“Só via vermelho”, disse Pedro Dias

Paulo Novais / Lusa

Pedro Dias, suspeito de um duplo homicídio em Aguiar da Beira

Pedro Dias já está em tribunal e conta o que se passou na noite de 11 de outubro. O suspeito de Aguiar da Beira alega ter sido agredido pelo militar da GNR ao ponto de ter sido obrigado a disparar, num dia que caracteriza como o “mais negro” da sua vida.

O suspeito dos crimes de Aguiar da Beira chegou ao tribunal pelas 9h30 e começou a fala às 10h10. Pedro Dias conta que naquele dia, pelas 23h30 parou a carrinha, uma Toyota, perto do hotel das Caldas da Cavaca, porque “ia tendo um despiste” devido ao sono.

O juiz confrontou-o com a presença de um pé de cabra e uma arma dentro da carrinha. Pedro Dias negou a primeira, mas quanto à arma, disse que se justificava devido a uns “cães selvagens” que atacavam os seus rebanhos.

Pedro Dias fez uma interrupção no discurso para pedir desculpa ao juiz: como passa muito tempo sozinho, 22 horas, como fez questão de esclarecer, é provável que se perca ao longo do discurso, avança o Observador.

O homicida de Aguiar da Beira disse ter adormecido com o carro ligado, pelo que, quando a GNR chegou perto de si, não se apercebeu. “Acordei com alguém a bater-me do lado esquerdo”. “Levantei-me já com as mãos no ar e o senhor do lado esquerdo perguntou-me o que estava a fazer. Disse que estava a dormir. O agente do lado esquerdo disse-me para sair do veículo e voltou a perguntar o que estava ali a fazer, que era um sítio suspeito“, ao que Pedro Dias terá dito que não estava ali “por mal” e que “decidiu encostar ali” apenas para descansar.

Depois disso, Pedro Dias descreve as várias tentativas dos agentes da GNR de perceber se o arguido vivia na carrinha, informação que Pedro Dias sempre negou.

“Há muita coisa para a qual não consigo arranjar explicação“, afirmou Pedro Dias, recordando as insistências do militares para perceber o que estava ali a fazer. É depois disto que terão começado as agressões por parte dos GNR.

Depois de conversarem entre si, o GNR Caetano dirige-se a Pedro Dias com algemas: “Acertou-me com as algemas na mão direita e queixei-me”. “Tu afinal estás aqui a roubar”, terá dito o GNR.

“Atirou-me contra a carrinha e deu-me um pontapé na perna esquerda e começou a fazer-me uma revista”. O militar acusou-o de estar ali para roubar “Deu-me um murro, comecei a ficar assustado. Os senhores GNR eram maiores que eu, mesmo a parte física deles era superior à minha”.

“Ainda ouvi o senhor Ferreira – o outro militar – a dizer tem calma. Só perguntava o que fiz e ele voltou dar-me dois murros”. “Eu vou fazer queixa ao meu advogado, isto não pode ficar assim”, terá dito Pedro Dias e o militar ter-lhe-à dado um murro com as algemas. “Levo uma joelhada muito grande na zona da lombar. Entretanto levo mais uma joelhada na zona dos genitais, levo mais um ou dois murros. Vejo a minha arma e só penso isto tem de parar aqui. E puxo da minha arma”. Foi nessa altura que disparou. “Só via vermelho“.

“Onde é que trazia a arma consigo normalmente?”, perguntou o juiz. “Sempre debaixo do banco da carrinha”, afirmou. De acordo com Pedro Dias, o seu intuito não era matar, mas sim assustar Caetano.

Mataste o meu colega“, terá dito António Ferreira a Pedro Dias. O arguido e o militar entraram no carro da GNR e saíram do local. Pedro Dias disse que não teve noção de quanto tempo durou toda a situação.

Os dois homens acabaram por regressar ao local onde tudo tinha acontecido. “Vê lá o teu colega”, disse Pedro Dias. “Está morto”, afirmou Ferreira, ao que o arguido lhe disse para colocar o corpo na bagageira do carro. “Posto isto, eu continuava sem saber o que haveria de fazer”. Apanhou os coldres dos militares, que estavam no chão, dirigiu-se à carrinha, tirou a chave da ignição e obrigou António Ferreira a entrar de novo para o carro da GNR.

Quando confrontado com o porquê de não ter deixado o militar no local, Pedro Dias alegou “não saber explicar. Como vê, eu não estava a pensar bem“, referiu-se ao juiz. “Destruíram-me a vida”, terá dito Pedro Dias quando estava novamente no carro da GNR com Ferreira.

Depois de andarem de carro durante algum tempo, Pedro Dias terá dito a Ferreira para voltar para trás, com o objetivo de ir buscar a carrinha e contactar os advogados, relatou ao tribunal. A dada altura encostam o carro.

Uma outra viatura parou atrás e saiu uma pessoa do lado do condutor – Luís Pinto. “Vê lá o que vais dizer”, terá dito Pedro Dias a Ferreira. O militar terá aproveitado o momento para sair do carro e “quando olho o senhor Ferreira está-lhe a dar um tiro. Tentei que o condutor fugisse, mas ouvi logo outro disparo. Ainda gritei para a senhora fugir, mas ouvi de seguida dois ou três disparos”.

“Encostei-lhe a pistola na cabeça e disse para atirar a pistola para o chão. O Ferreira é que disparou sobre o casal. Quando cheguei perto dela, já não se mexia. Ele estava caído na lateral do carro e tinha sangue na cara. Nem pensei em ajudar. Só pensei em imobilizar o guarda”.

