Terra atacada por extraterrestres hostis. Invasão começou em New Jersey

Há 80 anos, os EUA viveram horas de pânico com a primeira fake news de que há registo. Durante a emissão radiofónica da CBS, o ator Orson Welles interrompeu a programação para dar uma notícia de última hora: os marcianos estavam a invadir New Jersey. A notícia aterrorizou os ouvintes, que acreditaram que a Terra estava sob ataque de alienígenas hostis.

De acordo com o relato do locutor, tinham ocorrido explosões inusitadas em Marte e, como consequência, nuvens de gás dirigiam-se para a Terra. A música voltou à emissão, até que foi novamente interrompida por outra notícia igualmente assustadora: tinha sido avistado um objeto estranho num campo do estado norte-americano de New Jersey.

No entanto, as notícias eram falsas. O brilhante desempenho de Welles era, na verdade, a interpretação de uma versão de rádio-teatro do romance “A Guerra dos Mundos” (1898), de H. G. Wells, que narrava a invasão de extraterrestres ao nosso planeta.

Esta interpretação fazia parte de uma série semanal de transmissões dramáticas criadas em parceria com o Mercury Theatre on the Air para a emissora CBS, segundo a transcrição do próprio programa.

Para a produção deste episódio, Welles recorreu de forma genial a todos os recursos radiofónicos da época, interrompendo o programa musical com blocos de notícias de “última hora”. Além disso, o ator entrevistou ainda supostos especialistas e testemunhas oculares de forma a dar credibilidade à sua história.

Tal como nota a Deutsche Welle, a peça dava conta aos ouvintes que, apesar do perigo, era possível deter os invasores alienígenas, que iam incendiando exércitos completos e lançando gás tóxico na cidade de New York. O programa acabou por desencadear o pânico nas ruas da cidade.

Apesar de o programa ter conotações claramente teatrais, muitos dos norte-americanos sintonizados acreditaram que a ameaça alienígena era real, e as manchetes dos jornais no dia seguinte comprovaram isso mesmo – o pânico generalizado.

“Milhares de ouvintes saíram a correr das suas casas em New York e New Jersey, muitos dos quais com toalhas no rosto para se protegerem do ‘gás’ que o invasor estaria a espalhar”, escreveu o Daily News no dia seguinte, citado pelo Live Science.

British Library

Ilustração da edição de 1906 de “A Guerra dos Mundos”, de H.G.Wells, por Henrique Alvim Corrêa

A intemporalidade das fake news

O objetivo de Welles não passava por assustar os seus ouvintes, mas antes diverti-los. No entanto, é importante frisar que, à luz da época, os americanos viviam sob o medo real de que uma guerra atravessasse o país.

Na altura, em 1938, os norte-americanos iam recebendo informações terríveis sobre a Alemanha nazi, enquanto os britânicos já testavam máscaras de gás, caso fossem assolados por um ataque bélico. O EUA estavam envolvidos numa onda de medo.

Enquanto a peça teatral ia sendo transmitida, muitos norte-americano ligaram para a polícia, relatando nuvens de fumaça no horizonte, supostamente fruto das batalhas que as pessoas iam travando com os marcianos. Alguns habitantes foram ainda mais longe, afirmando ter visto alienígenas. Outros, por sua vez, estavam convencidos de que os invasores fossem alemães. O pânico estava instalado.

Como frisou a revista Slate, no 75º aniversário do programa de Orson Welles, as verdadeiras fake news só foram difundidas no dia seguinte através de meios de comunicação que descreveram histórias de pânico e histeria em massa nas ruas.

Na altura, jornais como o New York Times ou o Boston Daily Globe aproveitaram o momento para descredibilizar os novos média, rotulando-os como fonte pouco fidedigna e pouco responsável. Atualmente, acredita-se que essas notícias tenham sido clara e extremamente inflamadas, não sendo possível falar em histeria nas ruas.

(dr)

“Ouvintes radiofónicos em pânico, levaram uma peça de guerra como um facto”, escreveu o NYT

Curioso é que o pânico gerado pela adaptação da “Guerra dos Mundos” continua bem atual. E, também na época, a peça de Welles desencadeou discussão. Até Adolf Hitler abordou o assunto, gracejando com “homenzinhos verdes que invadiam países”.

Apesar de o diretor da emissora explicar, em 1938, que o objetivo da emissão passava apenas pelo entretenimento, em 1955, e em entrevista à BBC, apresentou outras motivações: “Quando fizemos o programa dos marcianos, estávamos fartos de que tudo o que vinha dessa caixinha mágica, a da rádio, fosse simplesmente engolido“.

Assim, sustentou, a encenação foi, de certa forma, um ataque à credibilidade da rádio. “Queríamos fazer com que as pessoas entendessem que não podiam aceitar tudo o que saísse dos microfones”, explicou.

Tudo isto aconteceu há 80 anos, numa pacata noite de domingo, a 30 de outubro, na véspera do Halloween. No entanto, o assunto não podia ser mais atual. As fake news assombram hoje, mais do que nunca, os media, afetando leitores, ouvintes e telespectadores.

É ainda de salientar que todo este pânico foi gerado numa época em que não havia redes sociais – que certamente teriam amplificado toda a polémica. Atualmente, as fake news não são menos recorrentes, o seu propósito é que é outro – passamos do entretenimento às campanhas eleitorais e às influências nas urnas.

É incontestável: as fake news são transversais ao próprio tempo, e não vieram de Marte.

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4 COMENTÁRIOS

  1. Isto foi A experiência social que ditou que a Humanidade não estava preparada para saber da existência real de extraterrestres e, por isso, e em nome da Segurança Nacional, ninguém do meio industrial-militar está autorizado a fazer essa revelação.

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