“Falha humana” explica a tragédia de Pedrógão Grande

(dr) António Cotrim

Falhas graves no comando de operações da Protecção Civil, no combate inicial ao incêndio e na prevenção, contribuíram directamente para as trágicas mortes de 64 pessoas no incêndio de Pedrógão Grande, concluem os peritos que analisaram a resposta dos meios de socorro aos fogos de Junho, na região Centro.

Um alerta precoce poderia ter evitado a maioria das 64 mortes registadas no incêndio que começou a 17 de Junho em Pedrógão Grande, conclui o relatório da Comissão Técnica Independente que foi divulgado nesta quinta-feira.

“Esta ausência de alerta precoce, por não ter sido feita a leitura do incêndio às 18:00 (e mesmo antes), não permitiu impedir a maioria das fatalidades”, aponta-se no item intitulado “O que poderia ter sido diferente” do relatório que foi entregue no Parlamento, nesta quinta-feira.

O presidente da Comissão Técnica Independente conclui, assim, que houve “falha humana” na forma como o comando de operações respondeu às circunstâncias, conforme cita a TSF.

Duras críticas à Protecção Civil

O relatório constata que poderiam ter sido tomadas medidas nas primeiras horas do combate ao fogo, para evitar consequências mais graves. Este trabalho de antecipação, acrescenta a Comissão, “deveria ter sido feito no seio do comando e planeamento desta operação de socorro e deveria ter resultado na mobilização dos meios necessários, incluindo a GNR, para evitar que se tivesse verificado uma fuga para a morte, tal como veio a acontecer”.

“Tal trabalho de antecipação só poderia ter sido feito com o apoio de analistas de incêndios e de meteorologistas especializados, que permitisse uma adequada avaliação da situação em tempo real”, constata o relatório. Mas “a verdade é que nenhuma destas competências existe na Autoridade Nacional de Protecção Civil, apesar da enorme gravidade e frequência dos incêndios em Portugal”, realça o documento.

Aldeias deveriam ter sido evacuadas até às 16 horas

O relatório diz também que, uma vez que as mortes na Estrada Nacional (EN) 236-1 ocorreram na sequência da fuga a partir das aldeias localizadas a Este desta via, “poderia ter-se colocado a hipótese de proceder ao corte das estradas de acesso à EN 236-1”, o que teria um desfecho “provavelmente ainda pior, pois teria eventualmente implicado a ocorrência de mais vítimas, incluindo os próprios agentes da autoridade”.

“Excluída esta hipótese, duas medidas poderiam no entanto ter sido tomadas, ambas dependentes de informação que a GNR não dispunha. Poderia ter sido ordenada a evacuação atempada das aldeias ameaçadas ou poderiam ter sido tomadas medidas para que as pessoas não saíssem de casa”, descreve a Comissão.

“Se o comando, na altura apropriada, entre as 15 horas e as 16 horas, pudesse ter tido uma actuação para sensibilizar a população e dar instruções de evacuação ou, pelo menos, para não saírem de casa, provavelmente os dramas que aconteceram não teriam acontecido“, sublinhou o presidente da Comissão, João Guerreiro, após ter entregue o relatório no Parlamento.

Qualquer uma destas decisões deveria, segundo os peritos da Comissão, ter resultado de “uma análise adequada da situação, de modo a prever o comportamento potencial do incêndio iniciado há mais de cinco horas”, conclui o relatório.

Descarga eléctrica em Pedrógão Grande e raio em Góis

O relatório da Comissão constata que “os incêndios de Pedrógão Grande (28.914 hectares) e Góis (17.521 hectares), o segundo e o oitavo maiores de sempre desde que há registos, foram causados, respectivamente, por descargas eléctricas mediadas pele rede de distribuição de energia e por raio”.

“O incêndio de Pedrógão Grande […] é muito provavelmente aquele que, em Portugal, libertou mais energia e o fez mais rapidamente (com um máximo de 4.459 hectares ardidos numa só hora), exibindo fenómenos extremos de vorticidade e de projecção de material incandescente a curta e a longa distância”, sintetiza o relatório.

Como causas para as particularidades únicas destes fogos com consequências desastrosas, além de eventos naturais imprevistos, a Comissão refere “o adiantado estado de secura da vegetação“, “a grande instabilidade da atmosfera e o seu perfil de humidade” e “o efeito da frente de rajada na velocidade de propagação, intensidade frontal e capacidade do incêndio para gerar focos secundários”.

ZAP // Lusa

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2 COMENTÁRIOS

  1. Portanto a falha foi “humana” mas depois ““Tal trabalho de antecipação só poderia ter sido feito com o apoio de analistas de incêndios e de meteorologistas especializados, … Mas “a verdade é que nenhuma destas competências existe na Autoridade Nacional de Protecção Civil,”
    Ou seja a culpa é dos humanos que não trabalham na Autoridade Nacional de Protecção Civil. E assim vai o jornalismo português

    • Não, a culpa é dos “humanos” que não conseguiram fugir do fogo!!
      Eles é que erram nas escolhas da fuga, daí o “erro humano”.

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