Fernando Ulrich lança farpas em todas as direções

Manuel de Almeida / Lusa

Fernando Ulrich, presidente do Banco BPI

O presidente executivo do BPI, Fernando Ulrich, disse esta terça-feira no Parlamento que o aumento de capital de cerca de mil milhões de euros do Banco Espírito Santo (BES) em 2014 “nunca devia ter acontecido”.

“Penso que esse aumento de capital não devia ter existido. Ponto. É a minha posição por aquilo que sei e sabia na altura”, vincou o banqueiro na comissão parlamentar de inquérito à gestão do BES e do Grupo Espírito Santo (GES).

Antes, o presidente do BPI havia dito que o Banco de Portugal devia ter atuado “com mais força” e “mais cedo”, mas admitiu que “à segunda-feira, depois de o jogo já ter ocorrido”, é mais fácil fazer este tipo de análises.

No entanto, Fernando Ulrich acrescenta: “Eu não consigo aceitar que isto foi tudo ao lado do Governo e que foi o Banco de Portugal (BdP) que fez tudo sozinho”.

O presidente do BPI disse ainda estar “à vontade”, pois quando era altura para criticar [o BdP], também o fez, mas acrescentou: “Não estou disponível para dizer que a culpa é toda do BdP e mais ninguém tem nada a ver com isso”.

“É a minha visão holística do conjunto desta situação: não é possível excluir o Governo de toda esta situação. Lamento, mas entendo que as responsabilidades são mais vastas”, sublinhou ainda Ulrich durante a sua audição na comissão parlamentar de inquérito ao caso BES/GES.

O presidente do BPI afirmou ainda não compreender porque é que o Banco Central Europeu (BCE) não deu mais tempo para o BES cumprir os rácios mínimos de capital.

Ulrich está a ser ouvido pelos deputados desde cerca das 9h e pelas 13h ainda respondia ao bloco de perguntas do CDS-PP, o último dos partidos a intervir na sessão desta manhã.

De tarde, com começo previsto para as 15h, será escutado na comissão de inquérito o vice-primeiro-ministro, Paulo Portas.

Ulrich “surpreendido” pela falta de atuação da família Espírito Santo

O presidente do Banco BPI ficou surpreendido com o facto de a família Espírito Santo não ter agido a tempo de salvar o GES, cujos problemas levaram ao colapso do BES.

“Fiquei surpreendido porque eu parto do princípio que todos temos instinto de sobrevivência, quer a nível pessoal, quer a nível empresarial, e o instinto de preservação. Fiquei surpreendido por não terem atuado a tempo”, afirmou o responsável durante a audição na comissão parlamentar de inquérito.

“Houve um ponto sem retorno. Faz-me muita impressão que pessoas muito experientes não tenham defendido o seu próprio interesse a tempo de salvaguardarem o seu próprio interesse”, sublinhou.

E realçou: “Havia um momento em que era preciso parar, negociar com os credores e admitir que a situação não era tão boa como parecia“.

Segundo Ulrich, num caso destes, “é preciso atitude, além de conhecimentos técnicos”.

Daí, defendeu que era necessário “dizer primeiro aos pares, depois aos supervisores e depois ao mundo que a situação não é tão boa como parece”.

Caso tal tivesse acontecido, “provavelmente não tinham perdido tudo”, frisou.

“A maneira de ter evitado que isto acontecesse era saber que havia um momento em que era preciso arrepiar caminho e encarar os problemas de frente”, reforçou o gestor.

Questionado sobre o momento em que tomou conhecimento da situação que vivia o GES, Ulrich disse que se foi apercebendo à medida que os problemas iam sendo conhecidos.

“Fui sabendo ao longo do tempo, mas a visão completa tive-a ao mesmo tempo que a senhora deputada, através dos comunicados que o regulador e o banco divulgaram”, afirmou em resposta à deputada do PSD Clara Marques Guedes.

“Foi um processo gradual ao longo do tempo. Não houve um momento revelação em que apareceu a verdade toda de repente”, salientou Ulrich.

“Estão a jogar à roleta com a estabilidade do sistema financeiro português”

Fernando Ulrich, criticou ainda veementemente a solução adotada para intervir no BES, considerando que é “imprudente” e que compromete a estabilidade do sistema financeiro português.

“Estão a jogar à roleta com a estabilidade do sistema financeiro português”, lançou o gestor durante a sua audição na comissão parlamentar de inquérito ao caso BES/GES, realçando que o modelo de resolução adotado “nunca foi adotado em lado nenhum” para uma entidade da dimensão do BES.

Mesmo reconhecendo que a resolução aplicada ao BES “é a solução que melhor protege os contribuintes”, apesar da exposição que têm na qualidade de acionistas do banco público, a Caixa Geral de Depósitos (CGD), Ulrich insistiu que “a solução foi imprudente da forma como foi construída”.

O responsável considerou injusto que tenham que ser os bancos que eram concorrentes do BES a pagar o seu colapso, através do Fundo de Resolução.

