Embaixador dos EUA em Kiev confirma chantagem de Trump para forçar investigação a filho de Joe Biden

Jim Lo Scalzo / EPA

O Presidente dos EUA, Donald Trump

O processo de impeachent a Donald Trump conheceu um testemunho que pode ser determinante. O embaixador dos Estados Unidos em Kiev, na Ucrânia, Bill Taylor, foi ouvido no Congresso norte-americano na terça-feira e apontou o dedo ao presidente dos EUA.

O diplomata alega que Trump ameaçou o presidente ucraniano com um corte na ajuda militar caso o Governo daquele país não reabrisse uma investigação ao filho de Joe Biden que dirigiu a energética ucraniana Burisma.

Interrogado pelos congressistas norte-americanos durante 10 horas, Bill Taylor, que foi nomeado para o cargo em junho, terá dito que desde cedo estranhou alguns entraves nas relações entre os dois países, segundo avança o jornal britânico The Guardian. “As nossas relações com a Ucrânia estavam a ser prejudicadas, quer por via de um canal informal e irregular coordenado por políticos dos EUA, quer pela retenção de ajuda militar e de securitária. Tudo por razões de política interna“, explicou o diplomata.

Ainda de acordo com as declarações, este canal informal seria coordenado por Trump através de vários emissários: o seu advogado pessoal, Rudy Giuliani; o ainda secretário de energia, Rick Perry; o embaixador dos EUA na União Europeia, Gordon Sondland; e ainda o diplomata norte-americano Kurt Volker.

De acordo com o Politico, o embaixador dos Estados Unidos na UE terá explicado a Bill Taylor a lógica por trás da estratégia. “Sondland disse-me que Trump é um homem de negócios e que, como tal, de cada vez que está prestes a assinar um cheque a alguém que lhe deve algo pede que essa pessoa lhe pague antes da assinatura do cheque“, afirmou.

“O embaixador Sondland disse-me que o presidente Trump lhe tinha dito que queria que o presidente Volodymyr Zelensky declarasse publicamente que a Ucrânia ia investigar a Burisma“, terá dito aos congressistas, segundo o The Washington Post.

O Presidente norte-americano foi acusado de pressionar o homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, a investigar o seu rival político e ex-vice-Presidente Joe Biden. Trump negou sempre.

Esta chamada, cuja transcrição foi revelada na última semana após a queixa de um denunciante, levou os democratas a darem início a um processo de impeachment presidencial. Na segunda-feira, o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, recebeu uma intimação relacionada com os seus contactos com as autoridades ucranianas.

Mais tarde, o Governo australiano confirmou que houve uma segunda chamada, em que Donald Trump pressionou o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, para que este o ajudasse a descredibilizar a investigação do procurador especial Robert Mueller. O governo australiano confirmou que a chamada aconteceu e que o primeiro-ministro concordou em ajudar.

A Casa Branca restringiu o acesso à transcrição da conversa telefónica entre o Presidente dos EUA e o primeiro-ministro da Austrália a um pequeno grupo de assessores. A decisão é invulgar mas semelhante à que foi tomada no caso da chamada com o Presidente da Ucrânia.

Trump compara processo de destituição a linchamento

A equiparação feita na terça-feira pelo Presidente norte-americano, o republicano Donald Trump, do processo de destituição que o visa a um linchamento suscitou várias manifestações de ultraje e indignação.

“Portanto, algum dia, se um democrata se tornar presidente e os republicanos ganharem a Câmara dos Representantes, mesmo por uma margem escassa, eles podem destituir o presidente sem o processo devido ou justo ou qualquer disposição legal. Todos os republicanos devem recordar o que estão a testemunhar aqui – um linchamento. Mas nós vamos GANHAR!”, escreveu Trump na rede social Twitter.

As expressões de afronta decorreram da comparação dos horrores de um capítulo racista e mortífero da história dos EUA a um processo parlamentar consagrado na Constituição norte-americana.

“Esta é uma palavra que nenhum presidente deve aplicar a si próprio“, afirmou o democrata James Clyburn, eleito pelo Estado da Carolina do Sul para a Câmara dos Representantes, que é o afro-americano de estatuto mais elevado no Congresso dos EUA. “Esta é uma palavra que devemos ser muito, muito cautelosos na sua utilização”, acentuou.

Outro congressista democrata, Bobby Rush, eleito pelo Ilinóis, que também é negro, pediu a Trump que apagasse a sua mensagem na rede social Twitter, com aquela comparação. “O senhor sabe quantas pessoas iguais a mim foram linchadas, desde o começo deste país, por pessoas parecidas consigo? Apague esse ‘tweet'”, escreveu.

O senador democrata Doug Jones, eleito pelo Alabama, reagiu à mensagem de Trump: “Não, senhor! Não @realDonaldTrump: isto não é um linchamento e você deve ter vergonha de invocar um ato tão horroroso que foi usado como arma para aterrorizar e assassinar afro-americanos”.

Congressistas republicanos procuraram mudar o foco da discussão para a forma como os democratas estão a conduzir o processo, que consideram injusta.

Assim, o senador Lindsey Graham, eleito pela Carolina do Sul, considerou a descrição de Trump como “muito fiel” e o processo uma “vergonha” e uma “anedota”, porque o presidente desconhece a identidade do seu acusador e o processo está a decorrer em privado. “Isto é um linchamento em todos os sentidos”, disse Graham, que é próximo de Trump.

O único senador negro republicano, Tim Scott, da Carolina do Sul, concordou com a disposição de Trump, mas não com a sua escolha de palavras. “Não se discute que o processo de destituição é a coisa mais próxima de um julgamento para corredor da morte, pelo que entendo a sua rejeição absoluta do processo”, afirmou Scott, que acrescentou: “Eu não usaria a palavra linchamento“.

Também o líder da minoria republicana na Câmara dos Representantes, Kevin McCarthy, eleito pela Califórnia, que também é próximo de Trump, considerou igualmente que “linchamento” não seria “a linguagem que usaria“.

Os linchamentos, por hábito enforcamentos, foram feitos predominantemente por homens brancos contra homens negros, na sua maioria no sul dos EUA, desde o final do século XIX, por entre crescentes tensões raciais. Ao comparar a sua eventual destituição a um linchamento, Trump está também a comparar os democratas a uma multidão que procura linchar alguém.

Malinda Edwards, cujo pai foi linchado por membros do Ku Klux Klan (KKK), no Alabama, em 1957, considerou “inacreditável” o ‘tweet’ de Trump. “Ou ele é muito ignorante ou muito insensível ou muito racista e apenas não quer saber”, disse Edwards, de 66 anos, natural de Dayton, no Ohio. O seu pai, Willie Edwards Jr., foi obrigado a saltar de uma ponte de rio por membros do KKK que ouviram dizer que ele tinha sorrido para uma mulher branca. O nome de Edwards está agora entre os constantes de um memorial em Montgomery que homenageia mais de quatro mil vítimas de linchamento.

ZAP // Lusa

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