Segunda vaga da covid-19 aumenta fosso entre ricos e os pobres em Madrid

Mário Oliveira / SEMCOM

A capital de Espanha foi a mais atingida da Europa ao nível de contágios e mortes por covid-19, situação que levou a presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, a decretar o bloqueio parcial da cidade durante duas semanas. O aumento da desigualdade social é das consequências mais visíveis da pandemia.

Segundo um artigo do editor do Huffpost Guillermo Rodríguez, publicado na quinta-feira, os aplausos que se viam nas varandas de Espanha, em solidariedade aos profissionais de saúde, deram lugar a protestos nas comunidades mais pobres de Madrid.

As regras de contenção – que incluem a proibição de deslocamento, a não ser em caso de necessidade – afetam 37 bairros da cidade, a maior parte dos quais compostos por famílias com baixa receita. Nessas zonas vivem cerca de 885 mil pessoas, o que equivale a 13% da população da capital.

De acordo com Guillermo Rodríguez, a pandemia já não é apenas uma questão de saúde. Enquanto nos bairros ricos a vida corre dentro do normal, naqueles com menos recursos as pessoas enfrentam problemas adicionais, reabrindo assim o debate sobre a discriminação no país e mostrando que o vírus não afeta indivíduos, mas classes sociais.

Muitas das famílias desses bairros menos favorecidos vivem em situações precárias, em moradias ou apartamentos pequenos. As ruas são muito estreitas, os serviços mal conservados e o transporte público está, geralmente, lotado. Como notou o editor, ficam assim reunidas as condições perfeitas para o vírus se propagar.

Além disso, muitos dos habitantes dessas regiões trabalham no setor dos serviços, na hotelaria e nas limpezas, ou cuidam de dependentes.

“A propagação da infeção está a ocorrer, entre outras coisas, por causa do modo de vida dos nossos imigrantes em Madrid”, afirmou na semana passada Isabel Díaz Ayuso. As declarações da presidente da Comunidade de Madrid causaram polémica, levando a responsável a esclarecer que não era se tratava de racismo, mas sim de uma realidade.

Alberto Morante / EPA

“É parte da nossa responsabilidade política não lançar mensagens xenófobas que estigmatizem os migrantes, especialmente nestes tempos delicados”, referiu, por sua vez, a Comissão Espanhola de Ajuda aos Refugiados. “Palavras como essas representam um perigo para a coexistência que devemos construir”, frisou.

A verdade, continuou Guillermo Rodríguez, é que a incidência de covid-19 em alguns dos bairros mais pobres de Madrid – todos localizados no sul, com uma grande população de imigrantes – é muito maior do que a registada em bairros mais ricos, localizados na zona norte da cidade.

Em Carabanchel, por exemplo, um dos bairros pobres, foram registados 884,24 casos por 100 mil habitantes em meados de setembro; em Usera 1.155,71; em Villaverde 1.157,47 e em Puente de Vallecas 1.240,76. Em Retiro e Moncloa-Aravaca, mais a norte, os casos não chegaram a 500 por cada 100 mil habitantes.

Poucas horas antes do bloqueio seletivo entrar em vigor em Madrid, os habitantes das áreas afetadas começaram os protestos contra as medidas “discriminatórias” da presidente conservadora, que “segregam” a população. “Fascista Ayuso” ou “Não é confinamento, é segregação”, foram alguns dos ‘slogans’ empunhados pelos manifestantes.

Para o editor, a manifestação de domingo, organizada por sindicatos, partidos de esquerda e associações de bairros de Madrid contra as medidas “inúteis e claramente segregacionistas” de Díaz Ayuso foi apenas uma provocação.

Entres outras reivindicações, os manifestantes pediram um aumento no número de testes para a covid-19, mais funcionários nos laboratórios e mais materiais para reduzir o tempo de espera dos resultados. Exigiram ainda a criação de um comité científico para “orientar e controlar” todas as decisões relativas à pandemia.

“Com as medidas que foram anunciadas, estão a levar os nossos bairros de volta para o século 14. Estão a prender-nos como se tivessem isolado as áreas afetadas pela Peste Negra. Os trabalhadores não podem deixar os seus bairros, exceto para viajar como gado no metro, para produzir e manter os negócios em movimento, para que possam continuar a ganhar dinheiro. Mas só por isso. A polícia, e até o exército, farão com que não saiamos do perímetro para mais nada”, afirmou ao HuffPost o historiador Rubén Fernández-Avilés.

ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. problemas de ricos e pobres ‘e simples… se governos obrigassem as empresas a criar um fundo de sobrevivencia para um ano no minimo e nunca ficarem com mais de 20 cento do lucro para si… ora patroes pagam o que querem uma miseria, ficam mais ricos a pala do desgracado…. politicos ainda esfolam mais o desgracado com impostos… assim vai vida nos paises capitalistas… se houvesse democracia a serio a coisa seria bem difrente….mas temos uns politicos alvarentos…

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