Dinamarca e Alemanha ponderam atrasar segunda dose da vacina. “É preocupante”, diz Agência Europeia do Medicamento

Christian Bruna / EPA

A Alemanha e a Dinamarca ponderam seguir o plano do Reino Unido e adiar a administração da segunda dose da vacina contra a covid-19, à medida que a frustração com o lento progresso dos programas europeus de inoculação continua a crescer. A Agência Europeia do Medicamento diz que o intervalo entre as duas doses não deve ser alargado.

Na semana passada, o Reino Unido anunciou que iria dar prioridade à administração da primeira dose das vacinas Oxford/AstraZeneca ou Pfizer/BioNTech, de forma a permitir que mais pessoas fiquem protegidas mais cedo. Assim, a segunda dose só seria administrada 11 ou 12, em vez de três, semanas depois.

O ministro da saúde da Alemanha, Jens Spahn, considera essa uma boa abordagem e pediu esta segunda-feira à agência de controlo de doenças do país, o Robert Koch Institute, que investigasse o adiamento da segunda toma da vacina.

A medida, que surge depois de críticas generalizadas sobre o facto de o país – e também a União Europeia (UE) – não conseguir obter doses suficientes da vacina e ser incapaz de acelerar a campanha nacional de inoculação, foi recebida com entusiasmo pelos médicos, avança o jornal britânico The Guardian.

Leif Erik Sander, responsável pela investigação em vacinas do hospital Berlin’s Charité, disse: “Tendo em conta a atual escassez de vacinas e o número muito elevado de infeções e hospitalizações na Alemanha, uma estratégia em que tantas pessoas quanto possível sejam vacinadas o mais cedo possível é mais eficaz.”
Já na Dinamarca, o instituto de doenças infeciosas do país também anunciou esta segunda-feira que vai monitorizar de perto a situação no Reino Unido. O ministério da Saúde estará a considerar aumentar o intervalo entre a primeira e a segunda doses, para entre três a seis semanas.

Intervalo entre as duas doses não deve ser alargado

Face ao aumento de países que anunciam vontade de alargar o intervalo entre a administração das duas doses da vacina contra a covid-19 para várias semanas, em vez dos 21 dias estipulados, como forma de fazer com que a imunização chegue a mais pessoas, cientistas pensam que um intervalo maior entre as doses poderá ser sensato.

No entanto, a Agência Europeia do Medicamento (EMA) afirmou nesta segunda-feira que o intervalo máximo entre as duas doses da vacina não pode ultrapassar os 42 dias – ou seis semanas -, porque não há estudos que corroborem a sua eficácia.

Além disso, qualquer uso inadequado da vacina BioNtech/Pfizer (a única que recebeu aprovação da EMA até ao momento) será considerado off label, o que significa que a prescrição de um medicamento acontece fora do âmbito das indicações aprovadas para introdução no mercado e implica menores responsabilidades para os fabricantes.

Os estudos sobre a eficácia da vacina basearam-se na administração das duas doses com um intervalo de 19 a 42 dias e a proteção total só se dá ao 28.º dia, sete dias depois da dose de reforço, embora surja alguma imunidade – ainda que bastante incompleta – a partir do 12.º dia, disse a EMA.
“Qualquer alteração a este regime exigiria uma variante à autorização de comercialização, bem como mais dados clínicos que suportassem esta alteração” disse a comunicação da EMA.
Face às dificuldades de abastecimento – até ao fim de 2020, a BioNtech e a Pfizer tinham disponíveis menos de 50 mil vacinas para fornecer a todos os países que a aprovassem –, e ao aumento do número de casos de covid-19 e mortes, relacionados com o Inverno e a época de festas, a Alemanha tem vindo também a considerar a possibilidade de utilizar a vacina desta forma, alargado o intervalo entre as doses.

Para a empresa de biotecnologia alemã BioNtech e para a multinacional farmacêutica Pfizer, esta disposição de alguns governos para fazer render o medicamento, alterando a forma de toma, “é preocupante”.

