O período de pânico e agitação em França conhecido como o Grande Medo foi desencadeado por rumores deliberadamente difundidos, que “infetaram” cidade após cidade, concluiu um novo estudo, que usou métodos de epidemiologia métodos retirados dos manuais das pandemias.
Em 1789, os rumores espalhavam-se como um vírus por toda a França: bandos de salteadores estariam a atacar aldeias, destruir colheitas e aterrorizar camponeses, mobilizados por nobres que tentavam reprimir a agitação política.
Nada disto era verdade.
Mas o pânico e a instabilidade resultantes, conhecidos como o Grande Medo, ajudaram a alimentar a Revolução Francesa — e desencadearam um debate que ainda hoje divide os historiadores.
Terá havido um esforço deliberado para fazer avançar a revolução através desses rumores? Ou terão eles surgido de forma espontânea, motivados pelo terror genuíno?
Num novo estudo, cientistas recorreram agora a métodos da epidemiologia para resolver o enigma de longa data.
Baseando-se em registos históricos e em modelos desenvolvidos para monitorizar epidemias, os investigadores concluíram que a propagação do medo teve raízes racionais, e não apenas emocionais.
“Conseguimos identificar a lógica por detrás da disseminação do Grande Medo”, afirma Antoine Parent, economista na Universidade Paris 8 e coautor do estudo, publicado na quarta-feira na revista Nature.
“Usar dados para medir objetivamente acontecimentos sociais é o novo paradigma no estudo das dinâmicas humanas”, diz Walter Quattrociocchi, cientista informático especializado em sistemas complexos na Universidade Sapienza de Roma, que tem estudado a disseminação de desinformação online, que não esteve envolvido no estudo.
“O nosso estudo foca-se em algo que podemos medir; é ciência, não é apenas especulação”, salienta Parent.
Rumores revolucionários
Os boatos conspirativos que circularam por França em julho e agosto de 1789 levaram camponeses a invadir castelos e a destruir registos de propriedade — documentos que, em alguns lugares, eram cruciais para a autoridade dos senhores sobre as terras.
Estes acontecimentos estiveram entre os momentos mais marcantes dos primeiros dias da Revolução Francesa, movimento que aboliu a monarquia, pôs fim ao feudalismo e transformou o sistema político do país.
Parent, cujo trabalho consiste em aplicar a análise de sistemas complexos ao estudo da história, conheceu os seus coautores — o físico Stefano Zapperi e a patologista Caterina La Porta, ambos da Universidade de Milão, Itália — numa conferência.
Quando lhes falou do seu projeto de investigar a propagação de rumores durante o Grande Medo, La Porta teve uma ideia: “Disse: ‘Porque não usamos as técnicas que aplicamos no estudo das epidemias?’”.
Como base da sua análise, os autores recorreram a um livro de 1932 do historiador francês Georges Lefebvre, que reuniu cartas e outros documentos que mostravam como os rumores se deslocavam de um local para outro, e usaram ainda mapas rodoviários históricos para identificar as possíveis rotas de disseminação.
Com essa informação, criaram um mapa detalhado do movimento das histórias, de cidade em cidade. “Tratámo-lo como uma rede de transmissão de uma epidemia”, explica Zapperi.
Depois, a equipa aplicou um modelo matemático desenvolvido para estudar a propagação de agentes patogénicos, analisando a velocidade com que as histórias alarmistas se espalharam, os percursos que seguiram e as localidades mais suscetíveis de serem ‘infetadas’ por esses boatos.
Tornar-se viral
Os investigadores concluíram que o Grande Medo começou com uma fase de rápida disseminação de rumores, que depois se esgotou poucos dias após atingir o pico — um padrão semelhante ao das epidemias virais.
A partir dos dados, estimaram o número básico de reprodução, uma métrica usada pelos epidemiologistas para indicar quantas pessoas, em média, numa população totalmente suscetível, serão infetadas por cada pessoa infetada.
Neste caso, o número básico de reprodução foi 2. Qualquer valor acima de 1 significa que uma epidemia tenderá a crescer exponencialmente até atingir o seu auge.
As características sociais, económicas e políticas das localidades mais vulneráveis à receção de rumores revelam a lógica da disseminação, defendem os autores.
Por exemplo, a suscetibilidade era maior nas províncias onde a destruição dos registos fundiários colocaria em causa a posse de terras pelos senhores feudais do que nas regiões onde isso não se verificava.
Isto sugere que a propagação do medo foi dirigida de forma deliberada a áreas onde a destruição dos registos teria consequências mais significativas.
As povoações com maiores taxas de alfabetização revelaram-se também mais propensas a viver o Grande Medo do que as comunidades menos instruídas, contrariando a visão de que os rumores eram espalhados sobretudo por camponeses ignorantes movidos pela emoção.
Apesar de elogiar o rigor do estudo, Quattrociocchi questiona a aplicação de um modelo epidemiológico à disseminação de rumores. “Ser infetado é apenas uma questão de probabilidade”, afirma, ao passo que a transmissão de boatos pode ser mais deliberada.
Os autores respondem que o estudo considera a transmissão de informação de cidade em cidade, e não de pessoa em pessoa. “Uma cidade é composta por milhares de pessoas, e se uma cidade é ‘infetada’ por um rumor, isso torna-se um acontecimento probabilístico que pode ser estudado através de modelos epidemiológicos”, conclui Zapperi.
E eu a pensar que tinha sido as inspirações de um individuo para tomar poder absoluto e “libertar” o povo franceses da religião e terminar quem fosse católico e de um Rei justo, moderado e preocupado com a população. E no fim teve a mesmo destino do Rei e dos milhares camponeses na guilhotina
Estratégia antecessora da marxista/leniista de fomentar o ódio, a luta de classes para irracionalmente manipular um povo ignaro-!
A sinistra maçonaria estve por detrás desta revolução, como o seu filho, o Marxismo esteve por detrás de muitas revoluções do séc. XX!
Bem dizia Lenine: Mintam, mintam sempre, que da mentira muita coisa há-de ficar.