Alemanha em “discussões” para comprar vacina russa Sputnik V. Regiões espanholas pressionam Sánchez

Georgi Licovski / EPA

A Rússia começou esta quinta-feira as “discussões” com representantes do Governo alemão para a venda da vacina russa Sputnik V contra a doença covid-19.

Numa mensagem na rede social Twitter, os investigadores e autores da vacina adiantaram que o Fundo Soberano da Rússia (RDIF), que financiou o desenvolvimento do fármaco, deram início às negociações com Berlim para “um contrato de aquisição antecipado” da Sputnik V.

A agência noticiosa France-Presse (AFP) observa que as negociações de Berlim com Moscovo estão a decorrer sem esperar “luz verde” da União Europeia (UE) e apesar das reservas que a vacina russa continua a suscitar na Europa.

Horas antes das declarações dos investigadores russos, o ministro da Saúde alemão, Jens Spahn, anunciou a intenção de dialogar com as autoridades russas sobre o assunto. Spahn justificou a decisão de a Alemanha avançar sozinha devido à recusa da Comissão Europeia em negociar em nome dos 27 a compra da Sputnik V, ao contrário do que fez com outras vacinas contra a doença covid-19.

“Expliquei, em nome da Alemanha, ao Conselho de Ministros da Saúde da UE que discutiríamos bilateralmente com a Rússia, antes de mais nada, para saber quando e que quantidades poderiam ser entregues”, indicou Spahn à rádio pública regional WDR.

A iniciativa foi já criticada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmytro Kuleba. “Quando se trata da Sputnik V, todos os países devem estar cientes do duplo preço a pagar: o preço financeiro e o preço político”, alertou Kuleba, em declarações ao diário alemão Bild, na sexta-feira.

“[Moscovo] não procura, infelizmente, nenhum objetivo humanitário, mas usa-a como uma ferramenta para estender a sua influência”, acrescentou.

Recentemente, também o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Yves Le Drian, criticou a Rússia por fazer da vacina uma “ferramenta de propaganda” no mundo.

Por seu lado, o comissário europeu para o Mercado Interno, Thierry Breton, foi muito reservado sobre a utilidade para a UE, do ponto de vista industrial, recorrer a vacinas chinesas ou russas, que não seriam produzidas e entregues com a rapidez necessária. “Será que eles nos vão ajudar a atingir a nossa meta de imunização da [população] até ao verão de 2021? Receio que a resposta seja não”, afirmou.

Segundo as autoridades alemãs, a entrega da Sputnik V continua sujeita à “luz verde” da Agência Europeia de Medicamentos (EMA). Por outro lado, as entregas russas só devem acontecer nos próximos dois a cinco meses.

Regiões espanholas pressionam Governo

De acordo com o jornal espanhol El Mundo, até agora, só a Comunidade de Madrid havia aberto seriamente a discussão da Sputnik V, mas isto mudou drasticamente assim que se soube que o governo alemão está em negociações para possíveis entregas desta vacina.

Os principais governos regionais espanhóis tomaram nota do movimento de Angela Merkel e exigem que Pedro Sánchez pressione a UE para que, se não houver inconvenientes intransponíveis, autorize a vacina russa e possam comprar centenas de milhares de doses que os ajudam a imunizar a população mais rapidamente.

“Primeiro, é a polémica contra Madrid e depois o tempo prova que estamos certos”, disse Isabel Díaz Ayuso. “Sempre que damos um passo à frente, que assumimos coragem e responsabilidade e temos que fazer. O Ministério da Saúde reúne-se permanentemente com empresas do setor de saúde que podem oferecer soluções para a pandemia. Criticam-nos sempre e depois dão-nos razão”.

Questionada sobre se compraria a Sputnik, Díaz Ayuso disse: “Se me garantirem que vacina bem, que protege, que funciona e é lícito, farei sempre o que for necessário para salvar vidas. Um líder é obrigado a fazê-lo.

A comunidade de Valência também se destacou por querer obter um volume maior de vacinas. “Não há vacinas suficientes. Acreditamos que a compra centralizada da UE é o caminho adequado. Se a EMA autorizar a vacina Sputnik, que seja comprada, como qualquer outro imunizante autorizado, porque é claro que precisamos de mais vacinas do que as atuais”.

Para a Catalunha, haver mais vacinas é uma prioridade. “Há meses que a Catalunha pede à EMA que acelere a aprovação de todas as vacinas que existiam no mercado, fossem ou não chamadas de Sputnik”, disseram responsáveis da Generalitat da Catalunha, que querem que Sanchéz “faça lobby na Europa para que todos os imunizantes que cumpram os padrões suficientes sejam autorizados, e o mais rápido possível”.

Já para o presidente da comunidade de Castilla-La Mancha, “a compra de vacinas não pode ser o mercado persa que foi a compra de suprimentos médicos nos meses de março e abril de 2020”.

A Junta da Andaluzia assumiu a urgência de haver no país mais vacinas, avançando que “se a União Europeia não lidera” a autorização e a compra, irão eles comprá-las.

Maria Campos Maria Campos, ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Começa-se a rasgar o acordo europeu e cada um por si, safe-se quem puder! Perante tanta incompetência e teimosia em não abrirem portas a mais ninguém, parece-me ser esta a forma mais correta de avançar melhor e mais depressa.

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