“A segurança e eficácia da vacina não foi avaliada com diferentes calendários de administração das doses, pois a maioria dos participantes nos ensaios clínicos receberam a segunda dose no período especificado na conceção do estudo”, disse a BioNtech ao Financial Times, numa resposta oficial.

O CEO da empresa, Uğur Şahin, disse ainda que os problemas da Europa são em grande parte culpa de Bruxelas: a comissão assumiu que várias vacinas diferentes estariam prontas de uma vez, então não pediu doses suficientes.

Embora a aprovação da EMA para a vacina da Moderna, esperada esta semana, possa aliviar a situação, a escassez de vacinas levou a uma implementação lenta em todo o continente, causando frustração.

Ainda de acordo com a publicação britânica, especialistas afirmam que a escassez deve acabar no início da primavera e observam que o principal fator para as campanhas de vacinação serem bem sucedidas está relacionado com o número de cidadãos da UE vacinados até o final da primavera, e não com o número de indivíduos imunizados no início de janeiro.

De acordo com a Euronews, a Dinamarca foi o estado-membro da UE mais bem-sucedido uma semana após o início da vacinação, com uma taxa de vacinação de 0,78 por 100 habitantes.

A Alemanha (0,23 por 100 pessoas) está posicionada em segundo lugar e Croácia, Portugal, Itália e Polónia aparecem logo de seguida, com taxas que variam de 0,19 a 0,13.

Áustria, Bulgária e Roménia apresentam uma taxa de 0,07 e a Holanda só começará a vacinar a 8 de janeiro.

Sofia Teixeira Santos, ZAP //

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13 COMENTÁRIOS

  1. Estes politicos de certeza querem que o Covid se mantenha e deitam milhões borda fora. Senão se administrar as vacinas conforme instruções dadas pelos laboratórios então não as deem. CAMBADA de Incompetentes. Tanta pressa p/ começar a dar as vacinas e afora travam a fundo? O Povo exige Explicações plausíveis e concretas. Afinal as vacinas tem credibilidade ou foi o golpe politico? Expliquem.

  2. Mais uma tentativa das grandes empresas farmacêuticas e os governos terem uma forma de “fuga” se a vacina falhar… Desta forma a culpa “morre solteira”!

  3. Sou uma pessoa da área da ciência e por isso não irei tomar a vacina (como também já não tomo a da gripe), em particular a da Pfeizer mas também a da Moderna (ambas baseadas em diferentes princípios dos usados no fabrico das vacinas tradicionais), que exigiriam muito mais tempo de testes e muitos mais testes dos que os realizados, até virem a ser autorizadas mesmo para uso de emergência. Para se fazer boa ciência (em particular nestas áreas do saber) é preciso tempo. Tempo de experimentação e de validação.
    São totalmente desconhecidos os seus efeitos secundários a médio e longo prazo e a capacidade de garantir as condições exigidas para o seu armazenamento, transporte até o destino final (em particular a da Pfeizer) duvidosa, pelo que teria sido aconselhável a Europa ter considerado eventualmente outras possíveis vacinas (mais tradicionais) que não necessitam das condições extremamente exigentes das atrás mencionadas e cujos efeitos secundários são na generalidade conhecidos.

    Dito isto já não é de espantar que os governos se considerem habilitados a alterar as condições de vacinação relativamente às prescritas, de acordo com as suas agendas! Não nos esqueçamos, que ainda mesmo antes de iniciadas as terceiras fases das vacinas da Pfeizer, da Moderna e da Astrozeneca, já a Europa tinha encomendado milhões destas vacinas e desembolsado milhões de Euros.

    Uma coisa é certa: DEVEREMOS continuar a obedecer rigorosamente às recomendações sanitárias em vigor, pelo menos mais um ano: máscara, desinfecção permanente das mãos e afastamento social. São económicas e ao alcance de todos. Até por respeito aos cuidadores de saúde, sem tréguas desde Março! Quanto às vacinas quem quiser que as tome, mas de preferência as mais tradicionais, mesmo que demorem mais tempo a chegar.
    Já agora será bom reforçar de forma cientificamente fundamentada e regular e em todos os meios de comunicação social a campanha de sensibilização da população relativa aos cuidados sanitários a ter. Será muito útil.

