Pais preocupados. Distanciamento entre alunos nas salas “não vai ser respeitado”

Manuel de Almeida / Lusa

“Os dois metros não vão ser respeitados de todo. Não vão, não”, diz o presidente de um dos maiores agrupamentos de escolas do país, referindo-se ao espaçamento mínimo de um metro entre alunos nas salas de aula.

O próximo ano letivo arranca entre 14 e 17 de setembro com a retoma das aulas presenciais em plena pandemia da covid-19, que obrigou as escolas a reorganizarem-se e a adotarem um conjunto de regras de segurança para minimizar o risco de contágio.

As normas da Direção-Geral da Saúde (DGS) impõe um espaçamento mínimo de um metro entre alunos nas salas de aula. O presidente de um dos maiores agrupamentos de escolas do país, o Agrupamento Pioneiros da Aviação Portuguesa, defende que o tamanho das turmas e das salas não permite cumprir este distanciamento.

“Os dois metros não vão ser respeitados de todo. Não vão, não”, atira Francisco Marques em declarações à Rádio Renascença. “Vão ver as nossas salas, há escolas no país como as nossas. Vamos ter a distância que for possível”.

Na escola EB 2/3 Roque Gameiro, na Amadora, as salas daquela escola têm em média 40 metros quadrados e as turmas têm entre 26 e 28 alunos.

A impossibilidade em cumprir o distanciamento é confirmada pelo próprio diretor da escola, Mário Patrício: “É totalmente impossível. É como vê, nós tentamos jogar com o espaço, mas…”.

Para o líder do Agrupamento Pioneiros da Aviação Portuguesa, o ideal seria um regime misto, em que metade dos alunos estaria em casa e a outra metade nas escolas, com rotações semanais.

“Se nos têm dado a possibilidade de um regime misto, poderia fazer o desdobramento das turmas, e o agrupamento apetrechou-se nesse sentido. Comprámos 120 webcams para ter em cada sala do agrupamento uma câmara”, diz Francisco Marques à Renascença.

Ano letivo vai ser “totalmente diferente”

O presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP) disse esta sexta-feira que o próximo ano letivo vai ser “totalmente diferente”, mas as escolas estão preparadas para reabertura com expectativa positiva.

“A escola, este ano letivo, é uma escola totalmente diferente da escola do ano passado e os alunos vão sentir essa diferença”, disse Filinto Lima à Lusa, sublinhando que as instituições estão preparadas para voltar a receber os estudantes.

“Estamos há meses a preparar o ano letivo, como fazemos normalmente, mas este ano com um encargo adicional relativo à segurança”, explicando, assegurando que, apesar do desafio, as escolas estão preparadas.

O representante dos diretores escolares admite que o futuro é incerto, mas está confiante que a abertura vai decorrer de forma muito positiva.

Além das regras de seguranças definidas pela Direção-Geral da Saúde e pelo Ministério da Educação, que preveem, por exemplo, a utilização obrigatória de máscaras, a definição de circuitos de circulação ou a higienização dos espaços, o próprio funcionamento das escolas vai ser diferente.

Desde horários alargados e desfasados à organização das turmas em “bolhas” para minimizar contacto entre alunos, são várias as mudanças que os alunos vão encontrar no primeiro dia e, por isso, as escolas vão aproveitar a habitual receção aos pais para explicar as novidades.

“Também vai haver uma grande sensibilização para que os próprios pais também expliquem aos alunos que o comportamento vai ter de ser diferente do normal, porque este ano vamos exigir mais dos nossos alunos do que nos anos anteriores”, referiu.

Apesar da expectativa positiva dos diretores em relação ao arranque do ano letivo, a reabertura das escolas poderá ficar marcada por uma greve de docentes e funcionários convocada pelo Sindicato de Todos os Professores (STOP).

Filinto Lima olha com preocupação essa possibilidade, defendendo que “não ajudará nada à acalmia e à paz que nós queremos ter nas escolas”.

“Eu respeito o direito à greve, mas nós já temos problemas suficientes”, afirmou, referindo-se ao contexto geral da pandemia da Covid-19.

O coordenador nacional do STOP explicou à Lusa que a greve marcada para os dias 14 a 17 de setembro se destina, sobretudo, aos “profissionais de educação que estejam nas escolas onde, manifestamente, considerem que não há condições “.

