir.

“O número de doentes a precisar de cuidados intensivos deverá continuar a aumentar até à primeira metade de fevereiro, atingindo um valor máximo de cerca de 1.100, altura a partir da qual começará a decrescer”, aponta Maria Luísa Morgado, matemática da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e uma das responsáveis pelo modelo desenvolvido com o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

“O modelo indica que, em cenários de confinamento de duas semanas, um mês ou dois meses, o número de internados em cuidados intensivos no final de março será, respetivamente, de 1.000, 500 e 260.”

São precisos dois meses de confinamento

O investigador Baltazar Nunes afirmou esta sexta-feira que há um “claro desaceleramento” da epidemia de covid-19 nas últimas semanas em Portugal, com o valor do risco de transmissibilidade estimado em 1.10

“A situação atual relativamente à transmissibilidade do valor do R está, neste momento, em 1.10, mas encontra-se em fase de decréscimo”, estimou o investigador do INSA na Comissão Eventual para o acompanhamento da aplicação das medidas de resposta à pandemia da doença covid-19 e do processo de recuperação económica e social, onde foram ouvidos vários especialistas em saúde pública.

O coordenador da Unidade de Investigação Epidemiológica do INSA afirmou ainda que o risco de transmissibilidade é mais elevado na região de Lisboa e Vale do Tejo, com 1.13, e que o valor mais baixo é na Região Autónoma dos Açores, com 0,8, abaixo de 1, ou seja, em fase decrescente.

Questionado sobre o que pode acontecer daqui para a frente, o especialista afirmou que “tudo indica que, a continuar este decréscimo da transmissibilidade”, que se possa inverter esta fase de crescimento nas próximas semanas.

Contudo, alertou, isso depende inteiramente das medidas implementadas, mas mais do que isso, da sua efetividade, do seu grau de implementação e da adoção da população das medidas que estão neste momento em vigor.

“Neste momento, é imperativo baixar” a transmissão da doença e o número de casos na população, vincou, justificando que com a incidência que existe atualmente, com o grau de transmissibilidade e com o número de casos que há por dia, “é muito difícil aplicar qualquer outro tipo de medidas menos restritivas para poder de alguma forma combater” a epidemia.

Baltazar Nunes explicou também que “a capacidade de identificação dos casos, todas as medidas de proteção, até da população mais idosa, tornam-se cada vez mais difíceis com o crescente número de casos que existe na população”.

Sobre quanto tempo vai durar a epidemia, o investigador disse que é uma pergunta “muito difícil” de responder, mas citou as palavras de Jorge Torgal, especialista de saúde pública, também ouvido na comissão: “É um vírus que vai ter que viver connosco e nós com ele durante muito tempo”.

“Os nossos modelos indicam que é necessário, pelo menos, dois meses de algum confinamento ou de restrição de contactos” para reduzir para menos de 300 os casos de internamento em cuidados intensivos.

“A partir desse momento existem outras medidas que vão começar a ter o seu papel relevante como a vacinação que acreditamos que ao aumentar a cobertura vacinal, principalmente nas populações mais frágeis, poderá reduzir o impacto da epidemia e mais tarde, quando atingirmos coberturas vacinais mais elevadas, na população geral possamos então reduzir a transmissão civilidade”, declarou Baltazar Nunes, ressalvando que também dependerá da efetividade das vacinas que existem temos neste momento.

Portugal é dos países que mais testa

Em dezembro, Portugal estava a fazer uma média de 34 mil testes por dia, enquanto que nos primeiros 26 dias de janeiro foi realizada uma média de 52 mil testes ao dia.

“Estes valores têm vindo a aumentar”, disse Cristina Abreu Santos, vogal do conselho diretivo do INSA, na mesma audição conjunta.

Segundo a responsável, trata-se de “uma evolução natural com um investimento e com o reforço numa reserva estratégica que o Ministério da Saúde pôs à disposição dos laboratórios do Serviço Nacional de Saúde”.

Os dados avançados pelo INSA referem que na terceira semana de janeiro se conseguiram fazer cerca de 450 mil testes semanais, o que coloca Portugal no quinto lugar de países da União Europeia a realizar mais testes por milhão de habitantes.

“Se formos comparar com todo o ano 2020, o máximo que tínhamos feito por semana tinha sido 286 mil testes, ou seja, passámos de um máximo em 2020 de 286 mil testes para a terceira semana de janeiro com 450 mil testes”, salientou, afirmando ainda o dia 22 de janeiro foi o dia em que se fizeram mais testes, quase 77 mil.

Cristina Abreu Santos acrescentou ainda que “atualmente a capacidade de testagem aferida pela metodologia convencional, que é a metodologia PCR, é neste momento de cerca de 60 mil testes ao dia”.

Além desta capacidade da metodologia PCR, acresce ainda a capacidade de testagem com testes rápidos de antigénio, observou.

Durante a audição, o presidente do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, Fernando de Almeida, anunciou que o INSA vai iniciar em breve o segundo inquérito serológico covid-19.

O primeiro inquérito serológico covid-19, que decorreu entre março e junho de 2020, visou caracterizar a distribuição dos anticorpos específicos contra SARS-CoV-2 e determinar a extensão da infeção na população residente em Portugal – que indicaram uma seroprevalência global de 2,9% de infeção pelo novo coronavírus na população.

Este estudo visa também determinar e comparar a seroprevalência de anticorpos específicos contra SARS-CoV-2 por grupo etário e por Região de Saúde, assim como determinar a fração de infeções assintomáticas.

  Sofia Teixeira Santos, ZAP // Lusa

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10 COMENTÁRIOS

  1. Não faz sentido, o crescimento de novos casos deveria cair a pique na próxima semana sendo que supostamente leva 7 a 14 dias a manifestar-se, quem está a entrar nos internamentos na próxima semana ja supostamente se contagiou no período de confinamento, 2 meses seria para reduzir os contágios a um mínimo e faria sentido se nesses 2 meses se vacinasse pelo menos 50% da população, mas isso não vai acontecer.

    • Não vai cair. Tem piada quando refere quem “se contagiou no período de confinamento”, pois leva toda a gente a crer (e com legitimidade) que, na verdade, não estamos num confinamento, mas antes numa brincadeira de descriminação. Lamento informar… é impossível voltarmos ao confinamento de março e abril do ano passado, visto que o governo tem andado bastante picuinhas.
      Acerca da vacinação, Portugal (quero referir, os enfermeiros e especialistas de saúde portugueses) só vacinou, até agora, pouco mais de duzentas mil pessoas – num mês. Portanto, está tudo a ser rápido e eficaz. Algumas pessoas passaram à frente de outras, tendo sido vacinadas indevidamente.

  2. Se o estado não tiver dinheiro para manter as pessoas com dignidade em casa, isso nunca vai acontecer. Em vez de pagarem aos bancos e taps, etc, distribuam esses dinheiros e os biliões que vem da Europa.

  3. As variantes ainda vão variar mais, fiquem atentos aos próximos capítulos…eles não dizem tudo de uma vez para não causar pânico.

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