E ilustrou: “Acha normal que o PS vá à falência e as dívidas do PS sejam pagas pelo PSD, pelo BE e pelo PCP”.

Ulrich, que respondia às questões colocadas por Clara Marques Mendes, deputada do PSD, defendeu que a medida de resolução “devia ter sido balanceada com outras componentes”.

Insistindo que, na sua opinião, a resolução “não foi a melhor solução” e que “a solução podia ter uma componente de resolução como foi feita, mas não a única”, o presidente do BPI disse que quanto mais tempo passa, mais convencido está desta ideia.

“Recuso em absoluto que era a única solução. Sobretudo, porque houve muito tempo. O fim de semana de 03 de agosto tem 48 horas, mas quem disse aqui como eu disse que provavelmente nos finais de 2013 já não havia soluções boas [para o Grupo Espírito Santo] e que a situação vem pelo menos de 2011 e, no caso do BESA [BES Angola] desde 2009, não aceito a tese que não havia outra maneira e que tinha que ser assim”, vincou.

“Banco que não precisava de capital público estoirou e troika não percebeu”

O presidente do Conselho de Administração do BPI foi também crítico para com a atuação da Troika no que refere ao BES, lamentando em concreto a atuação do Banco Central Europeu (BCE).

“O banco que não precisava de capital público estoirou e a Troika não percebeu”, declarou Ulrich na comissão parlamentar de inquérito.

O banqueiro falou depois do BCE: “Causa-me alguma perplexidade por que é que o BCE terá sido tão violento com o BES e anda com os bancos gregos ao colo. Por que é que foi tão duro e exigente com o BES?“, questionou.

E acrescentou ainda: “Faz-me alguma confusão como foi possível um tratamento tão violento para um dos principais bancos do país maravilha dos programas da Troika. Troika essa da qual fazia parte o BCE e que não percebeu nada do que se passava no BES ao longo de três anos”.

O presidente do Banco BPI revelou que ainda espera pela explicação de Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, sobre a posição assumida por Frankfurt sobre o BES, que acabou por precipitar o colapso do banco.

“Gostava de ver a posição do BCE documentada e explicada por Mario Draghi”, afirmou.

“Eu não sei qual foi a posição adotada pelo BCE” sobre o BES, reforçou Ulrich, o que levou o deputado do PSD Fernando Negrão, que preside os trabalhos desta comissão, a realçar que foram enviadas as questões dos vários grupos parlamentares para o líder do BCE e que se aguarda a chegada das respostas.

“Naquele momento [o fim de semana de 2 e 3 de agosto que se seguiu à apresentação de prejuízos semestrais históricos por parte do BES], o BCE podia ter dado tempo“, lançou.

Isto, “em vez de surgir esta situação de que se não acontecesse nada naquele fim de semana, [o BES] perdia estatuto de contraparte”, acrescentou Ulrich.

E realçou: “Aliás, a regra normal quando um banco fica com os rácios de capital abaixo do exigido – como é o caso dos recentes exames do BCE à banca europeia – teria um prazo de x ou y para apresentar um plano para garantir que cumpriam os rácios“.

Ulrich sublinhou que “há bancos, até em Portugal, que estiveram algum tempo sem cumprir os rácios mínimos de capital e tiveram tempo para isso”.

O gestor insistiu que não compreende “porque é que isso não foi possível na altura” para o BES.

“Podia-se ter feito, nem que fosse parcialmente, a utilização da linha de recapitalização pública. Podia-se ter feito como em Chipre, onde os grandes clientes foram chamados a partilhar parte dos prejuízos”, sugeriu.

“A lei na altura não permitia isso, mas também houve leis que mudaram num fim de semana”, vincou, salientando que não estava a falar de “afetar os pequenos aforradores” numa intervenção deste género.

O presidente do BPI voltou a defender que devia ter sido usado um “modelo de resolução do BES mais parecido com o Chipre do que esta solução que foi adotada em Portugal”.

Isso permitiria fazer as “repartições de perdas de outra maneira”, assegurou.

E concluiu: “Recuso a ideia que isto [a aplicação exclusiva da medida de resolução] era uma fatalidade e não podia ter sido feito de outra maneira”.

A comissão de inquérito teve a primeira audição a 17 de novembro passado e tinha inicialmente um prazo total de 120 dias, até 19 de fevereiro, que foi prolongado por mais 60 dias.

Os trabalhos dos parlamentares têm por objetivo “apurar as práticas da anterior gestão do BES, o papel dos auditores externos e as relações entre o BES e o conjunto de entidades integrantes do universo do GES, designadamente os métodos e veículos utilizados pelo BES para financiar essas entidades”.

/Lusa

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4 COMENTÁRIOS

  1. Essas “pessoas muito experientes” da família ES salvaguardaram os seus interesses pessoais desviando fundos ao longo de anos até levar ao colapso do seu império.

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