Governo pode “agravar estado de emergência”. Especialistas admitem novo confinamento

Manuel de Almeida / Lusa

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, admitiu na noite de quarta-feira a possibilidade de o Governo “agravar o estado de emergência” esta quinta-feira para conter a propagação da covid-19, devido ao crescimento dos novos casos de infeção.

Durante um debate enquanto candidato presidencial, questionado sobre o recurso continuado ao estado de emergência, Marcelo Rebelo de Sousa assinalou que Portugal atingiu na quarta-feira um número máximo de casos diários, de 10.027, e disse que há que “esperar pelo número” desta quinta-feira, dia em que há reunião do Conselho de Ministros.

“Naturalmente que amanhã [quinta-feira] o Governo irá ponderar se é de manter a ideia originária de ser um estado de emergência intercalar ou se é preciso agravar o estado de emergência. Vamos ver. A ideia era esperar pelo dia 15″, acrescentou.

Marcelo não adiantou mais sobre o que poderá vir a ser decidido pelo Governo, mas rejeitou a ideia de que haja uma “banalização” do recurso ao quadro legal do estado de emergência.

O Presidente justificou a renovação do estado de emergência, referindo que “escassos são ainda os dados que possam ser relacionados com o período decorrido entre 23 e 27 de dezembro, ou seja, o período de alívio de medidas pelo Natal, bem como do período seguinte, de Ano Novo, embora os números mais recentes sejam muito preocupantes, demonstrando a imperiosidade das medidas de emergência”.

Só no dia 12 serão ouvidos os especialistas acerca dessa matéria e projeções da sua evolução imediata”, assinalou.

Segundo Marcelo, os dados nos últimos dias impõem “uma cuidadosa contenção, ou seja, permanência por uma semana do regime em vigor, até que, entre o dia 12 e o dia 13, se possa decidir acerca de eventual nova renovação, sua duração e conteúdo”.

“Novo confinamento não está fora de hipótese”

Em declarações à Renascença, o epidemiologista Ricardo Mexia e o infeciologista Fernando Maltez não descartam um novo confinamento. 

“Não está fora de hipótese, infelizmente”, disse Mexia. “Se mantivermos os dez mil casos diários nos próximos dias – o Governo já terá dados sobre essa tendência – não se pode tirar essa hipótese de cima da mesa”.

Para Maltez, “do ponto de vista teórico, há necessidade desse confinamento”, mas é preciso “medir as consequências do ponto de vista económico e social”. O especialista fez um apelo aos portugueses, dizendo que “temos agora de fazer um esforço suplementar no sentido de cumprir essas regras o melhor possível”.

Os dois peritos concordam que ainda não estamos na terceira vaga. “Os próprios epidemiologistas dividem-se quanto a estarmos ou não numa terceira onda, porque não houve um vale demasiadamente pronunciado, uma diminuição de casos demasiadamente nítida para que se seguisse agora uma subida do número de casos”, disse Maltez. “Provavelmente ainda estamos na segunda onda”

“É provável que este seja um novo período de crescimento. Não sei se pode ser chamado de terceira vaga”, esclareceu Mexia.

Mexia e Maltez não são os únicos a admitir um confinamento. Em declarações ao jornal Público, Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise covid-19 da Ordem dos Médicos, confessou a mesma possibilidade.

Para Froes, é necessária “uma análise mais fina da situação, através dos resultados dos inquéritos epidemiológicos, de maneira a caracterizar o impacto das festividades, das viagens entre concelhos e da nova variante [do SARS-CoV-2] na demografia dos novos casos e internamentos”.

É necessário perceber se a nova variante “se traduz por maior impacto nos grupos pediátricos”, “o que pode ter implicações nas medidas a adoptar nas escolas” e analisar o “risco de transmissão aos grupos mais vulneráveis”. “E, com base nessa informação, ponderar todos os cenários, incluindo o confinamento”, defendeu.