Pedro Dias diz ter ficado mais descansado depois de algemar o militar, mas, ainda assim, afirma que este o conseguiu agredir. “Não sei como, mas ele atirou-se a mim e eu disparei. Perdi todas as forças. Achei que o tinha matado e pensei em dar um tiro na minha cabeça. Mais uma vez, eu só queria sair dali e afastar-me o mais possível. Voltei a pegar no carro patrulho e regressei ao local onde o casal estava caído”, descreve.

“Meti o carro patrulha num caminho de terra e fui ver como estava a senhora. Estava muito fria e não senti pulsação. O senhor também não tinha pulso. Acabei por arrastar o corpo do senhor para ao pé da senhora”, diz. “Peguei no carro da Liliane para fugir”, assume Pedro Dias.

Segundo o Jornal de Notícias, a defesa preparada para a sessão de julgamento envolve contrariar a acusação do Ministério Público e negar qualquer responsabilidade na morte de Luís e Liliane Pinto, o casal de Trancoso morto a tiro na nacional 229, quando seguia a caminho de uma consulta de fertilidade em Coimbra.

Será, aliás, uma tese coerente com o depoimento da irmã do arguido, que depôs em tribunal dizendo que o “Piloto” chorou a morte de Liliane, porque perdia uma testemunha que o poderia ilibar da acusação de homicídio sobre o casal.

ZAP //

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13 COMENTÁRIOS

  1. Um autentico Rambo!!
    Foi oprimido pelas autoridades e que depois de uma boa “tareia” ainda consegui andar vários dias fugido, onde atravessou o rio Douro a nado, escondeu-se debaixo de agua, etc, etc – e depois de tudo apareceu sem nenhuma marca, bem vestido e com a barba feita!!
    E claro que foi o GNR que disparou contra um casal inofensivo para depois este assassino louco fugir no carro deles… é que faz todo sentido!…
    A irmã (e restante família cúmplice do assassino) também mereciam o mesmo destino deste bicho!…

  2. Uma história coerente .. sim senhor, um GNR vê o seu colega ser assassinado, é feito refém por quem matou o colega, mas tem uma arma e quando param não resolve atacar quem assassinou o colega, mas coerentemente o GNR sai do carro para uma viatura e mata duas pessoas que passam ali por acaso. Só tenho pena que em Portugal a pena máxima seja de apenas 25 anos dos quais mal cumprirá 20. Tudo isto devia-se ter passado nos Estados Unidos … aí sim haveria justiça.

  3. Vergonhosa a campanha na comunicação social para inocentar o criminoso.
    O tempo de antena dado aos advogados de defesa, e as histórias mirabolantes que fazem de Pedro Dias uma virgem inocente.
    É uma boa altura para acabar com o cúmulo jurídico de penas, e com o limite dos 25 anos. Somando todas as penas de todos os crimes cometidos, o “rambo” não saia mais da cadeia.

      • Anda distraído… no fim do julgamento logo se verá.
        Nem o rótulo da imagem escapa… “Pedro Dias, suspeito de um duplo homicídio em Aguiar da Beira”.
        Pois não é duplo. É TRIPLO ! Um casal e um Gnr, e ainda mais dois na forma tentada.

        • Ok…
          Eu também sei que é triplo homicídio e mais umas dezenas de outros crimes, mas, a comunicação social (neste caso o ZAP) ao dizer duplo invés de triplo está a “inocentar o criminoso”?!
          Na comunicação social que não vi nada que o favorecesse… claro que eles tentam fazer “render o peixe”, ouvindo os advogados de defesa, etc…
          Os únicos que critico é o Sexta às 9 da RTP que o ajudou a fazer a “rendição em directo” e que lhe deu tempo de antena e oportunidade de se fazer de coitadinho!…
          Mas, fora a família (que deve ser escória como ele!) e os advogados de defesa (que são pagos a peso de ouro para tentar defender o indefensável), NUNCA vi ninguém a tecer qualquer comentário que o desculpasse!

  4. Porcos imundos destes não deveriam ter direito a gastar mais o precioso ar que respiram …. Era lambuzá-lo de banha e atirar o porcalhão para dentro de uma jaula de cães esfomeados …. E a família deveria ser presa por falta de respeito ás vitimas – bem como a advogada – não terá a mesma forma mais digna de ganhar dinheiro do que inventar uma história da treta destas?? … granda porca.

    O que vale é que os juizes gostam pouco de ser gozados e ainda vais apanhar com mais anos em cima javardo

    • Acima de tudo que seja certo que os juizes, alguns… tem formação jurídica e moral e por isso que se faça direito, porque a justiça é, pelos vistos, subjectiva…Nao sabendo o que poderá ser verdade ou mentira quanto aos factos, o que tenho a certeza é que os Magistrados e os advogados estão a fazer o trabalho deles, e, por absurdo, mesmo que julgados moral e deontologicamente não podem nem devem ser insultados por cumprirem o seu dever profissional. Poupe-se o insulto, porque a todos assiste o direito à defesa, alguém tem de o fazer… e, não me reportando a estes factos, mas simplesmente à evidência de estarmos num país onde se passa de cidadão a arguido só porque alguém que nos quer fazer a vida num caos é capaz de se auto-agredir e fazer queixa-crime… isto acontece TODOS OS DIAS e ainda bem que existem advogados e magistrados que são capazes de exercer a nossa defesa!

  5. alguem ficou ambicioso demais….ou o vendedor, ou o comprador
    nao se sabe e, talvez nunca se venha a saber a verdadeira historia mas, uma coisa é certa O GNR QUE SOBREVIVEU cheira a esturro ao longe….
    porquê o pedro dias foi procura lo no posto antes do que aconteceu???
    alguem ficou MUITO ambicioso…o colega morreu porque nao compactuou com o esquema, o casal morreu porque estava no local errado na hora errada…quem o fez nao se sabe mas, o géninho tem culpas no cartório

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