Do lado dos diretores escolares, a presidente da ANDAEP compreende a apreensão dos docentes, mas sublinha que a confiança dos professores tende a aumentar depois de estarem na escola.

“Os professores, à medida que vão à escola e percebem como estamos a reorganizar a escola e que estamos a adotar todas as medidas de segurança, estão a ganhar confiança e esse medo desvanece”, explicou.

No próximo ano letivo, o ensino presencial será o regime regra e o encerramento de escolas, que em meados de maior aconteceu em todo o país, será uma medida de último recurso.

“Tomara eu que pudéssemos manter o ensino presencial durante todo o ano, mas isso será muito difícil”, admitiu Filinto Lima, assegurando, no entanto, que se for necessário recorrer ao ensino misto ou não presencial devido à pandemia, as escolas também estão preparadas para esse cenário.

Oposição aponta atrasos na preparação do ano letivo

Os partidos da oposição, da esquerda à direita, foram esta quinta-feira unânimes em apontar atrasos ao Ministério da Educação na preparação do ano letivo, com o Governo a garantir ter enviado no início de julho orientações a todas as escolas.

Num debate sobre “O bom funcionamento das escolas no próximo ano letivo”, pedido pelo PSD, na Comissão Permanente da Assembleia da República — órgão que substitui o plenário do parlamento durante as férias —, foi o deputado social-democrata Luís Leite Ramos a dar o mote.

“O Governo planeou tarde o ano letivo e tem andado sempre atrasado na concretização de várias medidas indispensáveis ao bom funcionamento nas escolas”, criticou, acusando ainda o executivo de ter passado informação para as escolas pouco clara e “a conta-gotas”, num ano marcado pela pandemia de Covid-19 e que forçou a quase totalidade dos alunos ao ensino à distância desde meados de março.

Para o PSD, o Ministério da Educação recorreu à “velha receita de empurrar para as escolas soluções de difícil operacionalização sem lhes confiar os instrumentos e recursos imprescindíveis”, críticas repetidas por todas as bancadas, à exceção das do PS e do Governo.

“É falso que tenhamos chegado tarde, há desde dia 3 de julho orientações das escolas”, assegurou o secretário de Estado Adjunto e da Educação, João Costa, precisando que essa informação versou matérias como a organização de espaço e de turmas, a recuperação de aprendizagem ou os modelos de transição para outros formatos em caso de necessidade.

João Costa saudou a “ideia consensual” entre os partidos de que é necessário regressar ao ensino presencial, mas frisou que “a capacidade física das escolas não dobra por milagre” e o número de profissionais não aumenta “por geração espontânea”.

Ainda assim, a secretária de Estado da Educação garantiu que existiu um reforço de meios, quer ao nível dos equipamentos de proteção individual, quer ao nível dos recursos humanos.

“Contrariamente ao que foi dito, planeámos cedo e reforçámos atempadamente. O défice de informação não existiu, a falta de planeamento e de organização não existiu”, disse Susana Amador.

ZAP ZAP // Lusa

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2 COMENTÁRIOS

  1. As escolas que se veem na televisão durante as visitas dos governantes são escolhidas entre as que têm condições, tipo carteiras individuais e salas espaçosas. Gostaria de ver os repórteres a visitar o Portugal profundo e mostrassem a realidade da maioria das escolas mas dificilmente saem de Lisboa, Porto e Cascais. Esse presidente da associação dos diretores deve ser mais um a fazer favores ao governo. Já agora, que expliquem como em Trás os Montes, Beira Alta e outros locais tencionam ter aulas com as janelas abertas durante o inverno. Nem no resto do País!…

  2. Propaganda socialista.
    Aqueles que mais se gabam são exactamente os mais medíocres, os capacitados sabem sempre que não são perfeitos, que falta isto e/ou aquilo, ou seja, raciocinam. Os medíocres auto promovem-se como se fossem excelentes.
    Existe algo que ainda não consigo entender, se os medíocres que se auto promovem se acham mesmo e sinceramente muito bons ou se não conseguem raciocinar o suficiente sobre os assuntos, sendo demasiado básicos e simplistas. Seja como for, qualquer das duas hipóteses é preocupante porque muitos acabam por ir para a política, e gente dessa a decidir pelos outros… não tem dado grandes resultados.

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