“Estamos a pagar o preço” do alívio no Natal

O aumento de casos de covid-19 verificado esta quarta-feira deve-se ao alívio das restrições no país durante a época do Natal, sendo previsível que os números se mantenham altos nos próximos dias, afirmaram especialistas à agência Lusa.

Estamos a pagar o preço de ter aliviado um bocadinho as medidas de contenção quando foi o Natal e o Ano Novo. Foi um risco calculado e não se pode dizer que fosse surpresa para quem está por dentro destas coisas”, afirmou o infeciologista Jaime Nina.

Segundo Jaime Nina, do Hospital Egas Moniz, só vai começar a verificar-se uma diminuição significativa do número de casos “quando se começar a sentir o impacto da vacinação, particularmente, nos idosos e nos lares”. “Lá para fim de março ou início de abril, se não tivermos passado para metade o número de mortos que temos neste momento, fico muito admirado”, referiu.

Jaime Nina adiantou ainda que “faz confusão” que o Governo “continue só a insistir na máscara, no confinamento e, até certo ponto, no distanciamento social” e que só estejam a ser feitos rastreios de uma “minoria de casos” em Portugal.

Também à Lusa, o virologista Pedro Simas considerou que “era esperado que, devido ao aumento significativo do número de contactos no Natal e no Ano Novo, aumentassem as infeções” pelo vírus SARS-CoV-2, que provoca a doença covid-19. Os números “devem-se àquilo que era esperado e que a sociedade portuguesa estava à espera”, adiantou Pedro Simas, admitindo que o número de casos “pode aumentar” nos próximos dias.

Estamos a viver o princípio do efeito dos contactos. Cada vez se torna mais difícil conter a disseminação do vírus, porque cada vez mais há novos focos de infeção”, referiu o especialista, para quem se “vai notar uma grande diferença” nos números da pandemia com a vacinação progressiva, que já está a decorrer.

Pedro Simas defendeu que é importante proteger as pessoas dos grupos de risco e que estão fora dos lares. “Entre 1 de outubro e 15 de dezembro, 75,5% da mortalidade veio dessas pessoas e isso faz com que seja necessário proteger esses grupos de risco”, salientou.

“O que é expectável é uma maior pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde. É previsível que isto seja o início de uma fase exponencial e temos de nos preparar”, afirmou.

A renovação do estado de emergência até 15 de janeiro foi votada esta quarta-feira na Assembleia da República. Com os votos a favor do PS, PSD e da deputada não inscrita Cristina Rodrigues, o prolongamento do estado de emergência foi aprovado.

Maria Campos, ZAP // Lusa

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3 COMENTÁRIOS

  1. O Sr. Dr. Ricardo Mexia sabe dizer quantas mortes já sucederam pela gripe sazonal?
    é que nos anos anteriores todos se queixavam que o Serviço de Urgências dos Hospitais ficam “entupidos” devido às doenças “normais” de inverno.

  2. Lá andam eles com as “vagas” ! É a primeira vaga, segunda vaga, até já estão a pensar na terceira. Tudo isto serve para “tapar o sol com uma peneira” como diziam os comunistas no tempo em que ainda falavam.
    A vaga foi sempre a mesma porque nunca o Covid foi convenientemente ou melhor eficientemente controlado. Razões para isto são múltiplas. Todas elas começam e acabam na incompetência da administração do estado. Não havia máscaras nem dinheiro e a senhora Directora Geral veio dizer que a máscara não produzia efeitos positivos mesmo quando já todo o mundo estava informado do contrário. Lá foram aparecendo as máscaras e assim tornaram-se obrigatórias. Estivemos confinados quatro meses até à necessidade de comemorar o 25 de Abril. A partir do momento em que o Sr. Presidente da AR fez finca pé dessa comemoração a contestação já não parou e porque já ninguém se calava e também porque dava jeito económico, parámos o confinamento. Desde essa data até agora a pandemia só abrandou no verão porque o virus não resiste a temperaturas elevadas e tem uma vida curta (2 horas) a partir dos 40ºC. Acabou-se o verão e lá vem a contaminação a acelerar até que chegámos aos dias de hoje e é o que se vê.

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