Uma única mutação estragou a vida aos cavalos — e mudou a dos Humanos para sempre

Wellcome Collections / Wikipedia

Um soldado chinês com armas às costas, a cavalo, aguarela de Charles Wirgman, ca. 1857.

Diz uma frase popular que o azar dos cavalos foi terem o dorso com a largura perfeita para encaixar no quadril dos homens. Mas o que lhes estragou verdadeiramente a vida foi uma mutação… que os tornou menos nervosos.

Os cavalos não mudaram apenas a forma como as pessoas viajavam: redefiniram o curso da civilização.

No entanto, os cientistas sempre se questionaram como, exatamente, os animais selvagens das estepes se transformaram nos companheiros que se deixavam montar, puxavam carruagens, transportavam guerreiros e, eventualmente, sustentaram impérios.

Agora, um novo estudo de ADN antigo de cavalos, recentemente publicado na revista Science, oferece uma resposta precisa: uma peculiaridade genética num único gene, chamado GSDMC, ajudou a transformar animais nervosos em criaturas mais dóceis, que os humanos podiam selar e montar.

Depois de essa variante genética se ter espalhado na população destes equídeos, a história da humanidade disparou… a galope.

A equipa de investigadores, liderada por Xuexue Liu e Ludovic Orlando, investigadores da Universidade de Toulouse, em França, analisou genomas de cavalos de um período de milhares de anos, e rastreou 266 marcadores genéticos ligados a características como comportamento, tamanho corporal e cor do pelo.

Os seus resultados sugerem que a domesticação precoce não começou com pelagens vistosas ou estruturas mais altas. Em vez disso, os primeiros criadores, sem surpresa, selecionaram os animais pelo seu temperamento.

Um dos primeiros sinais de seleção apareceu no gene ZFPM1, ligado em ratos à ansiedade e tolerância ao stress. Essa mudança genética, há cerca de 5.000 anos, pode ter tornado os cavalos apenas um pouco mais calmos — suficientemente dóceis para as pessoas os manterem por perto.

Mas a verdadeira revolução veio alguns séculos mais tarde. Há cerca de 4.200 anos, cavalos portadores de uma versão particular do gene GSDMC começaram a dominar a população da espécie.

Nos humanos, variantes próximas deste gene estão associadas a dores crónicas nas costas e estrutura espinal. Mas para cavalos e ratos de laboratório, a mutação remodela as vértebras, melhora a coordenação motora e aumenta a força dos membros. Em suma, tornou os cavalos montáveis.

Os números são impressionantes. A frequência da variante GSDMC disparou de 1% para quase 100% em apenas alguns séculos, realça a ZME Science.

O paleogeneticista Laurent Frantz, investigador da Ludwig-Maximilians-Universität, em Munique, que não participou no estudo, considera que esta é uma seleção “quase sem precedentes na evolução“.

Para comparação, a mutação humana que permite aos adultos digerir leite, uma característica com enormes vantagens de sobrevivência, espalhou-se muito mais lentamente, com uma força de seleção de apenas 2 a 6%.

“As condições certas para a ascensão do cavalo montável materializaram-se há cerca de 3.500 anos na Estepe Euroasiática, a norte do Mar Cáspio”, explica Frantz. “Foi então que as culturas locais começaram a procurar animais para a guerra e transporte em vez de alimento“.

As estrelas genéticas alinharam-se: mutações raras já presentes em cavalos selvagens encontraram a ambição humana.

ZAP //

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.