    • Agora reparo… “Pfeizer” já demonstra algum descuido, mas “Astrozeneca” é muito, muito bom!
      Deixe-se mas é de cenas “da área da ciência” e dedique-se antes a tentar acertar no nome das empresas farmacêuticas.

    • Gostava de conhecer estudos sérios dos efeitos scundários, físicos e psicológicos, do uso comunitário de máscaras até por crianças em desenvolvimento.
      E também quantos dos resultados positivos do PCR corresponde a vírus viáveis com capacidade de infeção.

    • Também eu sou médico e defendo exatamente o contrário. Até lhe digo que se é da área da saúde muito provavelmente esteve durante o seu curso, grande parte do tempo, distraída.
      Tudo tem um efeito secundário. Até um simples amendoim pode matar. Em tudo na vida existem, associados a cada opção, aspectos positivos e negativos. No caso das vacinas o ganho para a sociedade resultante do facto de todos nos vacinarmos (menos aqueles que obviamente têm uma qualquer contra-indicação) é muito superior à hipótese de uma grande parte da população não se vacinar. Como profissional de saúde sabe seguramente isto e não deveria vir aqui advogar o contrário. Não lhe fica bem, sobretudo tendo em conta o risco de uma economia já profundamente moribunda ser prolongada neste estado por um período de tempo superior, assim como os consequentes danos sociais totalmente irrecuperáveis.

      • Gostaria esclarecer que sou uma pessoa da ciência mas não sou médica nem sou da área da saúde. Nunca foi meu objectivo gerar entropia no sistema e muito menos advogar a não vacinação. No entanto como cidadã atenta, que procura informar-se e que possui alguns conhecimentos em áreas científicas conexas, consigo ajuizar de algumas decisões dos governos, que às vezes, nada têm a ver com o bem estar dos seus concidadãos.
        Por exemplo, não consigo perceber porque é que os profissionais e as autoridades de saúde que prestam serviço nos lares não providenciaram para que os utentes dos lares passassem a usar máscara, que passou a ser obrigatório a partir de Setembro em espaços fechados, mais ainda para quem está em contacto próximo com os profissionais de saúde que lhes prestam os cuidados e que podem transportar o vírus para o interior dos lares? Os responsáveis políticos não sabiam que na generalidade dos lares os utentes não usavam máscara, apenas os prestadores dos cuidados de saúde? Não admira que se tenha assistido a uma quantidade enorme de surtos e muitas mortes nestas residências. Não teria sido avisado os profissionais e as autoridades de saúde que assistem os lares terem vigiado de forma eficaz se a obrigatoriedade de utilização da máscara estava a ser cumprida, a par da realização regular dos testes que passaram a fazer? Provavelmente ter-se-iam evitado muitos surtos e mortes nos lares. Agora, após os surtos e para aqueles utentes que sobreviveram, é que a máscara passou finalmente a ser obrigatória. Mais vale tarde que nunca.

  4. Sra. Dra.?
    Se já não toma a da gripe, que tem muitos anos de experiência, não me admiro que não tome a da Covid19.
    Ainda bem, sobra uma para outra pessoa.

  5. Sr. Manel, a minha vacina ofereço a outra pessoa, de preferencia aos nossos Políticos menos sérios, assim desta forma já são duas, nem com um certificado de seguro,

  6. A questão é só esta: Um país com 10 M de pessoas precisa de encomendar 20 M de vacinas para proporcionar 95% de imunidade a toda a gente. Mas, se apenas for possível encomendar 10 M de vacinas num prazo relativamente curto, dá-se apenas uma dose a cada pessoa proporcionando 70% de imunidade. Vários cientistas consideram que este grau de imunidade é suficiente para se alcançar o grande objetivo da imunidade de grupo. A vacina da gripe, por exemplo, oferece 50% de imunidade e resulta muito bem. Qual é o problema, então? É que o tempo de imunidade com apenas uma dose é bastante curto (alguns meses, talvez cerca de três), o que pode fazer com que, ao fim desse tempo, o vírus regresse inutilizando, assim, todo o processo de vacinação.

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