Três anos após Pedrógão, observatório mostra que “muito está ainda por fazer”

Miguel A. Lopes / Lusa

O Observatório Técnico Independente sobre incêndios criado pelo Parlamento alerta que o país pode não estar preparado para fazer frente a incêndios de dimensão semelhante aos de 2017, em que mais de 100 pessoas morreram.

“Em 2017, quase todos afirmaram que as consequências que resultaram dos incêndios de junho e outubro desse ano não poderiam voltar a repetir-se. Apesar das melhorias nalguns componentes do sistema, não estamos seguros de que o país esteja suficientemente preparado para enfrentar eventos da mesma magnitude”, pode ler-se na nota informativa divulgada, esta sexta-feira, pelo Observatório Técnico Independente.

A poucos dias do Dia Nacional em Memória das Vítimas dos Incêndios Florestais, que se assinala a 17 de junho, o Observatório destaca que as variáveis que determinaram os fatídicos incêndios de junho e outubro desse ano, e que vitimaram mais de uma centena de pessoas, “permanecem sem alterações estruturais”, enumerando que há trabalho a fazer no plano do “ordenamento, gestão florestal, recuperação de áreas ardidas e mitigação do risco desadequados”.

Simultaneamente, o relatório agora divulgado aponta uma “insuficiente formação e qualificação dos agentes, indefinição no modelo de organização territorial a adotar pelos serviços do Estado, a precariedade laboral de diversos agentes, a falta de recrutamento para lugares de comando operacional e a manutenção de alguns comportamentos de risco pela população em condições favoráveis à ocorrência de incêndios” como pontos ainda por solucionar.

“O planeamento e operacionalização em matéria de prevenção e defesa da floresta contra incêndios carecem ainda de uma visão inclusiva de todos os agentes, numa conjunção de esforços entre as várias entidades envolvidas a partir de um modelo de interagência”, assinala o Observatório, acrescentando que “houve passos dados desde 2017, mas um longo caminho está ainda por fazer”.

Para esta entidade, o risco tende a agravar-se como resultado das mudanças na paisagem e das alterações climáticas em curso, pelo que apela a que, três anos após 2017, “o País não se possa sentir satisfeito pelo quanto já foi feito, mas antes se concentre, com considerável e avisada humildade, no muito que está ainda por fazer“.

Apesar destas indicações, nesta reflexão o Observatório aponta como “positiva” a melhoria na perceção do risco na proteção de pessoas e bens, revelando que “a constatação mais significativamente positiva desde 2017 foi a da redução do número de ignições”, o que considera ser particularmente importante em dias de condições meteorológicas adversas.

Diz o Observatório que esta redução poderá ser interpretada como resultante da redução área com potencial para arder, da alteração de comportamentos da sociedade, da maior sensibilização e maior atividade da GNR, aposta na identificação e detenção de suspeitos, da perceção do melhor funcionamento do sistema judicial ou das campanhas nos meios de comunicação social (Portugal Chama).

Já do lado do combate, o Observatório reconhece que é onde mais trabalho há a fazer, apontando que é necessária uma aposta na profissionalização, com “formação e qualificação dos agentes, reforço de equipamentos, rentabilização da capacidade instalada a nível local, regional e nacional, recrutamento de técnicos para o desempenho qualificado de funções especializadas na gestão de emergência e planeamento da intervenção de todos os agentes do sistema numa lógica de complementaridade territorial”.

Lusa // Lusa

PARTILHAR

1 COMENTÁRIO

  1. Muito está ainda por fazer, mas nem tudo.
    Construções indevidas deixando quem ficou sem teto na rua, apropriação de bens e meter algum ao bolso – entre outras “diligências” -, já foi feito…

RESPONDER

Costa, Von der Leyen na Cimeira Social no Porto

Vacinação no bom caminho com 25% da população da UE vacina

A Comissão Europeia anunciou este sábado que 200 milhões de doses de vacinas anticovid-19 chegaram já à União Europeia (UE) e 160 milhões de europeus já receberem a primeira dose, levando a que a vacinação …

Libertados nos EUA os primeiros mosquitos geneticamente modificados

Foi a primeira vez que mosquitos geneticamente modificados foram libertados nos Estados Unidos. O objetivo é suprimir populações de mosquitos transmissores de doenças. De acordo com o site Live Science, a empresa de biotecnologia Oxitec lançou …

Descobertos os restos de nove Neandertais numa gruta em Itália

Os restos de nove Neandertais foram descobertos na Gruta de Guattari, em San Felice Circeo, na costa entre Roma e Nápoles, onde já tinham sido encontrados vestígios da presença Neandertal, anunciou este sábado o ministro …

Leis draconianas na Malásia. Fahmi Reza foi detido por insultar a rainha com playlist no Spotify

A sátira desempenha um importante papel na sociedade. Na Malásia, as leis draconianas estão a reacender o debate em torno da liberdade de expressão. Fahmi Reza, um artista gráfico e ativista social malaio, foi detido no …

António Barreto

Portugal vai ter "um problema de cor de pele" (por muitos anos e com conflitos)

O sociólogo António Barreto considera que Portugal vai "ter um problema" de "cor de pele" e "por muitos anos". Uma ideia defendida numa entrevista onde se reporta para "o que se passa em toda a …

Um laboratório vivo. Há residentes "superimunes" à covid-19 numa pequena cidade italiana

A pequena cidade de Vo, no norte de Itália, tornou-se um dos primeiros locais com um surto de covid-19 da Europa em fevereiro de 2020. Agora, os cientistas descobriram que a cidade abriga um número …

Portugal com duas mortes e 406 novos casos nas últimas 24 horas

Portugal registou hoje duas mortes atribuídas à covid-19, 406 novos casos de infeção pelo coronavírus e nova descida no número de internamentos em enfermaria e em cuidados intensivos, segundo a Direção-Geral da Saúde (DGS). De acordo …

Portugal "tem nível de rendimentos baixíssimo". Muitos municípios que perdem população desde o final II Guerra

Portugal tem municípios que perdem população desde o final da II Guerra Mundial e dificilmente fenómenos como o teletrabalho irão alterar esta paisagem, na opinião do geógrafo Álvaro Domingues, da Universidade do Porto. Em entrevista à …

Gestora em teletrabalho esqueceu-se da filha no carro. Bebé encontrada sem vida sete horas depois

Maria Pilar, uma bebé de dois anos, morreu esta sexta-feira, depois de ter ficado esquecida dentro do carro durante cerca de sete horas. A menina de dois anos esteve cerca de sete horas dentro do carro, …

Costa, Von der Leyen na Cimeira Social no Porto

Cimeira Social cheia de boas intenções deixa factura de um milhão de euros (e "erro" na comida da PSP)

Os chefes de Estado e de Governo da União Europeia comprometeram-se, na Cimeira Social do Porto, a "trabalhar em prol de uma Europa social". Mas o evento deixa uma polémica com as refeições distribuídas aos …