“Estão a matar pessoas lá fora”: o relato de portugueses em Barcelona

David Armengou / EPA

Segundo um novo balanço divulgado pelo Governo da Catalunha, o ataque ocorrido hoje provocou pelo menos 13 mortos e mais 50 feridos.

A frase da mulher não lhe sai da cabeça: “Estão a matar pessoas lá fora”. Depois de assistir ao pós-atentado de quinta-feira em Barcelona desde o quarto de hotel, Jorge Humberto Bastos sente que está “a acordar de um pesadelo”.

Jorge e a mulher, Sofia Silva, estão de férias em Barcelona desde terça-feira. Na quinta-feira, depois de passarem pelo mercado de La Boqueria, junto às Ramblas, decidiram escapar ao calor intenso no quarto do hotel, cuja varanda dá para o mosaico de Joan Miró, precisamente no meio de uma das mais movimentadas vias da cidade.

Algum tempo depois, já vestidos para irem à praia, Sofia ouviu gritos e foi ver o que se passava. “Não me esqueço das palavras dela: ‘Jorge, estão a matar pessoas lá fora‘”, contou hoje Jorge à Lusa, no meio das Ramblas.

Passava pouco das 17 horas e a furgoneta branca que acabara de percorrer metade das Ramblas, atropelando todos os que se encontravam pelo caminho – matou 13 pessoas e feriu mais de uma centena – estava parada a 20 metros da varanda onde Sofia e Jorge olhavam, em choque.

Sofia recorda os gritos. “Pela forma como as pessoas gritavam, percebemos logo que era grave. Estava meia dúzia de pessoas no chão, pessoas já a receberem primeiros socorros. Gente a correr, gente aos gritos”, lembra Jorge.

Num curto espaço de tempo, conta o locutor de rádio, de Vila Nova de Famalicão, a polícia já tinha cercado a zona, feito perímetros de segurança e encerrado a rua lateral por onde supostamente terá fugido o suspeito.

“A sensação com que ficamos é de que isto não está a acontecer, porque nós pensamos que estas coisas acontecem, mas a nós não, tão perto não. Até porque quando chegámos aqui vimos tanta polícia na rua que ficámos com a sensação de que se calhar estávamos num dos locais mais seguros do mundo”, observa Jorge.

Ambos recordam a tarde de quinta-feira como “um cenário de horror, uma coisa que uma pessoa nunca espera ver. Passado algum tempo, parece que estamos a acordar de um pesadelo”, admite Jorge Bastos.

Sofia e o marido admitem, no entanto, que tiveram sorte, porque momentos antes haviam atravessado a Rambla precisamente na zona onde ficaram os corpos, durante várias horas, até serem retirados pelas autoridades.

Além disso, estavam já a preparar-se para sair novamente: “Estávamos vestidos para sair para a praia, foi uma coisa de cinco ou dez minutos. Estou todo arrepiado. Ontem foi, quiçá, um dos dias de mais sorte que já tivemos“, disse Jorge, depois de saber pela Lusa que uma portuguesa morreu no ataque e uma outra está desaparecida.

Apesar do choque, e depois de terem ficado retidos no interior do hotel desde as 17 horas de quinta-feira, Sofia e Jorge saíram hoje novamente à rua, percorreram a Rambla a ver os memoriais improvisados um pouco ao longo de toda a avenida, e participaram no minuto de silêncio na Praça da Catalunha.

“A vida continua. As lojas estão abertas, as pessoas já estão na esplanada, o que é também um pouco chocante”, disse o turista. Jorge e Sofia confessam que ficam, depois de tudo o que viveram, “com uma ligação muito forte a Barcelona. Vamos voltar”, prometem.

O ataque ocorreu pelas 17 horas locais (16:00 em Lisboa) de quinta-feira e foi reivindicado pelo grupo terrorista Estado Islâmico.

A polícia catalã já deteve quatro suspeitos de envolvimento no ataque. Na operação policial montada a seguir ao atentado, foram mortos pelo menos quatro supostos terroristas em Cambrils, a 117 quilómetros de Barcelona, que estariam a preparar um outro atentado nessa localidade balnear.

// Lusa

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