Itália pediu ajuda, Europa ficou em silêncio e o vírus cavalgou por todo o continente

Andrea Fasani / EPA

A lenta resposta a um inimigo invisível, a falta de stock de equipamentos de proteção, um Ocidente a festejar o Ano Novo e uma Europa com as atenções centradas no Brexit. Um cocktail desastroso que levou a Itália a pedir ajuda, a Europa a calar-se e o vírus a ganhar terreno.

Itália foi um dos países europeus mais afetados pela pandemia de covid-19. Em fevereiro, perante um cenário em que o número de novos casos triplicava a cada dois dias, Giuseppe Conte pediu ajuda aos Estados-membros da União Europeia (UE), mas, segundo uma investigação levada a cabo pelo britânico The Guardian, a resposta foi silêncio.

O trabalho, publicado esta quarta-feira em conjunto com a organização Bureau of Investigative Journalism, refere que a resposta à pandemia por parte de Itália foi prejudicada pelo facto de nenhum Estado-membro ter respondido ao pedido de ajuda do país.

Isto significava “que não só a Itália não estava preparada… Ninguém estava preparado… A falta de resposta ao pedido italiano não era falta de solidariedade. Era falta de equipamento”, resumiu Janez Lenarcic, comissário europeu responsável pela gestão de crise.

Itália sofria e a Europa estava distraída com a celebração do Ano Novo e com o Brexit, numa azáfama que a impediu de prestar atenção ao inimigo invisível que, pouco tempo depois, fechou a população mundial em casa.

Quando o novo coronavírus começou a aparecer nas notícias, quase nada se sabia. No início, dizia-se que tinha eclodido na China e ainda não se suspeitava da transmissão entre seres humanos. Ainda que vários casos de pneumonia tivessem sido reportados, o Ocidente festejava a chegada de um novo ano, convictos de que iria superar o velho 2019. Nessa altura, voaram cerca de 300 mil pessoas da China para a Europa.

A primeira teleconferência realizada pela União Europeia teve lugar no dia 17 de janeiro, mas apenas 12 dos 27 países estavam presentes na chamada. Portugal não esteve presente na reunião feita em áudio do Comité de Segurança e Saúde.

“A Comissão Europeia devia ter agarrado o problema mais cedo“, confessou uma fonte da União Europeia, citada pelo diário britânico.

As atenções mediáticas estavam voltadas para o Reino Unido e o Brexit era o protagonista. A Europa preparava-se para abraçar uma pandemia, mas era a política britânica que pintava manchetes. A primeira conferência de imprensa em Bruxelas, totalmente dedicada à covid-19, aconteceu no dia 29 de janeiro, mas a sala estava vazia.

“Pedimos preparação, para que todos os Estados-membros levassem a ameaça a sério. Houve muito eco na sala vazia, mas ainda assim esperávamos que houvesse algum eco nos media no dia seguinte”, contou Lenarcic ao The Guardian. No dia seguinte, 30 de janeiro, dois turistas chineses testaram positivo em Roma: a comunicação social começou a dar ouvidos, naquele que era o primeiro passo do vírus pelo continente.

No início desta maratona contra o vírus, a mensagem não passou e a ameaça foi subestimada, considera Ammon, do Instituto Robert Koch, explicando que é muito diferente preparar um aumento de camas “em duas semanas ou em dois dias”.

Quando os primeiros casos surgiram em Roma, Itália pediu uma reunião entre todos os ministros da Saúde europeus. O Executivo croata devia ter convocado o encontro, uma vez que é o responsável pela presidência do Conselho da União Europeia. Uma questão de timing ou falta de sorte: a Croácia estava mergulhada numa crise política e a reunião teve de esperar até 13 de fevereiro.

A estas falhas soma-se a ausência de equipamento quando o novo coronavírus se começou a fazer sentir. “Vários países europeus tinham um stock estratégico de máscaras que estavam desatualizadas. A maioria delas foi destruída”, revelou a investigação.

Além disso, o The Guardian acrescenta que 15 Estados-membros aplicaram restrições ao movimento de equipamento de proteção e medicamentos na UE durante a pandemia. Camiões com máscaras, luvas e material de proteção foram parados em algumas fronteiras.

“Não é um problema fechar as fronteiras, mas é preciso falar com os vizinhos do outro lado e alguns não fizeram isso”, denunciou Lenarcic.

Liliana Malainho LM, ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

  1. É p/ se ver como a UE funciona. MISERIA. Chegamos a conclusão que é só p/ TACHOS politicos… quando é p/ tomar atitudes ficaram todos aos bonés. INCOMPETENTES

  2. E quando é que os nossos políticos nos dizem quanto estamos a pagar para CEE manter os tachos políticos, ou os portugueses pensam que estarmos na CEE pelos nossos olhos? dizem quando dinheiro vem da CEE mas não dizem e quanto pagamos para manter a fantochada de CEE

  3. Uma desUnião Europeia posta à prova, corrompida e submissa ao poder chinês por todos os lados, o pedido caiu em vão porque estavam todos na mesma situação, ou seja, dependentes da China ao mais pequeno pormenor, caso de luvas e máscaras por exemplo, resultado de uma globalização selvagem sem o mínimo respeito pelo cidadão europeu e seus direitos, agora alguns já vão dizendo que é necessário mudar, vamos ver se aprendem a lição! Deveria haver era banco de réus para os principais responsáveis de tal abuso.

  4. Eu sempre disse que a UE é uma farsa.Foi inventada para controlar e roubar os povos.O pior é que têm a pouca vergonha de criticar os governos Europeus antes do fatídico acordo.Vamos pagar bem caro esta farsa e falsa democracia.

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