Centeno deixa aviso à Zona Euro. Futuro da UE depende da resposta que der à pandemia

André Kosters / Lusa

O ministro das Finanças, Mário Centeno

Mário Centeno escreveu aos ministros das Finanças da Zona Euro para os alertar que o futuro da União Europeia depende da forma como conseguir lidar com a crise económica devida à pandemia de Covid-19. Uma posição em prol do caminho dos coronabonds a que a própria presidente da Comissão Europeia se opõe.

Ursula von der Leyen, Charles Michel, Mário Centeno e Christine Lagarde, respectivamente presidentes da Comissão Europeia, do Conselho Europeu (CE), do Eurogrupo e do Banco Central Europeu, reuniram-se, nesta terça-feira, por video-conferência para estudar uma resposta conjunta para lidar com o impacto económico da pandemia de Covid-19.

No encontro ficou decidido elaborar um Plano de Acção para fazer face à crise, como se salienta no comunicado do CE divulgado após a reunião.

“Uma estratégia de saída coordenada, um plano de recuperação compreensivo e um investimento sem precedentes são necessários”, aponta o documento depois de os líderes dos estados-membro da União Europeia (UE) terem falhado um consenso, na semana passada, na forma como ajudar os países mais afectados pela pandemia.

As divergências ficaram bem patentes após a posição do ministro holandês das Finanças, Wopke Hoekstra, ter sido considerada “repugnante” por António Costa, o primeiro-ministro de Portugal. O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, veio reforçar depois que “solidariedade não é dar dinheiro”.

Entretanto, Hoekstra fez um mea culpa, em jeito de um pedido de desculpas, e até apelou à “solidariedade”, mas isso não significa que a posição política da Holanda mudou.

A própria Von der Leyen veio colocar-se do lado do bloco de países que são contra os chamados coronabonds, o instrumento de dívida conjunta que é o ponto da discórdia. “A palavra coronabonds é apenas um slogan“, referiu a presidente da CE, falando da “questão mais ampla de garantias” e admitindo que “as preocupações na Alemanha, mas também em outros países, são justificadas”.

A Alemanha também se opõe aos coronabonds, tal como Holanda, Áustria e Finlândia, enquanto Portugal, Espanha, Itália e França são defensores deste apoio.

Numa altura em que impera a divisão, Mário Centeno vem colocar os pontos nos is e lembra aos ministros das Finanças da Zona Euro que a forma como a UE lidar com esta crise pode determinar a sua própria sobrevivência.

“A maneira como lidamos com esse fardo comum determinará a nossa capacidade de conter a doença, bem como a forma e a extensão da recuperação e, finalmente, a coesão da Área do Euro”, alerta Centeno numa carta enviada aos ministros das Finanças da Zona Euro enquanto presidente do Eurogrupo.

Na carta que é divulgada pela TSF e pelo Diário de Notícias, Centeno lembra que toda a Europa sairá “com níveis de dívida muito maiores”, mas “esse efeito e as suas consequências duradouras” não devem tornar-se numa “fonte de fragmentação”, sublinha.

O ministro das Finanças português defende, assim, que é preciso explorar “formas de usar os instrumentos existentes”, mas também “devem ser consideradas alternativas, onde as primeiras se revelam inadequadas”. Apesar de nunca falar nos coronabonds, é evidente que este instrumento de dívida conjunta, garantida por todos os estados-membros, é uma dessas alternativas.

Centeno deixa, assim, o apelo a que se encontre “um terreno comum” para dar a melhor resposta ao “choque colossal” que o “o custo orçamental” da pandemia terá nos orçamentos dos estados-membros da UE, nomeadamente para “melhorar os sistemas de saúde, fornecer liquidez às empresas” e “substituir rendimento dos trabalhadores demitidos”.

Na reunião de terça-feira, o CE desafiou o Eurogrupo a apresentar propostas “dentro de duas semanas”. Centeno volta a reunir o Eurogrupo no próximo dia 7 de Abril, em mais uma video-conferência, e avisa já que “propostas diferentes devem ser consideradas em conjunto”.

“A única via em frente é uma estratégia comum num espírito de solidariedade“, reforça Charles Michel citado no comunicado do CE. “Para impulsionar a economia europeia, teremos que usar todos os níveis disponíveis, a nível europeu e nacional”, diz ainda o presidente do CE, alertando que o “orçamento da UE terá que ser adaptado a esta crise”.

“É tempo de pensar fora da caixa”, alerta também Charles Michel, sublinhando que “qualquer opção compatível com o Tratado da UE deve ser considerada”.

Susana Valente SV, ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. De facto, os países que mais beneficiam da UE são os que estão contra os Euro corona bonds. Faz sentido, os lucros iriam entrar com um atraso.
    Uma acção conjunta dos paises do sul, mesmo com a França aparentemente em posição neutra, podia ser o bluff que o eixo centra precisa para se meter em sentido.
    Mas um bluff tem que tornar realidade se não ganhar

  2. Este vírus veio pôr à prova as debilidades da União, quer no estado em que nos puseram dependentes dos chineses, quer na dificuldade de se porem de acordo em casos cruciais tais como o que está a acontecer agora, sem tão pouco terem a modéstia até de reconhecerem perante toda a plateia europeia de que erraram redondamente na política que têm seguido em relação à protecção da nossa economia e do direito dos trabalhadores europeus. Irão ter certamente nos próximos tempos muitas explicações a dar e se teimarem em cada qual puxar para seu lado como até aqui provavelmente irão ser os coveiros da União.

  3. Caro “de mal a pior” já concordei consigo quando há dias vi o seu comentário, e volto a concordar hoje. Infelizmente estamos demasiado dependentes do exterior nomeadamente da China, e estamos muito limitados pela vontade de Bruxelas, até porque houve países da UE que tiveram grandes vantagens com a chamada globalização, dificultando de algum modo o desenvolvimento especialmente dos Países do Sul da Europa e agora estão a esquivar-se. Os casos das dificuldades criadas aos Países do Sul no principio da adesão são conhecidos e muitos e continuam, embora de algum modo dissimuladas.

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