Ameaça de conflito militar com a China está “em ascensão”, anuncia Taiwan

Ritchie B. Tongo / EPA

O ministro das Negócios Estrangeiros de Taiwan, Joseph Wu

A perspetiva de um confronto militar no Estreito de Taiwan está a aumentar, alertou na quarta-feira o ministro das Negócios Estrangeiros do país, Joseph Wu, que pede “extrema cautela” nas negociações com a China, descritas ao mesmo tempo como encorajadoras e inseguras.

Segundo noticiou o Washigton Post na quarta-feira, as forças armadas chinesas têm realizado um número cada vez maior de exercícios que simulam uma invasão a Taiwan, localizado a cerca de 130 quilómetros da costa leste da China, que o Governo deste país diz ser patrocinada, a nível militar e diplomático, pelos Estados Unidos (EUA).

O ritmo e a escalada das movimentações chinesas, bem como das forças marítimas e aéreas dos EUA, aumentaram nos últimos meses, à medida que as relações entre Pequim e Washington pioraram em várias frentes. Na quarta-feira, o Departamento de Estado norte-americano ordenou que a China encerrasse o seu consulado em Houston.

Esta semana, o secretário de Defesa Mark Esper disse que os EUA aumentarão o número de armas vendidas a Taiwan, como parte de um acordo de 10 mil milhões de dólares (cerca de 8,7 mil milhões de euros), aprovado pelo Congresso.

O responsável afirmou que as Forças Armadas dos EUA se reposicionariam na Ásia para preparar um confronto com os chineses, incluindo em Taiwan, que a China reivindica como território seu. O Governo chinês tem recebido pedidos constantes para invadir a ilha, algo que poderia reunificar a população e o reforçar o legado político de Xi Jinping.

Joseph Wu disse estar preocupado com o facto de a China ter realizado um número “sem precedentes” de exercícios marítimos e aéreos em torno de Taiwan em 2020, com o ritmo a subir para quase um por dia desde junho. “A ameaça está a aumentar”, notou.

O ministro indicou que as tensões no Estreito de Taiwan – uma das zonas mais militarizadas do mundo – podem continuar a aumentar à medida que a China enfrenta abrandamento económico, persistentes consequências da covid-19 e inundações.

Nos últimos meses, continuou, a China entrou em conflito com vizinhos no Mar do Sul da China, bem como com a Índia – devido ao território fronteiriço – e com países ocidentais – por causa de Hong Kong, onde o governo chinês aprovou uma lei de segurança nacional que cimentou o controle do Partido Comunista na Região Administrativa Especial.

“Um país costuma usar uma crise externa para mudar o foco doméstico”, disse Joseph Wu. “Se olharmos para as questões na periferia da China, veremos que, para a China, Taiwan seria um cordeiro sacrificial extremamente conveniente”, referiu.

Ao mesmo tempo, frisou o ministro, Taiwan não deve provocar a China através de medidas como a publicidade excessiva do seu apoio aos manifestantes de Hong Kong. “Precisamos ser extremamente cautelosos. Além de plena preparação militar, precisamos ter muito cuidado para evitar que Taiwan se torne numa desculpa para a China declarar guerra ou se envolver militarmente”, afirmou.

Embora a maioria dos analistas considere improvável uma guerra entre a China e os EUA, as declarações de Joseph Wu aumentaram o desconforto na Ásia, onde vários países, mais recentemente a Índia, manifestaram insatisfação perante a afirmação regional da China e alertaram sobre a possibilidade de sérios confrontos militares.

A China, por sua vez, tem acusado os EUA de alimentar as tensões através do aumento da atividade militar e da construção de uma coaligação, ao estilo da Guerra Fria, para conter o seu crescimento. Este mês, a Marinha dos EUA enviou dois porta-aviões para o Mar do Sul da China, dias antes de o Secretário de Estado Mike Pompeo declarar as reivindicações da China como “ilegais”.

csis_er / Flickr

Tsai Ing-wen, Presidente de Taiwan

Pequim também atacou a Presidente taiwanesa Tsai Ing-wen, que acusou de não reconhecer uma formulação diplomática de 1992, na qual Taiwan e o continente chinês eram declarados como parte de “uma China única”.

Num discurso em janeiro de 2019, Xi Jinping deu um ultimato a Taiwan para negociar a unificação ou então enfrentar a anexação pela força. Mas, como pré-condição para as negociações, o Govenro chinês exigiu que Tsai Ing-wen reconhecesse o princípio “uma China única”. Joseph Wu descartou a possibilidade de Taiwan entrar em negociações.

Legisladores pedem nova companhia aérea

Na quarta-feira, os legisladores de Taiwan pediram ao Governo para melhorar o “reconhecimento” internacional da ilha, através da alteração do nome da principal companhia aérea da ilha, a China Airlines, e do design dos passaportes, avançou o Wall Street Journal.

Os legisladores indicaram que o nome formal da ilha – República da China – pode levar os estrangeiros a confundir Taiwan com a China continental, particularmente em meio à pandemia de covid-19, que surgiu pela primeira vez na cidade chinesa de Wuhan.

Essa confusão, defenderam os legisladores, influenciou a entrega de assistência médica proveniente de Taiwan a outros países, enquanto cidadãos taiwaneses foram discriminados no estrangeiro por serem confundidos com cidadãos da China continental.

Um porta-voz do gabinete presidencial de Taiwan saudou a resolução sobre a alteração do nome da China Airlines e disse que o Governo anunciará medidas relevantes. O Ministério das dos Negócios Estrangeiros, por sua vez, informou que estudará formas de implementar a resolução sobre os passaportes.

Nos últimos anos, as autoridades chinesas advertiram empresas estrangeiras – incluindo companhias aéreas e redes de hotéis – por listarem Taiwan como um país independente nos seus sites, levando algumas dessas a identificar a ilha como parte da China.

As resoluções aprovadas na quarta-feira foram propostas pelo Partido Progressista Democrático, que defende uma identidade taiwanesa separada da China continental. Ambas foram aprovadas por unanimidade pelos 64 parlamentares. Legisladores do Partido Nacionalista, que defendem laços mais estreitos com Pequim, faltaram à votação.

Em abril, o ministro dos Transportes de Taiwan, Lin Chia-lung, demonstrou no Facebook abertura para alterar o nome da China Airlines – fundada em 1959 como empresa estatal -, mas referiu ser necessário um consenso social para esta mudança, que tem implicações na aviação comercial e nas operações de uma empresa de capital aberto.

Já a resolução sobre passaportes visa “proteger a dignidade dos nacionais e garantir conveniência e segurança nas suas viagens internacionais”, referiram os legisladores. Nas capas dos passaportes taiwaneses lê-se “República da China” em chinês e inglês e “Taiwan” apenas em inglês. A referência a Taiwan foi adicionada em 2003.

Políticos de alguns partidos pró-independência pediram a retirada de “República da China” da capa dos passaportes, proposta que alguns taiwaneses consideram inconstitucional, pois implica a independência formal de Taiwan.

ZAP //

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